Após o grande sucesso de Cine Holliúdy, o filme brasileiro falado em cearencês legendado para português, Halder Gomes volta a retratar de forma cômica sua terra em O Shaolin do Sertão. Agora com muito mais respaldo nota-se que Halder disponibiliza de muito mais recursos em seu novo filme, marcado pela parceria com a Globo filmes. Evidente que isso traz algumas implicações como uma formatação maior dentro do tipo de comédia que é feita, mas ainda assim nota-se pontos de ligação entre os dois filmes, o principal a presença marcante do cinema.

O Shaolim do Sertão pode muito bem ser considerada uma homenagem aos filmes de kung-fu que permearam por muito tempo as sessões na TV aberta e consequentemente o imaginário de muita gente. Na improvável mistura entre sertão e china, o longa conta a história de Aloisio ‘Li’, um cearense que acredita que seu destino é ser um grande mestre das artes marciais. Quando um invencível lutador desafia os moradores da cidade do shaolin nordestino, Aloísio vê sua grande oportunidade de provar seu valor.

O filme começa com um sonho do protagonista, Aloisio, vestido de ninja, luta contra diversos oponentes numa típica vila chinesa. Na imagem ruídos, riscos e falhas que simulam o que se via numa reprodução via VHS. O Shaolin do Sertão carrega consigo, desde seu primeiro plano, uma memória afetiva com o cinema, principalmente com os filmes de arte marcial, muito grande, fato que gera na obra de Halder Gomes um misto de referência e sátira com aquilo que retrata.


Dessa forma, a película passa longe de ser um filme convencional de artes marciais, e a comédia de O Shaolin do Sertão está justamente em reproduzir as convenções do gênero em pleno nordeste brasileiro. O deslocamento do filme de Kung-Fu é a grande graça do longa, como se um treinamento ninja em cima de um bode fosse a única forma possível de se fazer um filme de artes marciais no Brasil. Assim, o longa se aproxima de um respeito das referências que traz, como também não perde a oportunidade de fazer piada consigo mesmo e na sua pretensão de ser um filme de kung-fu em terras tupiniquins.

E essa grande virtude de O Shaolin do Sertão é na verdade um resgate de uma característica bem comum na comédia brasileira. Desde as chanchadas da década de 1950, há esse uso da referência estrangeira de forma cômica, evidenciando a impossibilidade de fazer um filme nos moldes gringos, mas utilizando essa condição a seu favor, a cópia possível seria através da sátira, da brincadeira que só o brasileiro poderia fazer. Dessa maneira, Halder demonstra um completo entendimento da comédia nacional, daquilo que, de forma antropofágica, pode vir do exterior e servir a uma comicidade única do país. Não é a toa que o diretor cearense escolhe Dedé Santana e Fafy Siqueira para compor seu elenco, demonstrando ainda mais esse resgate da comédia nacional.

E longe dos grandes centros urbanos, Halder Gomes constrói uma estrutura cômica baseada totalmente no popular e no regionalismo. Bem verdade que em Cine Holliúdy esse fato era muito mais presente, compreensível que este longa tenta alcançar muito mais público. No entanto, é muito prazeroso ver como cineasta coloca-se como um participante de sua narrativa, como se o filme fosse feito pelo povo para o povo. É assim, que as piadas de O Shaolin do Sertão não soam demagógicas ou preconceituosas, mas parecem conter um alto teor de rir de si mesmo. Como se Halder brincasse com sua própria condição. O filme brinca com aquilo que conhece, com atos e ações que só poderiam ser retratados por quem já passou por aquilo.

Com isso, há uma clara tentativa de explorar esse regionalismo pelo humor por dois víeis. O primeiro calcado em tiradas utilizando a forma que o cearense tem de se expressar, utilizando até mesmo ditos populares e coisas do gênero. Nesse caso há um excesso de uma tentativa de tornar toda fala em piada e o humor requer seus respiros, nessa estratégia O Shaolin do Sertão parece se afobar para fazer rir. A segunda forma é um humor físico, e que ratifica Edmilson Filho como um grande humorista do gênero. Entre fisionomias e malabarismos corporais, o ator demonstra ser um nome interessante do humor pastelão, que sabe o usar o corpo para extrair momentos bem engraçados, sem precisar esconder de forma alguma essa condição.

É verdade que explorando essas condições que são o grande trunfo do filme, Shaolin exagera exatamente nesses pontos, realizando um clímax que funciona, mas se arrasta. Não que isso prejudique Shaolin do Sertão, mas revela certa irregularidade. Isto se revela em alguns outros pontos, por exemplo, na decupagem que às vezes quer simplificar em excesso e acaba aproximando-se de um simples programa humorístico de televisão.

Felizmente, Halder é um cineasta inventivo, que retira o humor do cinema possível de se fazer no Brasil, no limite entre sátira, apropriação, referência e gambiarra, tudo isso regado a um humor extremamente marcante que sabe utilizar seu regionalismo. Só com esses elementos que uma história de artes marciais em pleno nordeste brasileiro funcionaria. E uma coisa é certa, Shaolin do Sertão é uma comédia para lá de arretada.