Em 2004, Mel Gibson dirigiu uma das maiores obras cinematográficas, cujo roteiro trouxera para os telespectadores os momentos desde a captura de Jesus até sua crucificação. O drama, portanto, propunha que os judeus eram totalmente responsáveis pela crucificação de Jesus Cristo – o que provocou na opinião pública rumores sobre reconstrução bíblica. Mas mesmo com essa imprudência, A Paixão de Cristo tem sido um referencial sobre as últimas horas do Nazareno antes de sua captura.

Já o filme Ressurreição (Risen), do diretor Kevin Reynolds, traz um soldado romano que sai em busca do corpo desaparecido do Messias – que após a crucificação teria sumido do sepulcro. Digamos que é uma continuação do que foi A Paixão de Cristo, pois traz uma investigação do governador romano após a crucificação de Jesus.

Enviado pelo rei Pilatos (Peter Firth), o soldado Clavius (Joseph Fiennes) é um cético romano que inicia uma série de questionamentos com os discípulos de Jesus de Nazaré (Cliff Curtis), para tentar descobrir se eles roubaram o cadáver. Com a ajuda de outro soldado, Lucius (Tom Felton), eles, então, iniciam a busca.
Particularmente eu gosto de histórias bíblicas, mas, francamente, ultimamente não tenho ficado contente com algumas adaptações (Êxodo e Noé, por exemplo).


Em algum momento fiquei descontente com Ressurreição também, pois a série de investigação feita por Clavius passa a ser uma trama policial norte-americana. E é aí que está o problema: toda ambientação do longa foi caracterizada em tempos próximo da história. Portanto, as cenas foram muito ricas, resgatando cenários romanos, numa perspectiva cenográfica temporal que deu muito certo. Mas o diálogo contemporâneo entre os atores inibiu a preocupação cenográfica, deixando em plano de fundo toda essa sensibilidade cenográfica para trás, como se não houvesse uma preocupação de fato com esse detalhe.

Não se trata apenas da trajetória de Cristo na Terra, mas sim também de uma reflexão sobre acreditar ou não na ressurreição dele. O longa aborda uma história fictícia que foge do contexto bíblico: propõe que o governador Pilatos enviou um exército de soldados romanos para descobrir onde foi parar o corpo de Jesus (o que não, acredito eu, pois não me recordo, esteja nas escrituras).

Além da criatividade de brincar com o roteiro desta maneira, o filme sugere uma reflexão a cerca da fé. Clavius, que é totalmente descrente, passa a acompanhar os discípulos de Jesus para ter certeza de que realmente ele era o Messias enviado por Deus. Isso reflete, de alguma maneira, no pensamento cético de boa parte da sociedade que não acredita.

Até hoje, por exemplo, os judeus confirmam a versão proposta pelos soldados, no filme, que estavam cuidando do sepulcro de Jesus de Nazaré. Na bíblia, no livro de Mateus, em seu capitulo 28, versículos 12;13 diz: Quando os chefes dos sacerdotes se reuniram com os líderes religiosos, elaboraram um plano. Deram aos soldados grande soma de dinheiro, dizendo-lhes: “Vocês devem declarar o seguinte: ‘Os discípulos dele vieram durante à noite e furtaram o corpo, enquanto estávamos dormindo’. É justamente essa história que os soldados confirmam no longa. Somente quando Clavius vai atrás de um deles e acabam dizendo o que de fato aconteceu – tudo em nome da investigação policial norte-americana que consegue desvendar todos os mistérios e que nunca falham, não é mesmo?!

Mesmo os Estados Unidos sendo um país cristão, infelizmente não deu muito certo trazer para a produção uma linguagem contemporânea. Com a velha mania de investigação policial, o que é um clichê nas filmografias estadunidense, enfraqueceu toda a captura cenográfica histórica do filme – se tivesse contextualizado com uma linguagem mais próxima da história de cristo, certamente, mesmo que não seja totalmente fidedigno ao contexto bíblico, teria funcionado.

O filme estreia no Brasil no dia 17 de março. Os céticos que evitem as salas de cinema, pois a provocação do longa traz uma reflexão a cerca da fé. Além disso, propõe, de alguma maneira, (quer dizer, escancaradamente) uma desconstrução bíblica sobre a trajetória de Jesus de Nazaré – tsso por meio de um roteiro que descaracteriza alguns pontos que estão no livro sagrado e, principalmente, por causa do diálogo totalmente contemporâneo que desconstrói todo o ambiente cenográfico e histórico. Nesse aspecto, Mel Gibson, em A Paixão de Cristo, foi espetacular.