No último dia 21 de dezembro, o Observatório do Cinema reportou que Martin Scorsese deu uma entrevista bombástica a Associated Press, falando francamente sobre sua opinião a respeito do cinema atual. O mestre, que lança o épico religioso Silence no Brasil no dia 2 de fevereiro, disparou: “O cinema está morto. O cinema com o qual eu cresci, e que ainda estou fazendo, está morto. Como construção, o cinema sempre estará lá para uma experiência em comunidade, mas que tipo de experiência será essa? Eu soo como um homem velho, o que eu de fato sou”.

Scorsese, 74 anos, ainda é vital para o cinema, e continua produzindo obras que não deixam nada a dever para seus filmes antigos. Sua obsessão por tipos duvidosos e criminosos é lendária, e seu domínio de personagem e gênero, ainda mais. No entanto, Martin Scorsese está errado – ou, pelo menos, parcialmente errado. O cinema com o qual ele cresceu, o cinema de qualidade e experimentação de linguagem, não está morto… só mudou de lugar.


Para todos os efeitos, 2016 foi mais um grande ano cinematográfico, apesar de todas as perdas de grandes artistas e toda a turbulência no mundo real (especialmente político e humanitário). A corrida do Oscar no ano que vem é a primeira prova disso, embora não seja a única: Manchester a Beira-Mar, um estudo sóbrio do luto e da desconexão com o mundo; Moonlight, um épico independente sobre um garoto negro gay; Fences, uma adaptação de teatro sobre uma família afro-americana; Até o Último Homem, um drama de guerra sobre um soldado pacifista; La La Land, um musical colorido que resgata a era do jazz; Estrelas Além do Tempo, uma história real que precisava ser contada. Não dá para dizer que o cinema está morto depois de um ano diverso como esse.

Mas como eu disse, a corrida do Oscar não é a única prova da sobrevivência dessa forma de arte. Durante o ano, talentos de todos os cantos do mundo brincaram com gêneros e convenções para entregar obras surpreendentes. Robert Eggers com o horror demoníaco de época A Bruxa; Sang-soo Hong com o drama intimista à la Woody Allen (mas, de alguma forma, melhor) Certo Agora, Errado Antes;  Paul Verhoeven com o thriller de vingança Elle; Maren Ade com a “dramédia” feminista e familiar Toni Erdmann, um filme que desafia definições; Yorgos Lanthimos com a sátira romântica The Lobster; Ben Wheatley com o suspense surreal High-Rise. Em 2016, o cinema esteve uma multidão de coisas – e morto não foi uma delas.

Paul Verhoeven
Paul Verhoeven

Advogado do diabo

Curiosamente, Scorsese não é o único cantando esse blues pessimista sobre o cinema moderno. O holandês Verhoeven, citado acima, é outro veterano que não se vê conformado com a situação da sétima arte no século XXI: “Qualquer tipo de argumento sobre a arte de fazer filmes está perdido. Até a arte do sentido está perdida. O cinema americano não tem mais sentido. Só faz sentido se fizer dinheiro. Eles se reduziram a isso, e isso é horrível. Mesmo dentro do capitalismo, o sistema pode aceitar outros sentidos que não sejam o dinheiro, mas os estúdios não entendem isso”, comentou em entrevista à ThePlaylist.

Verhoeven, um provocador excepcional que sabe cutucar as feridas certas, chega no ponto que faz a maioria dos cinéfilos concordarem com ele: o cinema comercial americano é um ambiente modorrento. Existe narrativa pop no cinema da Marvel, que existe dentro de uma cultura de criatividade da Disney que tem guiado as produções mais toleráveis e por vezes até interessantes do cinemão comercial hoje em dia – em outros lugares, no entanto, o sistema revelado por Verhoeven na entrevista continua a pleno vapor. Se não, como explicar a avalanche de continuações, derivados e remakes sem ambição narrativa nenhuma? De fato, só faz sentido se fizer dinheiro, Sr. Verhoeven.

Mais até do que isso, Paul Verhoeven sabe bem do que está falando. Entre 1987 e 2000, ele fez seis filmes em Hollywood após promissoras produções holandesas que deram o pontapé inicial em sua carreira. Na maioria das vezes, seus impulsos subversivos foram podados pelo estúdio, em maior ou menor proporção – ele vive um pouco mais em RoboCop (1987) do que na versão finalizada de Showgirls (1995), por exemplo, ou no horroroso O Homem Sem Sombra (2000). Viver em Hollywood como o rapaz estrangeiro tentando fazer coisas excêntricas deve ter dado perspectiva ao diretor, que voltou para a Europa e fez sua provocação mais bem sucedida de todas, Elle, ainda esse ano.

O ponto aqui é que talvez sirva como uma maneira radical de chacoalhar as estruturas do sistema dizer que o cinema está morto, mas a verdade é que o óbito foi mesmo do espírito artístico da maioria dos grandes estúdios de Hollywood. Fora desse sistema, o ímpeto cinematográfico continua a todo vapor, muito obrigado – e a forma como o cinema independente cada vez mais revela talentos que migram para o comercial (de Colin Trevorrow a J.A. Bayona, passando por Ava DuVernay e Ryan Coogler) anima um pouco mais. Basta ver o que David Lowery fez com Meu Amigo, O Dragão (mais uma vez, da Disney), imbuindo o filme de nostalgia e espírito indie, para entender do que eu estou falando.

Público no cinema 3D
Público no cinema 3D

Tempos mudam, pessoas não

Em suma, portanto, a verdade é que o cinema não morreu – ele apenas fugiu para as periferias de um sistema que não o aceitava, e está lentamente insinuando seu caminho de volta. Produções sem alma de Hollywood para tirar um trocado do público podem ser cada vez mais corriqueiras, mas são também cada vez mais rejeitadas, ano após ano (basta olhar para o que aconteceu com Independente Day: O Ressurgimento, Ben-Hur e Alice Através do Espelho esse ano). Isso acontece porque, como esse subtítulo adianta, os tempos mudam, mas as pessoas não.

O cinema foi e ainda é um empreendimento tão bem-sucedido da humanidade porque há algo nele que buscamos, e que não podemos encontrar em nenhum outro lugar. Há uma expressão particular e um diálogo entre grandes mentes que é traduzido na narrativa particular da cinematografia de cada país e, em um mundo globalizado, de todos eles. Como toda complicada experiência humana, essa linha narrativa comunitária guiada por impulsos individuais passa por oscilações, e por vezes nossa ânsia por conexão pode levar a uma padronização excessiva da produção cinematográfica.

É através da matéria bruta da criatividade que esse jogo começa a virar, no entanto. Quem vem acompanhando o cinema independente de horror dos EUA, por exemplo, sabe que há um boom de experiências interessantíssimas com o gênero e que alguns artistas dessa onda (Mike Flanagan e Adam Wingard vem à mente) já começam a se infiltrar no mainstream. A ascensão do cinema bizarro do Leste europeu já não é novidade, assim como as sátiras políticas afiadas, disfarçadas de fantasia, dos novos diretores gregos. A narrativa do cinema mundial cada vez mais pende para a diversidade ao invés da padronização, independente da força de Hollywood e das 10 maiores bilheterias do ano.

Por falar nisso, a 12ª bilheteria do ano foi The Mermaid, uma fantasia tragicômica chinesa sobre uma sereia que tem a missão de matar um magnata das construções que ameaça o habitat da sua espécie, mas ao invés disso se apaixona por ele. Brincando com clichês e convenções, Stephen Chow faz um filme deliciosamente vibrante e criativo, que conquistou US$553 milhões de dólares ao redor do mundo. Enquanto isso, com um orçamento abaixo da média para o gênero, a ficção científica dramática A Chegada conquistou o público mesmo sem nenhuma das marcas de uma produção “padrão Hollywood”.

O cinema pode nunca mais ser o mesmo que foi na década de 1950 ou 1970, mas na espetacular diversidade que apresenta hoje, ele só está morto para quem não tem a audácia de procura-lo.