Doutor Sono, sequência de O Iluminado, entrou em cartaz nos cinemas nesta semana. Com Ewan McGregor no papel principal, o novo filme de Mike Flanagan pretende finalmente terminar a história de um Danny Torrance adulto.

O Iluminado é considerado um dos melhores filmes de terror de todos os tempos, e uma das obras-primas de Stanley Kubrick. Aclamado mundialmente, o longa não conseguiu agradar alguém bem importante: Stephen King.

O autor de O Iluminado nunca foi tímido em relação à sua antipatia pelo filme de Kubrick, criticando durante o projeto desde seu lançamento em 1980.


Reunimos abaixo as principais razões pelas quais Stephen King odeia o filme O Iluminado; confira!

Uma obra pessoal

Em um panorama geral, a razão do ódio de Stephen King por O Iluminado é bastante simples: o autor acredita que a adaptação de Stanley Kubrick vai completamente contra a mensagem que ele tentou passar com o livro.

E como a obra em questão foi O Iluminado, King levou para o lado pessoal. Para quem não sabe, O Iluminado é uma das histórias mais pessoais do autor. O livro explora o alcoolismo de Jack Torrance como principal força motriz, focando mais na relação do autor fracassado com sua família e as agressões cometidas contra Danny do que em assombrações no hotel.

O Iluminado foi criado como reflexão sobre os problemas do próprio Stephen King com o alcoolismo. O livro nada mais é do que uma metáfora sobre os efeitos do vício em bebidas sobre uma família. Especialmente a parte em que Jack confessa ter agredido Danny em um momento de bebedeira, que traz para a trama um dos piores medos de Stephen King: machucar sem querer a própria família enquanto perde o controle.

Felizmente, o autor já superou o alcoolismo e está sóbrio há muitos anos.

A maior diferença entre o livro e o filme de O Iluminado acontece no final. Na obra de Stephen King, Jack Torrance consegue sua redenção e permite que sua família deixe o hotel. No filme de Stanley Kubrick, o personagem de Jack Nicholson simplesmente morre congelado.

Os personagens

Stephen King também não gostou da maneira como os personagens de O Iluminado são caracterizados no filme.

Primeiramente, na versão literária de O Iluminado, o leitor conhece Jack como um homem comum que realmente tenta fazer o melhor para sua família. É na lenta descida de Jack a um estado de completa loucura que se estabelece uma das principais bases da trama.

No filme, desde o início o espectador tem a clara noção de que Jack Torrance é um doido, prestes a explodir a qualquer momento. A escalação de Jack Nicholson para o papel deu toda uma dimensão a mais de loucura para o personagem, algo que Stephen King viu como uma traição a um dos aspectos principais do livro.

Além disso, o autor detestou a maneira que Stanley Kubrick trata a personagem Wendy. Embora King tenha elogiado a performance de Shelley Duvall, descrita por ele como “impressionante e comprometida”, o escritor detestou a forma como o filme faz Wendy parecer fraca. Segundo ele, a esposa de Jack é bem mais dinâmica e bem desenvolvida no livro.

Especificamente, Stephen King afirmou que Wendy é “uma das caracterizações mais misóginas de uma personagem que já vi no cinema. Ela está lá basicamente só para gritar e se comportar de forma estúpida. E essa não foi a mulher que escrevi”.

Humanidade e frieza

Na visão de Stephen King, O Iluminado sofre com a ausência do dinamismo e humanidade presentes no livro. O filme é, em comparação, bastante cínico e niilista, o que não agradou o autor.

O longa de Stanley Kubrick não tem compaixão por seus personagens, o que é comprovado pelo final diferente de Jack.

Em uma entrevista, King afirmou que O Iluminado é “uma experiência mórbida e ao mesmo tempo vazia, superficial e falsa”.

Stephen King na maioria das vezes se esforça para enxergar o melhor até nas piores adaptações de suas obras. O grande problema de O Iluminado foi o fato de Stanley Kubrick desafiar exatamente alguns dos pontos principais de um livro pelo qual o autor tem um grande apreço pessoal.

Para finalizar, Stephen King deu seu veredito definitivo sobre O Iluminado em 2006: “É um Cadillac sem motor. Você não pode fazer nada a não ser admirá-lo, como uma escultura. O propósito principal foi retirado: contar uma história”.

Doutor Sono está em cartaz nos cinemas brasileiros.