O real é um aspecto muito importante dentro do cinema político, que de certa forma funciona como legitimador da narrativa ficcional vista na tela. E o “baseado em fatos reais” é um dos aspectos mais levados em consideração no cinema atual, o que já foi realidade um dia pode ser mais atrativo que a própria ficção. No entanto, acreditar que os fatos, a manchete do jornal de ontem sustenta um filme por mais de duas horas é um grande equívoco e talvez uma incômoda tendência.

Conspiração e Poder infelizmente é mais um exemplo desse caso. O filme conta a história de um furo jornalístico, em que a produtora da rede americana CBS, Mary Papes (Cate Blanchett) e um famoso âncora, Dan Rather (Robert Redford), suspeitam que George W. Bush, quando jovem, utilizou seus contatos privilegiados para não combater na Guerra do Vietnã. Essa denúncia seria feita em meio à questionável reeleição do ex-presidente americano, o que poderia manchar e muito a campanha do candidato republicano. Todavia, tanto Dan quanto Mary são fortemente acusados de conspiração e calúnia, mostrando toda a força que o governo de Bush tinha diante da mídia americana.

Tocando em pontos delicados e bastante importantes, como a própria reeleição de Bush, o sexismo na indústria da informação e, talvez a denúncia central, o corporativismo midiático. Este um assunto bem sério, que não atinge apenas os EUA, mas sim todo o mundo, na qual muitas vezes os meios de informação seguem uma clara agenda política, defendendo partidos e políticos para garantirem seus interesses.


No entanto, em ano eleitoral americano, Conspiração e Poder ganha tons quase planfetários, um ataque massivo e verborrágico ao período que Bush governou os EUA. E é extremamente importante tratar desses temas nos cinemas, os abusos do ex-presidentes são claros, mas talvez o filme retrate isso da maneira menos sutil, elegante e concisa.

Dessa maneira, o estreante James Vanderbilt (roteirista de filmes como Zodíaco e O Espetacular Homem-Aranha) realiza uma direção que não passa do correto, não chegando a ser desastrosa, mas em que momento algum chega próximo do brilhantismo. Um trabalho bem feito, porém que parece bastante pragmático. Vanderbilt, assim como a maioria dos realizadores de filmes na qual o conteúdo, a denúncia é mais importante que o próprio cinema, aposta num didatismo cinematográfico, um filme sem assinatura, esvaziado de estilo e recheado de planos extremamente expositivos.

Sendo assim, quando Conspiração e Poder necessita entrar numa chave um pouco mais dramática, o diretor aposta em sequências bastante apelativas, que alternam entre o senso comum, os diversos momentos onde os personagens estão em câmera lenta enquanto alguém proclama um discurso importante, e momentos que funcionam muito bem, como o momento em que Mary Papes em uma espécie de depoimento desabafa sobre a liberdade de expressão e a liberdade do pensamento político, e um leve movimento de câmera faz com que o espectador se aproxime do rosto da protagonista, num momento muito bem realizado e que, dessa forma, consegue emocionar.

Num longa cheio de irregularidades, cabe aos dois veteranos de Conspiração e Poder segurar o filme. Cate Blanchett e Robert Redford demonstram toda sua capacidade dramática. A vencedora do Oscar, parece estar em seu melhor momento, após Blue Jasmine, Carol e Cavaleiro de Copas (ainda inédito por aqui), Blanchett oferece uma performance bastante consistente num filme claramente menor do que os citados. Dessa forma, a protagonista chama de fato o filme para si, conduzindo e até reparando os caminhos de Conspiração e Poder.

Assim este é mais um caso de um filme que trata de um tema muito relevante, pautado inteiramente na veracidade dos fatos, mas por acreditar que apenas isto basta demonstra uma série de irregularidades, mas por ter uma grande atriz a frente do projeto tem seus bons momentos.