Na Idade Média, as diversas séries de pinturas e esculturas religiosas serviam para passar as mensagens bíblicas para o povo não letrado, e para a sorte da humanidade gênios como Da Vinci, Michelangello, Rafael Sanzio e muitos outros deram toques mais do que pessoais, quase divinos, a essas obras, ficando para a história do ser humano. Passado mais de quinhentos anos desse período e com o cinema como uma das formas de arte mais difundidas nos dias atuais, algumas obras surgem com essa função de educar. No caso de Os Dez Mandamentos – O Filme a mensagem é bíblica novamente, mas aqui sem nenhum toque de gênio.

Com orçamento digno do que os grandes pintores do renascimento recebiam, Os Dez Mandamentos é uma espécie de compacto da sua telenovela de sucesso, na qual cada episódio teve um custo médio de 700.000 reais. Com seus 176 capítulos, o orçamento do longa-metragem gira em torno de 123 milhões de reais (esse valor deve ser bem maior, pois houve todo um trabalho de mixagem de som para o cinema e uma nova correção de cor). Com esse oásis dentro do cinema brasileiro (muitos cineastas gostariam de ter dez por cento do orçamento de um episódio para filmar um longa) é espantoso como o projeto da rede Record tem em todo instante um ar megalomaníaco; cada plano e cada fala é filmada, editada e protagonizada como se fosse a coisa mais grandiosa do mundo, e se de fato a mensagem de Moisés é poderosa, mas o filme, com toda sua pretensão, se mostra uma minúscula peça cinematográfica.

Tudo no filme parece estar um tom acima – as atuações, exatamente por esse motivo, são sempre exageradas, o que dá um tom de artificialidade aos atores, até mesmo os artistas mais competentes do elenco, como o excelente Milen Cortaz, que aparece fora de tom. Isso também acontece pelo fato de ter sido uma gravação para televisão e para uma novela, na qual as atuações dos núcleos dramáticos vão para esse tom, algo que funciona na telinha, mas não na telona.

>> CONTINUA APÓS PUBLICIDADE

E esse é um grande problema, compreender que nem tudo o que funciona na TV tem o mesmo efeito nos cinemas. E nesse caso o aspecto visual é o mais prejudicado: os pequenos defeitos que não aparecem nos televisores ampliados para a sala de projeções ficam extremamente evidentes, tanto a direção de arte quanto os efeitos especiais mostram sua defasagem diante disso, e o sentimento de megalomania nem nesses grandes defeitos é abalado. Cada cenário é filmado como se fosse a coisa mais extraordinária do cinema. E é engraçado ver que Os Dez Mandamentos – O Filme escorrega nos aspectos técnicos do cinema, a mixagem de som é mal trabalhada e algumas vezes o áudio estoura e é impossível entender o que algum personagem diz; outras tantas vezes o som da ruidagem do longa está mais alto que as falas, e isso só demonstra o quanto parece ter sido apressado essa transposição da novela para os cinemas.

E seria injusto ficar comparando a novela com o filme, nesse caso não. Fica evidente que o filme é apenas uma condensação de tudo apresentado ao longo dos 176 capítulos da novela/série da Record, e de alguns que farão parte da segunda temporada, e isso não funciona de maneira alguma. Só há a sensação que o filme não possui uma curva dramática, apenas um amontoado de informações jogadas em duas horas, um retalho de trechos e citações bíblicas costurado por uma falha narração em off de Josué que rememora todos os feitos de Moisés e dos Hebreus. E para fazer um filme adaptado de outro meio é necessário ter a consciência que deve haver concessões narrativas para a obra ficar dramaticamente realizável.

Com a correria de apresentar o maior número de informações bíblicas, os roteiristas e diretor não se preocuparam em apresentar personagens, fazer com que o espectador se identificasse com essas figuras, mesmo elas já sendo conhecidas do público. Em Os Dez Mandamentos – O Filme os personagens apenas aparecem e desaparecem como se fosse dever do público saber quem eles são e quais são suas motivações, e com tudo isso o filme praticamente não apresenta dramaticidade alguma, nem mesmo com suas diversas tentativas em slow motions e super close nos rostos dos atores – e olha que pelo pouco que conheço dos escritos bíblicos considero um dos materiais mais dramáticos da humanidade.

Com isso, Os Dez Mandamentos, pelo menos no cinema, parece apenas uma dramatização, uma simulação audiovisual de diversos trechos da Bíblia, algo que parte do pressuposto do pré-conhecimento do seu público do assunto para de forma lúdica passar sua mensagem em forma de filme. Os Dez Mandamentos, dessa forma, é um filme para uma plateia já conquistada, de duas formas diferentes, e que assim cumprirá com sua função que é de passar a sua mensagem, mesmo que de forma atabalhoada e com diversos erros, mas que parece que pouco será percebido.

De qualquer forma, Os Dez Mandamentos – O Filme conquistará toda sua popularidade de maneira mais fácil que Da Vinci ou Michelangelo, e sem ter nada da genialidade desses mestres das artes.

Os Dez Mandamentos - O Filme
COMPARTILHE: