É oficial: This is Us é o maior sucesso da fall season americana – e se você perguntasse para qualquer jornalista de entretenimento alguns meses atrás, ele nunca ia ser capaz de prever isso. Não antes de o trailer chegar à internet, atraindo fãs do traseiro de Milo Ventimiglia que acabaram ficando por muito mais do que o belo corpo do ator. Com uma prévia certeira e tocante, que configurava a série de uma forma esperta que nenhum especialista de cultura pop poderia definir, This is Us passou a atrair, rotineiramente, 15 milhões de pessoas por semana para a NBC.

A televisão e o público americano estiveram tão fascinados por pessoas e situações extraordinárias por tanto tempo que fica difícil conceber que o único drama familiar da fall season, que se concentra na vida perfeitamente ordinária de pessoas perfeitamente ordinárias, se tornaria o grande sucesso que é. Ainda que com suas reviravoltas e jogos temporais inesperados, This is Us nunca pretende ser mais do que é, nem evocar mais do que pode – em uma fall season cheia de séries feitas sob concepções mercadológicas ultrapassadas que, por algum motivo, alguém em Hollywood ainda acha que funcionam, é uma verdadeira anomalia.


Na era dos super-heróis, das produções de gênero e do lema “mais é mais” na televisão, This is Us nos lembra da fascinação simples e inescapável de uma boa história contada de forma surpreendente, comovente e empática. É fácil se identificar com esses personagens mesmo que eles não vivam em uma realidade social exatamente igual à nossa, em grande parte por que a série não pretende que eles são a exceção por serem quebrados e falhos – pelo contrário, This is Us conta com o fato de que seus espectadores são também.

Isso e, é claro, marketing e casting espertos. Ventimiglia e Mandy Moore são queridinhos de um público que cresceu com Heroes e Um Amor Para Recordar, respectivamente, e trazem exatamente os espectadores da casa dos 20 e poucos anos que a TV americana aberta tanto cobiça. O bonitão Justin Hartley atrai um público que espera mais uma novelinha e acaba se surpreendendo (inclusive com o moço, que está muito bem). Sterling K. Brown acabou de sair de sua vitória no Emmy por American Crime Story, e Chrissy Metz é uma explosão de carisma e talento que teve papel em American Horror Story e não pode, nem deve, ser ignorada daqui para frente.

Em suma: se você não está vendo This is Us, está perdendo um pedaço de história da TV que está sendo feita agora mesmo, e um drama espetacular. Mas nem só disso vive a fall season americana.

Man with a Plan/Kevin Can Wait
Man with a Plan/Kevin Can Wait

A decadência da sitcom masculina

As duas grandes apostas da CBS nos meses que antecederam a fall foram duas comédias estreladas por medalhões da TV: Man With a Plan, com Matt LeBlanc (Friends), e Kevin Can Wait, com Kevin James (O Rei do Queens). Ambos homens brancos de meia idade há alguns anos afastados de seus grandes sucessos, que voltam para estrelar comédias tradicionais tanto no formato (sitcom com “risada encanada”) quanto no conteúdo. Man with a Plan e Kevin Can Wait tem quase a mesma trama, uma que se alimenta de medos masculinos ultrapassados para criar piadas ainda mais.

Em Man with a Plan, LeBlanc é um cara que precisa ficar mais com os filhos quando a esposa volta a trabalhar; em Kevin Can Wait, James é um policial aposentado descobrindo que tem mais problemas em casa do que nas ruas. O mito é o do homem “macho” que liga mais para o trabalho do que para o ambiente doméstico, onde a esposa reina, e toma um choque de realidade quando as coisas mudam. A concepção comum é que homens que ficam em casa ou dispensam afetos aos filhos são menos homens – e não está colando, como a queda de audiência de ambas as séries após boas estreias fez notar.

Enquanto isso, as comédias que tem surpreendido na audiência são invariavelmente estreladas por mulheres, e com um tom mais progressista ou excêntrico, fugindo do padrão da sitcom tradicional. Speechless é estrelado pela mãe (a sempre maravilhosa Minnie Driver) de um garoto com deficiência, interpretado por um ator que sofre da mesma condição. Ex-produtor de Friends, o criador Scott Silveri encontrou um público surpreendente para sua história, que já foi confirmada para primeiro ano de 22 episódios.

Enquanto isso, The Good Place vem lutando um pouco mais com a audiência, mas aos poucos acha seu público em meio àqueles espectadores que buscam algo marcadamente diferente na TV – é a complicada e deliciosa fábula moral de Eleanor (Kristen Bell, outra presença bem-vinda), uma mulher que vai parar no paraíso por engano após morrer, já que era uma pessoa terrível na Terra. Contestando o nosso próprio julgamento de bem e mal ao mesmo tempo em que não relativiza as ações de Eleanor, The Good Place deixa o espectador ansioso de um jeito bom: comédia também é feita para contestar.

Evan Rachel Wood em Westworld
Evan Rachel Wood em Westworld

A morte do anti-herói

Críticos vêm decretando a morte da era do anti-herói na TV americana há algum tempo. Começou com Família Soprano (1999-2007), frequentemente citada como a melhor série de todos os tempos, que trouxe em Tony Soprano um protagonista masculino complicado e violento, mas pelo qual o público era levado a sentir afeição. Acabou com Breaking Bagd (2008-2014), que desborrou as linhas entre o bem e o mal em seu final chocante, e com Mad Men (2007-2015), que não fez tanto, mas mesmo assim viu a saída de cena de Don Draper, uma das figuras mais emblemáticas dessa geração da TV.

Séries como Ray Donovan mantem a chama acesa, enquanto outras como Masters of Sex se desviaram da fórmula inicial habilmente com o passar das temporadas. As grandes estreias da TV fechada em 2016, no entanto, não tem anti-heróis – porque se recusam a ser tão simples assim. Partindo do modelo “mosaico” dos muitos personagens de Game of Thrones, Westworld construiu para além disso e deu vida a um mundo complexo em que anti-heroismo, vilania ou bem vs. mal não são tão facilmente definidos. Pouca gente pensa nisso, mas para ter-se um anti-herói, há de se ter uma noção clara de quando ele está fazendo o mal, mesmo que gostemos dele.

Em uma narrativa realmente complexa moralmente, o anti-herói deixa de existir tanto quanto o vilão deixou lá em 1999, quando Família Soprano estreou. A fall season de 2016 deu vida a uma nova era de televisão, e quem não seguir esse caminho vai ficar para trás – vide Conviction, por exemplo, que tentou apresentar uma anti-heroína bastante convencional, e cuja padronização opressiva nem mesmo o charme sem limites de Hayley Atwell pode disfarçar. Em plenos tempos de Peak TV, quando produções de qualidade brotam de lugares inesperados, a criatividade é rainha.

O que os últimos anos de TV tem nos mostrado, e especialmente a fall season 2016/17 nos mostrou, é que criatividade só existe de mãos dadas com diversidade, dentro de cada série e no mundo televisivo como um todo. Se a diretriz é mostrar novas histórias, com novos mecanismos e novas sensibilidades – se duas séries com a mesma fórmula mal conseguem existir, juntas, no mercado -, a diversidade é natural. Estamos aqui, meus queridos. 2016 foi o ano em que a TV percebeu que inclusão social e complexidade moral são partes indissociáveis de uma boa história.