Crítica | Um Homem Entre Gigantes

Claramente pensado e realizado buscando uma indicação nas grandes premiações americanas, Um Homem Entre Gigantes segue a linha dos filmes de conteúdo, um cinema que se legitima pela importância de seu discurso, pela relevância de seus temas e pelas críticas sociais que coloca em pauta, mas que acaba derrapando em deixar essas características mais evidentes do que as próprias formas narrativas e cinematográficas.

O longa dirigido pelo ainda pouco conhecido Peter Landesman (JFK, A História Não Contada – não confundir com o clássico dos anos 90 de Oliver Stone) narra a história verídica do Dr. Bennet Omalu (Will Smith), um cientista forense imigrante, que diagnostica um sério problema neurológico num ex-jogador de futebol americano e ao investigar sobre o assunto descobre que esse pode ser um mal que afete diversos atletas da Liga Americana, e para provar suas descobertas terá que desafiar uma das maiores instituições dos EUA, a própria NFL.

Os fatos narrados no filme já haviam sacudidos o país quando vieram à tona, remoer as falhas e feridas de uma paixão nacional é sempre algo muito poderoso e colocar o homem por trás de toda essa história nos holofotes é no mínimo necessário. Por isso, Um Homem Entre Gigantes nasce com as melhores intenções do mundo, quase um projeto edificante de mostrar um homem que batalha contra tudo e todos, além de suas próprias adversidades (um imigrante negro em uma guerra corporativa nos EUA).

E de fato como crítica e denúncia social é um filme que funciona muito bem, um longa que cumpre com essa função de informar e conscientizar o público. Bem verdade que exatamente por esse motivo Um Homem Entre Gigantes abusa do didatismo, tanto em formas de diálogos como em forma de cinema, um filme que não provoca, nem mesmo emociona o espectador através de sua direção. Dessa forma, o filme é conduzido de forma concisa, naquele velho padrão artesanal, na qual a assinatura do cineasta é deixada de lado para transmitir de maneira mais sóbria e simples possível os fatos e as denúncias pelo ponto de vista do Dr. Omalu.

O grande problema de Um Homem Entre Gigantes é quando o filme sai desse núcleo informativo e tenta dar uma perspectiva humana ao seu protagonista, revelando uma problemática construção de personagem. Bennet Omalu é quase retratado um enviado por Deus, um ser iluminado, no longa de Peter Landesman (também roteirizado por ele) seu protagonista é construído como se fosse um homem perfeito, sem problemas e defeitos algum, não podendo ser menos humano do que isso.

É também nessa esfera narrativa que Um Homem Entre Gigantes demonstra suas maiores fragilidades, principalmente por possuir um roteiro pouco estruturado, que fica evidente na relação entre o protagonista e sua futura esposa é muito mal desenvolvida, e que em poucos segundos dois desconhecidos tornam-se marido e mulher sem causar no espectador empatia alguma, como se o filme tivesse pressa em adiantar esse núcleo, perdendo, dessa forma, qualquer humanidade que Um Homem Entre Gigantes poderia ter.

Assim, até mesmo a atuação de Will Smith fica extremamente comprometida diante dessas irregularidades no roteiro do longa. Bem que o ator se esforça numa performance que tenta conferir emoção a seu protagonista, mas é evidente que o filme está muito mais preocupado na sua crítica, no seu papel informativo do que em qualquer outra coisa, deixando Smith num resultado mediano, assim como todo o resto do projeto.

E se por um lado Um Homem Entre Gigantes é um filme importante pelo seu tema e por seu caráter informativo, mas que peca por sua falta de cinema. O que gera uma obra que preza apenas pelo seu conteúdo, mas por isso abre mão da forma e da emoção e por isso não consegue alcançar patamares mais altos.

Um Homem Entre Gigantes
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