Minha Mãe é uma Peça foi uma das maiores bilheterias da história do cinema brasileiro, e tal fato deve ser compreendido e respeitado. O filme baseado na personagem de Paulo Gustavo, Dona Hermínia, possui todas as características para um estrondoso sucesso popular, mesmo que isso venha carregado de um empobrecimento cinematográfico. Assim, essa continuação já possui seu público mais que cativo, e algo que deve ser bem observado é que o longa propõe mudanças dentro de sua própria fórmula.

Essa fato é importante para qualquer pretensa franquia de sucesso. A mera repetição do que já dera certo resultaria num tom de profunda descartabilidade, ainda que as características de popularidade sejam presentes. Em Minha Mãe É Uma Peça 2 há um desejo por realizar coisas novas e até uma tímida sofisticação daquele filme. E se isso é acompanhado de grandes equívocos, vale ressaltar essas boas intenções.

Minha Mãe é uma Peça estava situada num bolo de filmes que buscavam a comédia através de um retrato cômico (e problemático muitas vezes) do subúrbio carioca, assim como Um Suburbano Sortudo, o primeiro Até que a Sorte nos Separe, entre outros; agora a protagonista Dona Hermínia possui um programa de televisão, vive num grande apartamento e reside naquela classe média de novos ricos com seus sonhos de consumo possíveis.


Essa mudança de classe social que o longa propõe, faz com que Minha Mãe É Uma Peça 2 busque um refinamento até mesmo estético. No filme, tudo parece um pouco mais clean do que era, até as atuações são mais contidas do que no primeiro exemplar. Ainda que o humor venha através do modo escrachado de Paulo Gustavo falar, gritar e agir, isso é um pouco melhor pontuado tendo alguns momentos de respiro, Minha Mãe é uma Peça é um filme um pouco menos exagerado concedendo a si mesmo um ritmo interessante.

Apesar de suas boas intenções, Minha Mãe É Uma Peça 2 traz inúmeros problemas. Essa tentativa de refinamento aparente não resulta numa sofisticação da forma. Assim como seu antecessor, o filme é extremamente televisivo, numa direção que consiste em planos próximos, com poucos movimentos aliado a uma edição que parece um eterno ping pong entre campo e contracampo, entre a fala e sua resposta.

Aliás, a verborragia é outro ponto televisivo incômodo nesse longa. Sempre todos estão falando em cena, evidente que algumas vezes isso surge como uma característica da personagem, mas também aparece para explicar algo que acabara de ser mostrado. Minha Mãe É Uma Peça 2 utiliza um artifício novelesco em que uma fala de um novo plano surge para explicar o que fora visto no plano anterior, fato que funciona na televisão por suas características, mas é totalmente incômodo no cinema.

Outro detalhe que atrapalha o desenvolvimento do longa é a sua falta de concisão. Muitas vezes a comédia funciona justamente por estar dentro de uma situação curta e objetivo, tirando o humor das decorrências daqueles momentos. Minha Mãe É Uma Peça 2 segue por um caminho mais complexo, tenta fazer um estudo de personagem calcado no humor, envolvendo sua principal figuras em diversos acontecimentos a sua volta.

A ousadia da estratégia é diretamente proporcional a sua falta de funcionalidade nesse caso. Ainda que Dona Hermínia seja uma personagem atrativa para o público, o longa a coloca em muitas situações; a independência dos filhos, a doença de sua tia, e a chegada de sua irmã que vivia em Nova York. Fato é que o filme não consegue desenvolver plenamente todos esses conflitos, às vezes parecendo algo já foi resolvido e o espectador nem deu conta, ou ainda é fácil esquecer de um núcleo quando o filme se concentra muitos minutos em outros. Ainda que isso faça com que aquele personagem se envolva em vários momentos cômicos, isso resulta em um filme um tanto quanto disperso.

Assim, com tantos pontos negativos é dificil afirmar que Minha Mãe É Uma Peça 2 seja um bom filme. No entanto, esses problemas são decorrentes de um desejo de arejar o que foi visto no primeiro filme. O não comodismo de Paulo Gustavo melhora sua própria franquia.