A cinebiografia é um dos gêneros que mais funciona no cinema nacional. A aproximação entre o ficcional e a realidade de uma vida pública é um dos temas mais atrativos por aqui, Cazuza – O Tempo Não Para, Tim Maia e 2 Filhos de Francisco são exemplos do sucesso que esse tipo de longa possui. A dramatização da vida de alguém que conquistou o público outrora conecta facilmente espectador e filme. É evidente que a maior cantora do Brasil também teria sua biografia nos cinema, e até surpreende como esse momento demorou a chegar.

Dessa maneira, o filme Elis faz uma série de recortes de importantes momentos da vida e carreira de Elis Regina, desde sua chegada ao Rio de Janeiro em 1964 até sua morte em 1982. Com isso, o longa carrega certa pretensão de dar conta de tudo o que cercou Elis em sua vida, numa sensação de que o projeto exclui qualquer tipo de recorte, a fim de possibilitar a citação de tudo o que cercou aquela personagem tão presente no imaginário cultural do Brasil.

Sendo assim, Elis é um filme de elipses, que salta de um tempo a outro numa relação quase arbitrária, que seleciona seus momentos por sua importância extra-filme, ou seja, pelo que já se sabe a respeito de Elis Regina e não pelo que está contido no longa. Com isso, Elis passa uma sensação que é uma mera ilustração de fatos já sabidos, como se fosse fotos de uma revista que recapitula, através de uma narrativa saudosista, a vida da pimentinha.


Esse fato gera uma sensação de que o longa é incapaz de conseguir adentrar no mundo particular ou psicológico da cantora. O que Elis mostra é apenas um retrato realizado através da correção de cor proveniente do processo digital. Dessa forma, o filme é impecável em sua construção cênica do momento em que a cantora viveu, na sua direção de fotografia e de arte reside o preciosismo dessa reconstituição de época. No entanto, Elis é um filme que consegue captar muito pouco do espírito daquele tempo.

Mesmo que o longa traga uma série de figuras conhecidas do meio artístico, como Luís Carlos Miele ou Nelson Mota que aprecem como figuras extremamente comuns, Elis não se dá o trabalho de se aprofundar no imaginário coletivo daquele momento, período importantíssimo para o Brasil, de incertezas políticas e efervescência artística. O longa de Hugo prata não consegue nem ser estudo psicológico de sua protagonista e muito menos retrato de um tempo histórico.

Muito disso se dá pelo fato de que o filme é uma extensa costura de citações, uma obra em que se fala sobre todas as coisas, mas mostra-se pouco e, sobre tudo, sente-se quase nada. Se a voz de Elis reverberava em emoção, seu filme faz com que isso seja apenas verbalizado. Todas as situações e relações são primeiro faladas para depois serem mostradas, distanciando-se de qualquer envolvimento sentimental com o longa. Elis parece, na verdade, estar num constante tom informativo sobre sua protagonista. Isso ocorre, por exemplo, quando Elis Regina dá uma famosa entrevista na França, onde diz que o Brasil estava sendo governado por gorilas, até aquele momento da projeção mal havia se falado da ditadura, muito menos mostrado algo que fizesse referência a isso. O longa não consegue construir seus assuntos sem empregá-los em algum diálogo.

Nessa verborragia e elipses constantes o que se vê na tela são momentos interessantes sendo desperdiçados. Após essa atabalhoada apresentação a respeito da ditadura, o longa constrói algumas sequências mostrando a relação de Elis Regina com o regime militar, é nesse ponto que o filme possui seus momentos mais fortes, os dois encontros entre Elis e o cartunista Henfil, culminando na entrega da letra de O Bêbado e o Equilibrista, dedicada ao irmão do desenhista, situação de extrema força dramática. No entanto, mesmo em seus pontos altos, o longa parece estar sempre se apressando, querendo chegar logo a outra cena ao próximo momento.

O filme, então, não consegue nem mesmo se aprofundar nos recortes que seleciona como se fosse apenas uma pincelada de fatos já conhecidos. É engraçado como o longa tem receio de abordar alguns temas que cercam a vida de Elis. O que poderia causar algum mal estar em relação a sua protagonista é deixado subentendido, como se não fosse o objetivo duvidar da imagem de Elis Regina. E se isso pode significar um respeito em excesso por aquele personagem real, também demonstra certa desonestidade em relação ao retrato que faz. Retrato que omite para canonizar, mas nesse processo perde toda humanidade de sua protagonista.

No longa, é curioso como Elis pede para que ela possa cantar de forma livre e é isso que permite um interesse pelo longa. A pequena linha condutora de Elis são as músicas da incrível interprete e isso é algo que encanta por natureza, a forma como a cantora sai da bossa para ajudar a criar a MPB, e depois abraçar a guitarra elétrica para remodelar sua carreira, e evidenciar suas canções entre o lirismo e o protesto, assim por diante. O filme, dessa forma, é um faixa a faixa de Elis Regina com uma interprete que se esforça muito para se aproximar do personagem real.

Assim, Andreia Horta dá corpo à pimentinha, numa atuação baseada na imitação dos trejeitos daquela cantora, algo que na maior parte do filme dá certo, chega a ter momentos que realmente parece que houve uma metamorfose e Horta se transformou em Elis. Atuação convincente de Horta e a narrativa musical de Elis são os fatores que seguram esse filme até o fim.

Nessa busca pela aproximação da vida real de figuras importantes no imaginário nacional, Elis é um filme que apenas ilustra, que apenas informa momentos já muito explorados e conhecidos. Elis é um filme que não se dá o trabalho de mergulhar no universo de sua homenageada, apostando unicamente em suas músicas, um filme extremamente sonoro, mas com pouca alma de Elis Regina.