Crítica 2 | A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell

“Você é o que todos vão se tornar um dia”.

Quando essa frase é dita a Major Mira (Scarlett Johansson), fica clara enfim a dimensão de sua importância naquele universo: é a partir dela que será criado um novo conceito de Humanidade: através da junção do cérebro humano à estrutura corpórea de uma máquina, tem-se o melhor de dois mundos. E é exatamente para isso que Mira foi feita: para ser a melhor. Mas ela é apenas a primeira de uma futura longa linhagem. Tudo depende de como ela vai lidar com seus sentimentos – e suas lembranças de um passado nebuloso, que vez ou outra vêm a tona e lhe assombram.

A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell é uma experiência visual deslumbrante que, como se não bastasse, ainda fascina o espectador com a qualidade do conteúdo escondido por trás de sua roupagem High-Tech. Como em toda boa ficção científica, as ideias futuristas estão, aqui, a serviço da história. Mas nesse caso também funcionam como pontes de acesso à personagem principal. Vivida pela sempre carismática Scarlett Johansson, Mira é uma personagem calcada em dicotomias: é mais máquina que ser humano – mas sua humanidade insiste em lhe tomar por completo; é confiante e possui inteligência acima da média – mas vive numa bolha que a impede de enxergar quem ela realmente é; é uma guerreira mortal que trabalha com objetivos bem definidos – mas quando elementos de seu passado interferem em seu sistema ela deixa transparecer toda a sua vulnerabilidade, antes oculta. Não é delicioso quando um aspirante a Blockbuster pode se gabar de ter uma personagem rica como essa no centro das atenções? Bons personagens nunca foram características exclusivas do Cinema de Autor. E se A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell nos faz redescobrir essa verdade devemos muito aos próprios méritos do material original, o mangá The Ghost In The Shell, e, é claro, aos do roteiro assinado por Jamie Moss e William Wheeler, que transpuseram Mira e seu universo dignamente para a linguagem cinematográfica.

Mas é preciso que se diga: nem todos os personagens têm a força de Mira. Kuze, vivido por Michael Pitt, poderia ser um grande vilão, mas tanto seu tempo em cena como a própria performance do ator não contribuíram muito para que isso fosse efetivado. Portanto, quando nos é revelada a real identidade dele e os motivos pelos quais ele faz o que faz, não nos importamos como supostamente deveríamos nos importar. O mesmo pode ser dito de suas cenas finais, quando o filme parece nos induzir a sentir uma espécie de compaixão pelo personagem, quando a verdade é que ele nem sequer foi suficientemente desenvolvido ao longo da trama para que este momento fosse de fato catártico.

Os primeiros minutos de A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell, onde os personagens são introduzidos e a trama central é apresentada, também revelam-se um pouco problemáticos. Não trata-se de algo muito comprometedor, mas ainda assim é importante que se indique tais falhas, que são perceptíveis. Há um excesso de diálogos expositivos no momento em que Mira é concebida pelos cientistas. Eles martelam, entre eles, o conceito por trás dela, e frisam o fato d’ela, mesmo sendo praticamente uma máquina, ter “alma”. Aliás, a palavra “alma” pode ser ouvida algumas vezes. E o pior é que não há muito propósito nessa explicação toda, pois o filme já abre com um letreiro que informa, ao pé da letra, como se deu a concepção de Mira e qual o projeto da empresa por trás disso. Com esses momentos iniciais, onde se subestima a inteligência do espectador, é de se imaginar que muitos esperem pelo pior. Mas esse receio de certa forma é até positivo, pois assim o elemento surpresa que virá mais tarde se fortalece, aproveitando-se das baixas expectativas.

É verdade que demora um pouco para o filme engatar e nos puxar para o seu universo. Ah, mas quando ele finalmente desencanta e nos convida a viajar… É uma jornada e tanto. E torna-se divertido, ao longo da projeção, identificar semelhanças com outros filmes como: Blade Runner – “like tears in the rain” vem a tona toda vez que se vê um robô com sentimentos no cinema; Matrix – sempre uma referência para cenas de ação num contexto de ficção científica; e até mesmo A Origem – o Mergulho Profundo que Mira aplica na Gueixa hackeada é praticamente uma “invasão de sonhos”. Detalhe: o mangá The Ghost In The Shell veio antes dos dois últimos filmes citados.

Ainda que A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell não possua nenhuma cena com credenciais para se tornar antológica, há, dispersos ao longo do filme, instantes de pura e surpreendente beleza. A morte da Dra. Ouelet (encarnada por Juliette Binoche como um poço de carinho e afeto) certamente é um deles. E a dicotomia que rege a personagem também é digna de destaque: ao mesmo tempo em que ela é responsável por fazer um trabalho mecânico e frio, construindo e reparando robôs, seu coração transborda humanidade e a condiciona a se importar com suas criações, especialmente com Mira, com quem desenvolve uma relação próxima e afetuosa, de mãe para filha. Portanto, quando ocorre o seu assassinato, pouco após ela salvar a vida de Mira, sentimos um nó na garganta – muito distante daquela indiferença com a qual recebemos a morte de Kuze, mais tarde. Nada como um personagem bem desenvolvido e uma boa atuação! Vemos a Dra. Ouelet ser alvejada através de um vidro. E seu rosto, expressão assustada, aos poucos sai do alcance de nossos olhos. O diretor Rupert Sanders caprichou. Não só isso: nas cenas de ação ele também se saiu bem e, auxiliado pela música de Clint Mansell e Lorne Balfe soube aplicar boas dosagens de tensão quando necessário.

Mas talvez a melhor cena do filme seja também a mais bonita: a do encontro de Mira com sua verdadeira mãe, Hairi. Muita coisa acontece ali naquele diálogo. Há muito sentimento em jogo, de ambos os lados. A conversa contém elementos trágicos, mas ainda assim está imbuída de uma sensação palpável de esperança. E que fique claro: trata-se de “apenas” um diálogo. Scarlett Johansson e Kaori Momoi se saem muito bem e Rupert Sanders confere inesperada delicadeza a esta cena que acaba sendo um bem-vindo ponto fora da curva no meio de todo o clima Cyberpunk proposto por A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell.

Ainda deve-se aplaudir a inteligência do filme em não tomar partido em relação a quem é o verdadeiro vilão da história. Kuze, que teoricamente deveria ser o malvado-mor, nem é tão vilão assim – mas fez coisas terríveis… Ah, o verdadeiro vilão é a empresa responsável por toda essa confusão, empresa esta que mata inocentes em prol de seu projeto tecnológico – mas seus funcionários e agentes, como a Dra. Ouelet e Batou tornaram-se a família adotiva de Mira. Essa volatilidade é ótima, pois distancia o filme da velha dinâmica do bom x mau, onde todos têm papéis muito bem definidos e tudo é muito óbvio e estereotipado. Aliás, a linha tênue que separa o bem do mal, capaz de render discussões intermináveis, tem ecos escondidos nas palavras que iniciaram esse texto. Voltemos a elas…

“Você é o que todos vão se tornar um dia”, diz a Dr. Ouelet.

E a resposta de Mira é de partir o coração: “Você não tem ideia do quão solitária isso me faz sentir”.

A partir de agora estamos todos autorizados a nos identificar e nos emocionar com um robô. Afinal, Mira tem um pouco de nós, não é mesmo? Para o bem e para mal.

A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell
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