Nessa nossa terceira edição mensal da coluna Canto Cult, pensamos em variar um pouco o estilo da coluna – ao invés da análise do culto e da substância de um clássico como Blade Runner (1982) ou The Rocky Horror Picture Show (1975), como fizemos nos últimos meses, vamos tomar um tempo para dar crédito àqueles cineastas que vão fazer os filmes sobre os quais falaremos como clássicos no futuro!

Canto Cult #1 | Não sonhe, seja! A liberdade de Rocky Horror Picture Show


Canto Cult #2 | Blade Runner é muito mais do que só lágrimas na chuva



E sim, apesar de existirem diretores talentosos trabalhando no sistema de estúdio hollywoodiano hoje em dia, é inegável que todo esse talento nasceu do cinema independente. Colin Trevorrow (Jurassic World) começou com o minúsculo Sem Segurança Nenhuma. Gareth Edwards (Rogue One) fez primeiro o indie Monstros. Rian Johnson (Star Wars: Episódio VIII) entrou no mapa com Brick – e esses são só os exemplos recentes. De certa forma, a origem de quase todo grande cineasta pode ser traçada direto para o cenário indie, seja o americano ou o estrangeiro.

Não só por isso, no entanto, que é importante prestar atenção nesses autores e celebrá-los quando acertam. Alimentar e destacar o cinema independente é fortalecer um esquema de produção em que diretores e diretoras, assim como todos os outros artistas envolvidos em um filme, tem mais espaço para trabalhar dentro de seus desejos criativos, sem a interferência de estúdios ou da gigantesca máquina de publicidade de Hollywood. É possível fazer bom cinema nesse modelo de blockbuster? É sim, mas há algo especial no bom cinema feito com liberdade completa, e é isso que esses 10 artistas representam hoje em dia.

David Robert Mitchell com a estrela do seu Corrente do Mal, Maika Monroe
David Robert Mitchell com a estrela do seu Corrente do Mal, Maika Monroe

David Robert Mitchell

O cinema de terror vai tomar uma boa parte da nossa lista, não por favoritismo ao gênero, mas simplesmente porque é onde se fazem os melhores filmes independentes americanos hoje em dia. David Robert Mitchell ascendeu nessa cena com Corrente do Mal, de 2014, uma obra-prima que não deveria ser, dada a pouca idade de seu diretor/roteirista – no entanto, aqui estamos em frente a um filme pensado em tantos detalhes que fica difícil botar defeito.

Uma reflexão devastadora sobre o medo de envelhecer, e todos os receios que vem com a idade adulta; uma obra de sensibilidade ímpar com fotografia perfeitamente tonalizada, trilha-sonora que sussurra sintetizadores aos ouvidos, design de produção calculado para deixar os personagens perdidos no tempo, num limbo entre os anos 1980 e 2014, e uma atuação matadora da protagonista Maika Monroe, um talento para ser observado.

https://www.youtube.com/watch?v=bsVU-P5jZCU

Quando Corrente do Mal termina, fica mais do que claro que ignorar Mitchell nos próximos anos vai ser tão fácil quanto ignorar a assombração que persegue os protagonistas do filme. O cineasta de 42 anos fez só um filme anteriormente, o elogiado (e sem um pingo de terror) The Myth of the American Sleepover (2010), que toca em personagens da mesma geração “pós-adolescente” de Corrente do Mal.

O próximo projeto de Mitchell é Under the Silver Lake, auto descrito filme noir moderno a ser estrelado por Dakota Johnson (Cinquenta Tons de Cinza) e Andrew Garfield (Homem-Aranha). Esperamos ansiosos.


Jennifer Kent no set de O Babadook
Jennifer Kent no set de O Babadook

Jennifer Kent

Após tentar a sorte por anos como atriz na Austrália natal e não conseguir muito destaque, Jennifer Kent finalmente se voltou para sua verdadeira paixão: a direção. Produzido de forma independente, o experimental terror O Babadook se tornou a mania do momento em 2014 – e com muita razão. Artesanal, cuidadoso, profundo, belo, feroz e aterrorizante, o filme de Kent é de uma sensibilidade imensa e de um domínio absoluto dos instrumentos cinematográficos que a diretora tem em mãos.

Não é um filme de sustos fáceis, mas entra aos poucos no psicológico do espectador que realmente dedicar sua atenção a ele. É uma tour de force absurda de Essie Davis, em uma das grandes interpretações dessa primeira metade de década. Usa efeitos práticos e as sombras melhor que qualquer filme de terror na memória recente, sem se apoiar nos olhos turvos de um espectador injetado de adrenalina ou na pouca atenção do espectador da nova geração.

Kent é uma cineasta “à moda antiga” só nos melhores sentidos da expressão. Sua dedicação à história e aos personagens, à criação de uma atmosfera e de um senso de inquietação, é antiquada; já seu discurso metafórico, sua auto referência, sua análise da relação maternal e do nosso relacionamento com o luto – tudo isso é muito moderno.

O próximo projeto de Kent é The Nightingale, um drama australiano que coloca uma prisioneira fugitiva em busca de vingança se encontrando, nas planícies do país, com um homem aborígene, e desvendando mistérios dessa cultura esquecida.

Jeff Nichols no set de Destino Especial
Jeff Nichols no set de Destino Especial

Jeff Nichols

“Eu acho que a importância da trama nos filmes é muito superestimada”, declarou Jeff Nichols uma vez, em entrevista ao The Verge. O diretor segue essa frase explicando que, para ele, construir uma resposta emocional importa mais do que deixar mastigado ou claro para o espectador o que acontece no final de cada história – descrição melhor para a sua última ficção científica, a sublime Destino Especial, não há.

Perto do final do filme, originalmente intitulado Midnight Special, uma reviravolta estética causa no espectador atento uma resposta emocional muito gutural e instintiva, mas não sabemos com certeza o que aquilo tudo significa. O mesmo vale para O Abrigo, o celebrado filme que o trouxe para o olhar do público – estrelado por Michael Shannon (O Homem de Aço) como um homem que tem certeza de que o apocalipse está chegando.

O cinema de Nichols é sobre pessoas com missões, e o quão longe elas são capazes de ir para cumpri-las, seja lá o que esteja contido nelas. O criminoso de Matthew McConaughey em Amor Bandido está atrás de uma reunião com o seu antigo amor, e em Separados Pelo Sangue, três irmãos procuram proteger suas famílias a qualquer custo após a morte do pai.

Por isso é tão empolgante que ele esteja dirigindo, a seguir, o filme Loving – um romance sensível sobre um dos primeiros casais inter-raciais dos EUA. Não só o filme deve se mostrar uma crônica histórica importante, como um filme engajado sobre como essas duas pessoas lutaram para terem o direito de se amar.

Mia Hansen-Love no set de O Pai dos Meus Filhos
Mia Hansen-Love no set de O Pai dos Meus Filhos

Mia Hansen-Love

Com apenas 35 anos, Mia Hansen-Love é a autora mais empolgante a surgir no cinema francês em algum tempo. Após surgir como atriz em Os Destinos Sentimentais (2000), Hansen-Love largou a atuação de primeira e investiu na direção – com toda a razão. Seu primeiro filme, Tout est Pardonné, de 2007, é um espetacularmente sensível drama de reencontro entre pai e filha, estabelecendo o tom para sua filmografia que conta seis excepcionais títulos até agora.

O drama social O Pai dos Meus Filhos veio dois anos depois com uma estrutura pouco convencional, que analisava com cuidado as idas e vindas de uma família com problemas financeiros (e psicológicos). Foi nesse filme que o cinema de Hansen-Love começou a ser descrito como “cheio de vida”, e é uma descrição justa para seus personagens “acesos”, sua sensibilidade luminosa, seu realismo mágico.

Em Adeus, Primeiro Amor, ela analisou um caso de amor que começa na adolescência e só retoma oito anos depois, após muitas idas e vindas na vida de ambos. Em Eden, sua obra-prima até agora, jovens mergulhados na cena underground de Londres nos anos 90 vivem num mundo de música, cores, angústias, medos e poesia.

Ainda mais elogiado, o ainda inédito O Que Está Por Vir? analisa o suplício de uma mulher interpretada pela premiada atriz francesa Isabelle Huppert – professora de filosofia, a personagem precisa lidar com a perda da mãe, do emprego e do marido, que está tendo um caso. Sempre colocando as personagens femininas à frente, com a delicadeza e o olhar aguçado de uma verdadeira artista, Hansen-Love é uma daquelas autoras que ficará marcada na história do cinema francês.

Joachim Trier dirige Oslo, 31 de Agosto
Joachim Trier dirige Oslo, 31 de Agosto

Joachim Trier

O dinamarquês, apesar do sobrenome, não tem nada a ver com outro polêmico cineasta de lá, Lars von Trier. Aliás, muitos já o consideram muito mais interessante – desde a estreia em 2006 com o filme Começar de Novo, Trier tem recebido elogios a torto e a direito. Retratando dois amigos competitivos com aspirações a serem escritores, o filme de estreia de Trier foi saudado como energético, pulsante e ousado de tal forma que faz “a maioria dos outros filmes parecer preguiçoso”.

Seu grande momento veio com Oslo, 31 de Agosto (2011), no entanto, o filme que deixou meio mundo revoltado quando não entrou para a corrida do Oscar. A trama acompanha um viciado em drogas em seu “dia de folga” do centro de reabilitação, passando por uma entrevista de emprego e pela casa de velhos amigos – profundo, ágil, extremamente compassivo, o filme de Trier é uma das obras mais belas e empáticas sobre vício de todos os tempos.

A estreia em Hollywood do bissexto diretor veio só cinco anos depois, com Jesse Eisenberg estrelando Mais Forte que Bombas, revelação aplaudida em Cannes. Uma família fraturada estrela esse novo filme, que ganha uma atmosfera mais opressiva, mas o mesmo visual limpo e o mesmo olhar intenso e sentido sobre seus personagens.

O cinema atual precisava, talvez, de um autor humanista como Trier, que não se deixa levar pela pieguice, mas encontra uma beleza profunda em cada um dos seres humanos que retrata, e uma genuína paixão pelas partes mais artesanais do cinema (os pequenos detalhes de montagem, design de produção, figurino e fotografia). Não é a toa que seus filmes demorem tanto para ficarem prontos.


Ben Wheatley comanda Tom Hiddleston no set de High-Rise
Ben Wheatley comanda Tom Hiddleston no set de High-Rise

Ben Wheatley

Kill List é um filme tão extraordinariamente estranho que era impossível que ele passasse despercebido dos cinéfilos que mantém um olho no cinema independente. O filme de Ben Wheatley é editado, fotografado e musicado com a expressa intenção de desorientar e incomodar o espectador, mas não de uma forma óbvia como as viagens psicodélicas de Gaspar Noé. São cortes súbitos, intensificações desavisadas da trilha-sonora, a forma nada ambiciosa como o filme retrata a violência… perturbador em muitos níveis, Kill List é também genial.

Hollywood até demorou para se apropriar de Wheatley. Ele chegou por lá com High-Rise, onde Tom Hiddleston interpreta um gerente de edifício que esconde alguns segredos – e foi elogiado como sempre. Os igualmente excêntricos e improváveis Turistas (2012) e A Field in England (2013), uma comédia de humor negro e um drama de guerra recheado de horror, fizeram a ponte entre um filme e outro na carreira até agora muito intrigante do diretor/autor inglês. Próximo na fila é Free Fire, sobre um encontro mortal de gangues na Boston de 1978.

Mike Flanagan dirige Karen Gillan em O Espelho
Mike Flanagan dirige Karen Gillan em O Espelho

Mike Flanagan

Mais um verdadeiro artesão do terror moderno, Flanagan está menos interessado nos mecanismo psicológicos do gênero, e mais nos procedimentos práticos. Seu primeiro longa-metragem de destaque, O Espelho, lida com as formas bizarras pelas quais um espelho amaldiçoado mistura realidade e fantasia, presente passado, na mente de dois irmãos (Brenton Thwaites e Karen Gillan). Não é um filme perturbador, exatamente, mas é um passeio de montanha-russa guiado, com uma mão estável e geniosa que conduz a trama de forma espetacular.

O mesmo vale para Hugh: A Morte Ouve, em que Flanagan dirige a esposa Kate Siegel – em performance excelente – como uma mulher surda sendo perseguida por um assassino em sua casa. É uma premissa simples que Flanagan explora com habilidade única, usando o design da casa e as situações cada vez mais absurdas em que a protagonista se mete para criar um senso de tensão mesmo que o filme, literalmente, não saia do lugar. Em suma, Flanagan é um mágico disfarçado de diretor, e por enquanto seus truques estão funcionando – confira os vindouros O Sono da Morte e Ouija: A Origem do Mal para conferir se continuarão assim.


Robert Eggers no set de A Bruxa
Robert Eggers no set de A Bruxa

Robert Eggers

Sim, o ex-designer de produção Robert Eggers só tem um filme, mas esse filme é o melhor de 2016 até o momento. A Bruxa, feito no ano passado e lançado no comecinho desse ano, é um terror de perfeição tão suprema que fica difícil de expressar: tenso, profundo, terrivelmente perturbador e com uma mensagem a passar, recheado pela atuação extraordinária de Anya Taylor-Joy, tocando em temas espinhosos como a culpa religiosa, o conceito de “temer a Deus”, a opressão feminina e seus efeitos sobre cada uma das oprimidas por ela. Impecavelmente fotografado, com figurino, trilha-sonora e direção de arte sublimes, A Bruxa é uma primeira impressão inesquecível.

Ao que tudo indica, Eggers é um cineasta obcecado pelo oculto, que vai continuar explorando histórias de terror com elementos de folclore e um retorno aos medos mais primitivos da humanidade, que surgem diante de uma sociedade já governada e pautada neles. O mundo de A Bruxa é terrível, opressor, sombrio e, o mais assustador, muito parecido com o nosso – com seu final libertador e aterrorizante ao mesmo tempo, é a promessa de um cineasta que vai trazer uma voz nova, competente e eloquente para o cenário do cinema de terror independente, já recheado delas.


Sean Baker filmando Tangerina, com um iPhone
Sean Baker filmando Tangerina, com um iPhone

Sean Baker

O espírito independente de Sean Baker ultrapassa limites e empurra barreiras: especialmente com seu último filme, Tangerina, que quebrou vários tabus. Primeiro, o da inferioridade do formato digital – filmado todo em iPhone e com uma fotografia belíssima, o filme não perde nem um pouco de credibilidade ou da imersão por não ter equipamento profissional. Segundo, o da representação trans em Hollywood – trazendo duas atrizes trans negras para serem suas protagonistas, Baker mostrou porque representatividade importa ao trazer a história mais genuína, fascinante e humana que personagens transexuais já estrelaram na tela grande.

Antes de tudo isso, Baker contou mais histórias de personagens marginalizados: um imigrante chinês ilegal que trabalha em um restaurante em Take Out (2004), seu longa de estreia; um comerciante de produtos falsificados cuja vida se complica quando um filho do qual ele não sabia aparece em Prince of Broadway (2008); uma adolescente negligenciada que faz amizade com uma idosa em Starlet (2011). Baker é uma sensibilidade tipicamente independente, com um olhar gentil para histórias que não são normalmente contadas – é uma preciosidade a se cultivar.


Dee Rees dirige Queen Latifah em Bessie
Dee Rees dirige Queen Latifah em Bessie

Dee Rees

A estreia de Dee Rees em Pariah não poderia ter sido mais auspiciosa. Um filme saudado como uma mistura espetacular de humor, tragédia e sensibilidade com as fatias socialmente deixadas de lado, Pariah acompanhava a juventude e o descobrimento sexual de uma jovem negra no Brooklyn, interpretada com garra por Adepero Oduye, que absolutamente deveria ter virado uma estrela. Com um roteiro cuidadoso e uma direção irresponsável (no melhor dos sentidos), o filme de Rees pulsava com a energia da juventude, mas também a sabedoria para entender os sentimentos conflituosos dela.

Uma pena, portanto, que Rees só tenha feito depois o telefilme Bessie, uma produção excepcional em todos os sentidos, mas que ainda assim a privou de um grande lançamento cinematográfico na carreira. A história de uma lendária cantora de blues dos anos 30 lindamente interpretada por Queen Latifah, Bessie venceu 4 Emmys, rendeu indicação para Rees na direção e roteiro, e abriu as portas para Mudbound, seu vindouro drama de época estrelado por Carey Mulligan.

A Canto Cult retorna no dia 30 de agosto.