Após uma enxurrada de críticas a Batman vs Superman, a DC parecia ter embaixo da manga sua cartada final, sua jogada surpresa, um sucesso inegável: Esquadrão Suicida. Afinal, como dar errado a reunião de vilões icônicos da editora, ainda mais com a presença de um novo Coringa? Tendo isso em vista, a Warner e a DC apostaram todas suas fichas no filme. A fim de agradar amantes e detratores da batalha entre seus maiores heróis, Esquadrão Suicida foi remontado, refilmado, mas sempre com a promessa de se manter a visão de David Ayer, diretor e roteirista do longa. Pois é, a DC prometeu muito… e não entregou tudo isso.

Após os 123 minutos, o que se vê é um filme que clama por atenção a todo instante, acreditando cegamente numa fórmula mágica do sucesso. Assim, Esquadrão Suicida é um filme que contém ação, misturado a tiradas cômicas, cheio de efeitos especiais, com uma infinidade de referências a filmes anteriores e posteriores do universo compartilhado da DC (os famosos easter eggs), e nessa obsessão em agradar acaba apenas revelando uma série de falhas e sua insegurança em conceber um filme diferente.

Embalado por diversas músicas pops, Esquadrão Suicida tem um início bastante promissor ao buscar uma maneira diferente de apresentar seus personagens como se fosse realmente um dossiê. Assim, por flashbacks curtos e alguns títulos estampados de forma estilosa na tela, o espectador compreende as nuances e características dos protagonistas daquele grupo, como o Pistoleiro (Will Smith), Arlequina (Margot Robbie), Capitão Bumerangue (Jai Courtney), Magia (Cara Delevingne) e Crocodilo (Adewale Akinnuoye-Agbaje). E se a primeira vista tal estratégia parece conceder certa energia ao projeto, ao longo da projeção nota-se uma ideia mal planejada, culminando num longa que acaba abusando dos flashbacks para explicar ações que a narrativa em si não dá conta.


Assim, a ideia interessante de reunir uma série de vilões perigosos rumo a uma missão quase impossível vai aos poucos se esvaindo, uma vez que precisa disputar espaço com uma série de informações, como o passado de Coringa, o pequeno envolvimento do Batman com a trama e até mesmo indícios da criação da Liga da Justiça. Dessa maneira, Esquadrão Suicida torna-se um longa que busca abranger uma série de questões do universo DC, não percebendo e não se concentrando no rico material que havia a sua disposição. Isto gera uma espécie de desencontro entre as diversas narrativas abordadas, parecendo que nunca o que é dado nas telas é o suficiente, fazendo com que as participações de Batman e até mesmo do tão divulgado Coringa, que tem pouco tempo de tela, se afastem do verdadeiro conflito, da narrativa que importa no projeto, tirando o brilho de Esquadrão Suicida.

Ayer subverte propositalmente algumas expectativas em torno de Esquadrão Suicida, fato sempre interessante, mas que necessita planejamento. Assim, o longa não relega seus personagens a seres sempre obscuros, sujeitos moralmente duvidosos, mas sim pessoas que ainda contém uma persona fora da vilania e que por mais improvável que seja possuem seu lado heroico. E quase nessa investigação chega um momento que o realizador tenta conceber uma obra sobre a própria figura do amor dentro daquela gangue, não um amor idealizado, mas sim a parte mais dura desse sentimento, a obsessão, a explosão e até a corrosão.

É esse amor (ou a falta dele) que está na essência da vilania daqueles homens, o fator comum de Arlequina, Pistoleiro, El Diablo, Katana e o resto do esquadrão e até a base para aquela união ser possível. No entanto, o que parece ser uma ideia arriscada para um filme de heroi, e por isso torna-a interessante, acaba sendo mais uma vez má utilizada, já que o filme está mais preocupado em se divertir com aqueles personagens ao invés de investigar minimamente o universo psicológico de cada um. Ser irônico ou divertido não quer dizer excluir a dramaticidade de um filme, porém, Esquadrão Suicida utiliza o caminho mais fácil e seu humor para apaziguar as relações entre seus personagens, dessa forma, momentos que necessitam desse maior envolvimento entre personagens e público, parecem ser apenas jogados na tela, sem cuidado algum, provocando apenas mais momentos dissonantes.

Assim, Esquadrão Suicida parece não confiar nas suas próprias ideias, rendendo-se a tudo que deu certo alguma vez no cinema de ação nos últimos cinco anos, por exemplo, um terceiro ato que culmina numa batalha idêntica a outros tantos filmes, até mesmo Caça-Fantasmas (2016). E se os filmes anteriores da DC derrapavam em menor ou maior grau, pelo menos demonstravam certa honestidade ao não abandonar de maneira alguma suas convicções, sejam elas visuais ou temáticas. Filmes que não se traíam, que tentavam ser únicos e apenas um, não buscando de maneira abusiva um apoio em sucessores ou antecessores, longas que afundavam abraçados com seus realizadores, frutos de ideias que podiam ou não dar certas, mas ideias que buscavam certa originalidade.

Esquadrão Suicida é apenas uma busca intensa por popularidade, que se empalidece na sua tentativa de deixar seus vilões mais coloridos, mais divertidos e mais engraçados. O longa é uma tentativa exagerada para rebater as críticas e conseguir uma aceitação, e nessa jornada, muitas características tiveram que ser abandonadas, resultando num filme mais genérico, mais parecido com tantos outros que se vê por aí. Por incrível que pareça, Esquadrão Suicida demonstra-se o menor filme do universo DC.