O diretor norte-americano Tim Burton, nos últimos anos, não tem se destacado tanto quanto em seus primeiros filmes. A magia – negra? – de Burton tem perdido sua força em seus mais recentes trabalhos. O mais novo exemplo dessa perda é o filme O Lar das Crianças Peculiares. O longa é baseado no livro “O Orfanato da Srta. Peregrine Para Crianças Peculiares”, do jovem escritor, também norte-americano, Ransom Riggs. O livro tem todos os elementos que poderiam fazer desse filme um dos mais bacanas deste ano. Infelizmente, não foi o que aconteceu.

O Lar das Crianças Peculiares gira em torno do jovem Jake (Asa Butterfield, de A Invenção de Hugo Cabret, 2011). Ele vive na Flórida com seus pais. O jovem cresceu ouvindo as histórias contadas por seu avô, Abe (Terence Stamp, de Grandes Olhos, 2014), sobre o tempo nop qual este morou em um orfanato no Pais de Gales, Reino Unido, durante a Segunda Guerra Mundial. Nessas histórias, Abe contava sobre as crianças e os jovens muito diferentes que lá viviam.

Após um misterioso incidente com o seu avô, Jake resolve ir com seu pai, Franklin (Chris O’Dowd, de Programado para Vencer, 2015), até Gales para conhecer o orfanato no qual seu avô viveu. A instituição fica em uma ilha pouco habitada. Como a ilha, que é cercada por neblina, o orfanato é cercado por mistérios. Nesse pequeno resumo, percebe-se que a história de O Lar das Crianças Peculiares poderia ter sido bem mais construída. Os mistérios que envolvem o orfanato fariam jus a um roteiro que fosse mais denso. A adaptação do livro para o cinema, apesar de ter sido feita pela roteirista Jane Goldman, uma das responsáveis pelo roteiro de Kingsman: Serviço Secreto (2014) e uma das criadoras da história de X-Men: Dias de um Futuro Esquecido, também de 2014, não conseguiu, desta vez, ser um roteiro a altura do que o livro suscita de sentimentos em seus leitores.


A direção, como já foi dito anteriormente, coube ao Tim Burton. A escolha dele para ser o diretor desse projeto foi acertada? Infelizmente, não foi, porque o encontrou em uma má fase de sua carreira. Os últimos projetos dirigidos por ele, como o longa Grandes Olhos (2014) e a animação Frankenweenie (2012), deixaram óbvias o desgaste da maneira de Burton de dirigir.

Outros aspectos de suas produções mais recentes acabaram por enfraquecer seus trabalhos. Os roteiros dos projetos e a escolha e a direção dos atores são esses aspectos que prejudicaram os trabalhos. Por exemplo: muitos atores não se encaixaram nos personagens para os quais foram escolhidos para interpretar e suas animações têm se parecido com cópias mal sucedidas de seus próprios projetos anteriores, como é o caso de Frankenweenie.

Porém, outros aspectos do seu projeto são muito bem realizados. É o caso da fotografia. O cuidado com a imagem de O Lar das Crianças Peculiares ficou a cargo do diretor de fotografia francês, Bruno Delbonnel. Delbonnel dirigiu a fotografia dos dois últimos longas de Burton: Grandes Olhos e Sombras da Noite (2012). Ele dirigiu também Harry Potter e o Enigma do Príncipe (2009). Realmente, ele entende o estilo de Burton e o faz muito bem feito. Delbonnel é um dos responsáveis pelo clima sombrio do filme com a sua paleta de cores puxada para as mais frias, mesmo em cenas que se passam na ensolarada Flórida.

Outra característica que ajuda o filme a ter o clima certo – apesar da história, em alguns momentos não ser tão pesada e tensa – é a trilha sonora. Esse aspecto técnico foi composto por dois experientes músicos, Michael Higham e Matthew Margeson. Higham trabalhou em A Origem (2010) e No Limite do Amanhã (2014), enquanto Matthew trabalhou em Capitão América 2: O Soldado Invernal (2014). Ambos trabalharam juntos em Capitão Phillips (2013).

As trilhas compostas pelos dois se encaixam perfeitamente aos mais diferentes momentos do filme. Quando precisam reforçar o clima tenso e assustador de determinadas cenas, como quando reforçam a surpresa e a admiração de Jake por algum feito de uma das crianças peculiares, em outras cenas.

Falando no personagem Jake, o jovem ator Asa Butterfield precisa um pouco mais de experiência. Apesar de este ser o seu 10º filme para o cinema, ele não conseguiu dar a carga dramática a qual o seu personagem exigia. Além de o personagem estar passando pela adolescência, uma época conturbada na vida de qualquer pessoa, os fatos que ele descobre sobre o seu avô e o pelo que ele passa no orfanato deveriam o fazer ser mais enérgico em alguns momentos específicos do filme. O personagem Jake, apesar do que ele passou, acabou ficando apático demais.

Já o ator Terence Stamp, que interpreta o avô Abe, está maravilhoso. Como um ótimo e experiente ator, ele sabe o que precisa fazer em cada cena e o seu personagem emociona e é um esteio no qual, sem querer e sem o seu personagem estar presente o tempo todo, os outros personagem e atores acabam se apoiando.

Todos os atores mirins e jovens estão razoavelmente bem. Um deles que merece um pouco mais de destaque, até porque o seu personagem é um dos mais centrais na história é a jovem atriz Ella Purnel. Ella faz uma das jovens peculiares. Porém, ela, como Asa, não conseguiu dar o peso necessário ao seu personagem. Samuel L. Jackson e Eva Green estão apenas bens nessa produção. Mas repetindo nela personagens nos quais ambos já atuaram.

O filme poderá surpreender e até impactar os mais jovens expectadores de cinema, não acostumados com os longas de Tim Burton, mas os expectadores em geral podem achar este longa um pouco arrastado. Falando em ritmo, a edição do filme foi realizada por norte-americano, Chris Lebenzon. Ele já trabalhou com Tim Burton e montou filmes como Malévola. Porém, neste projeto, Chris não pôde fazer com que a história tivesse uma agilidade maior do que ela deveria ter.

O Lar das Crianças Peculiares poderia ter sido um filme cujo sucesso fosse garantido. Porém, uma combinação de fatores fez com que esta adaptação do livro de Ransom Riggs não fosse bem sucedida. Infelizmente, porque a história mereceria ter sido trabalhada melhor.

O Lar das Crianças Peculiares