Cinema é uma coisa complicada. É impossível tentar entender ou mesmo fazer um filme como se ele tivesse uma fórmula, como se seguisse uma receita de bolo. Muitas vezes um bom elenco não significa uma boa atuação, ou um roteiro bem amarrado não quer dizer que o texto de um filme esteja dizendo algo, e muito menos quer dizer que uma direção segura realize um grande filme. Beleza Oculta sofre desse mal, um longa que parece ter todas as peças para seu sucesso, mas apenas comprova a lógica da matemática inexata do cinema.

O longa estrelado por Will Smith narra a história de um jovem e bem sucedido empreendedor que perde uma filha, ele logo começa a apresentar sinais de depressão e alucinação, até que seus companheiros de trabalho contratam três atores para encenarem a morte, o amor e o tempo a fim de que ele lide com a sua perda. No entanto essas encenações estarão ali para ensinarem a todos daquele universo.

Situado no Natal, Beleza Oculta é o típico projeto que se apoia na moral da história. Um filme que tenta oferecer um material sentimental para servir como uma espécie de lição de moral. O filme é basicamente uma atualização do conto dos fantasmas de Scrooges, com um misto de realismo e notas bastante açucaradas. Assim, o filme é permeado por frases impactantes e edificantes, algo que poderia ser editado e estar num vídeo motivacional numa rede social.


Nessa sua proposta, Beleza Oculta apoia-se imensamente em seu texto. E se ali há um gosto por essas frases de efeito nota-se também um filme que se fundamenta em seus diálogos. A narrativa de Beleza Oculta necessita a todo o momento falar o que está acontecendo e o que está por vir, num filme que desde o primeiro minuto faz questão de deixar tudo explicado para o espectador. Conflitos, sentimentos e objetivos são verbalizados na língua das personagens.

Aliás, o roteiro de Allan Loeb passa pelo problema de estar sempre questionando o quão seu público compreende sua narrativa. A trama está sempre dando informações, pistas para o espectador entender o ato a seguir. Se esse artifico de pinças narrativas compõe a maioria dos manuais de roteiro, a artimanha fica escancarada quando ela é óbvia. No caso de Beleza Oculta sempre fica evidente essa relação entre os três amigos que contratam os atores e as abstrações que eles representam. Sempre fica claro que cada um personagem precisa resover a questão que eles contratam, a relação de um com a morte, do outro com o amor e de um terceiro com o tempo.

Além disso a ficção do filme está sempre num lugar confortável, como se tudo andasse no fluxo que beneficiasse as intenções dos personagens. Nada gera conflito real na cabeça dos seres de Beleza Oculta, Por exemplo, o simples fato dos amigos contratarem os atores sugeriria um dilema para aquelas pessoss, no entanto, aquilo sempre vai se revelando como uma alternativa verdadeira, e não como algo que poderia trazer uma consequência negativa. Esse lado é sempre afastado, a fim de que sua lição de moral seja passada. Parece que até as intenções fílmicas são boas, abidicando de uma verossimilhança em detrimento da sua moral.

Esse roteiro extremamente interessado nessa sua lição faz com que todo longa seja afetado por esse objetivo. A direção de David Frankel (Marley e Eu) está sempre subordinado ao texto, num estilo extremamente didático, buscando sempre ilustrar o que está escrito. Muito mais do que academicismos e um estilo conciso, o que Frankel faz é uma direção sem brilho que em nenhum momento deixa a mesagem clara visualmente, estando sempre subordinado aos diálogos cheio de frases de efeito. Sem nenhuma criatividade visual o longa não cria uma identidade, muito menos uma identificação, não há ali um grande pensamento visual, podendo muito bem ser comparado ao vídeo motivacional de fato.

Essa falta de brilhantismo está presente também quase em todas as atuações. O recheado elenco de Beleza Oculta, que além de Will Smith conta com Edward Norton, Kate Winslet, Helen Mirren e Keira Knightely, parece sempre estar em busca de uma emoção além do que está escrito, e nesse processo não se encontra nada, apenas um desperdício de bom nomes que repetem frases eloquentes e motivacionais, mas que em muitas ocasiões não produzem sentimento algum.

Vale ressaltar que dentro dessa seara de bons atores em atuações medianas há um grande esforço por parte de Smith, que nos últimos anos vem tentando provar seu valor. Aqui mais uma vez está em busca disso, e embora não seja o melhor filme para sua consagração, ele é o único que consegue se entregar, fazendo a cena mais dramática do filme funcionar plenamente, ainda que esta seja recheada de exageros. É bom ressaltar também que um dos melhores momentos do filme, lá pelo primeiro ato, Edward Norton encontra um tom cômico que faz o filme fluir, infelizmente isso vai sendo deixado de lado. Se Smith entrega emoção, Norton entrega leveza, porém não há a compreensão pelos realizadores de que o filme poderia ter esses dois lados sem buscar sempre a grandiosidade de sua lição de moral.

Beleza Oculta nesse entendimento cego que sua grande lição de moral valida o filme, vai pouco a pouco desperdiçando seu potencial. Claramente com todos ingredientes certos o longa não consegue ser algo a mais, um filme que mesmo tendo sua moral a flor da pele em cada cena não leva seu espectador a lugar nenhum. Frase de efeito alguma é capaz de segurar um filme inteiro. Beleza Oculta se apequena na grandiosidade de seu discurso.