A comédia é um dos gêneros mais desafiantes do cinema, e é difícil levar uma plateia a gargalhadas. Como chegar nesse ponto em que espectadores não cessam suas risadas, mas querem continuar presos à trama sem perder uma piada se quer? Como fazer um longa-metragem destes, onde é necessário ter timing cômico, um bom roteiro e saber quais são os limites da própria comédia, isso de fato não é para qualquer um.

Dessa forma devem ser considerados gênios esses mestres cômicos que desde o início do cinema criam obras divertidas e geniais, conseguindo dosar o irônico com o pastelão, o humor físico; e tiradas satíricas com humor negro sem precisar afetar, diminuir ou humilhar qualquer um. Da tradição de Chaplin e Buster Keaton a Woody Allen, passando pelos monstros sagrados do cinema da sátira como Mel Brooks (Alta Ansiedade, S.O.S – Tem um Louco Solto no Espaço) e o trio Zucker-Abrahams-Zucker (Apertem os Cintos… O Piloto Sumiu, Top Secret! Super Confidencial), que conseguiam unir as sátiras e os sucessos dos filmes que ironizavam com tiradas muito originais sem precisar de um sensacionalismo ou um exagero para provocar o riso.

Desde os anos 70 com o próprio Brooks percebeu-se o quão atrativo era esse filme de sátira, mas só a cópia tirando um sarro não basta. E é exatamente esse o grande problema desse tipo de filme que vêm sendo lançado nos últimos anos. É acreditar que o simples sucesso do original impulsionaria por si só o longa satírico, e é isso o que acontece com 50 Tons de Preto, que um ano depois de 50 Tons de Cinza tenta recriar de maneira cômica e irônica os acontecimentos do blockbooster do verão passado – e pensar que em Alta Ansiedade Brooks faz uma sátira de todos os longas de Hitchcock, sem precisar utilizar o que estava na moda para ser atrativo.


Além de ser atraente apenas pelo sucesso de outra obra, 50 Tons de Preto faz de tudo para provocar riso, em tentativas desesperadas de ser cômico, tentativas que passam pelas formas mais preconceituosas para conseguir tal efeito. Se o próprio 50 Tons de Cinza já tem elevados níveis de machismo, sua sátira chega a ser repugnante de tão preconceituosa. Não há em ao menos a tentativa de ironizar a obra original pelo seu conteúdo quase que misógino, 50 Tons de Preto utiliza isso apenas para pisar mais ainda nessa ferida com aquela velha máscara de que na comédia tudo não se passa de uma brincadeira, legitimando qualquer abuso.

E olha que em 50 Tons de Preto você pode escolher o preconceito a ser reclamado, tem racismo: “O que você acha que um negro faz para ganhar dinheiro? Vende drogas, é claro”, diz Christian Black, isso sem contar inúmeras vezes em que sua cor de pele necessariamente tem a ver com o tamanho de sua genitália; tem machismo a rodo, aqui poderia dar 92 exemplos, uma vez que a cada minuto de filme tem pelo menos uma menção desse tipo, tem homofobia:

“Ahh muito prazer Hannah, você é muito bem-vinda nessa casa, até porquê sempre achamos que Christian era gay, então é uma honra te receber”, diz o pai adotivo de Christian Black. Entre tantos outros exemplos, 50 Tons de Preto é tão repugnante que nem mesmo pode ser chamado de piada.

Estrelado e escrito por Marlon Wayans, o astro de todas essas sátiras desde Todo Mundo em Pânico, mais uma vez mostra que sua única alternativa para a comédia é uma séria de caretas e que isso não arranca nem um sorriso de canto de boca. Marlon Wayans é um ator que atua da mesma maneira no mesmo filme, já que todos seguem a mesma linha de piadas e etc, a mais de 15 anos, apenas comprovando o quanto é alto seu nível de canalhice.

50 Tons de Preto é um filme inadequado, que não deveria ter mais lugar junto ao público. Filmes que precisam grudar no sucesso de outro, que precisam apelar para tentar fazer rir e mesmo assim não consegue convencer. 50 Tons de Preto não honra o legado deixado por Mel Brooks, bem que esse grande gênio da comédia poderia dar umas aulinhas por aí.