Invasão Zumbi é mais uma pérola do cinema de terror oriental. Com simplicidade narrativa, o filme é um eficiente exercício de gênero. Como muitos filmes de terror, Invasão Zumbi consiste em colocar seus personagens enclausurados em um ambiente a fim de resistir a uma ameaça externa.

Essa é a máxima do filme de zumbi desde sua consolidação em 1968 com George A. Romero e seu A Noite dos Mortos Vivos. Sendo assim, Invasão Zumbi utiliza-se dessa característica com duas finalidades: 1) como estudo estilístico, explorando formar de construir sua mise-en-scène a partir das possibilidades criativas que um espaço como de um trem pode oferecer; e 2) como comentário social a cerca de uma epidemia zumbi, outra característica desse tipo de filme utilizada desde Romero.

Nesses dois pontos, Invasão Zumbi é um filme exemplar. O longa mostra um trabalho de direção que explora muito bem os espaços daquele trem, com uma câmera que desliza pelos corredores estreitos daquele transporte. Assim, Yeon Sang-Ho emprega um ritmo extremamente frenético ao longa, como se realmente fosse uma locomotiva desenfreada. O filme segue a todo o momento essa lógica do ato de fugir sem nem saber ao certo de quê.


Mesmo assim, o cineasta não se deixa levar pelo ritmo empregado. Em momento algum Sang-Ho abre mão de um rigor estilístico, criando momentos com movimentos e composições muito bem trabalhadas, fato que gera sequências bem interessantes. Como o momento em que três personagens fazem ataduras nos punhos para atravessar alguns vagões nem que para isso precise derrubar os zumbis um por um. Sequência que parece ter saído de um ânime diretamente para o cinema, com uma decupagem extremamente bem trabalhada.

Se Invasão Zumbi é composto por uma série de momentos interessantes, está longe de ser um filme ingênuo. A figura do zumbi por si só já carrega um subtexto social bastante complexo, os mortos-vivos nada mais são do que semelhantes que se tornaram ameaças, ameaça esta que parte de dentro da própria sociedade, não sendo um perigo externo, mas interno. Invasão Zumbi compreende e utiliza-se muito bem desse subtexto, e é interessante como diante daquela epidemia não há reconhecimento algum perante o próximo, é como se de repente todos fossem potenciais zumbis, todos uma grande ameaça. Isso fica bem claro em um único plano, quando o trem chega a uma cidade em quarentena e é recebida por uma multidão desesperada clamando para entrar no trem, logo uma avalanche zumbi consome aquelas pessoas, e agora os mortos vivos atacam o vagão da mesma forma que aquela primeira multidão.

Após esse ponto ser a apresentado, isto parece se tornar a grande questão do filme, os poucos sobreviventes do trem dividem-se em salvos e possíveis infectados, sendo que estes últimos não teriam direito no ficar no mesmo e mais seguro vagão que os primeiros. Nesse ponto de vista, Invasão Zumbi é até cruel, sendo dono de um moralismo implacável, cuja moral da história dita quem viverá naquele mundo em colapso.

E a moral de Invasão Zumbi é bem clara, a sobrevivência depende se os personagens entendem que é preciso ajudar os outros, qualquer tipo de individualismo será punido. Até mesmo as mortes que o filme deseja mostrar são justamente os atos heroicos, sacrifícios em prol de um bem maior e da sobrevivência de um maior número de pessoas. Com isso, Invasão Zumbi acaba caindo num profundo sentimentalismo.

Se o longa, em termos narrativos é bem direto e objetivo, não necessitando dar explicações acerca daquela epidemia. Em termos emocionais não desperdiça nenhuma chance de usar uma música melodramática, uma câmera lenta num momento dramático, ou até mesmo uma frase de efeito apelativa. Bem verdade que essa é uma característica bem sul-coreana, o final redentor através de um amor de total abnegação é extremamente próprio de uma espécie romantismo oriental muito presente nos filmes e séries da Coreia do Sul.

Assim, Invasão Zumbi é um filme entre sua veia moralista e sua eficiência narrativa, que parte de uma compreensão total do cinema de Zumbi. Um filme que entre bons e maus momentos vira uma perola do gênero Um filme acima da média.