Crítica | A Bela e a Fera

Sentimentos não são fáceis de mudar quando se diz respeito a uma das animações mais marcantes do cinema. O remake de A Bela e a Fera, estrelado por Emma Watson, já nasce com esse forte afeto exatamente por reavivar sensações presentes no longa da década de 1990. Evidente que cada música, fala, cenário ou sequência que remete à clássica animação faz com que o espectador tenha uma viagem pessoal a sua própria memória, todavia é necessário tentar entender os pontos de independência entre o live action e o primeiro filme, ainda que ambos estejam sempre conectados.

Esse A Bela e a Fera é totalmente baseado na animação de 1991, numa adaptação praticamente literal é curioso como o filme apresenta diferenças em seus resultados. Tudo está lá: as músicas que muita gente já conhece de cor, o famoso vestido amarelo, a valsa entre os protagonistas e muito mais. A repetição desses símbolos afetuosos não significa uma reprodução de suas qualidades e propósitos. Isso porque, embora tudo pareça com aquele outro longa, a mínima distinção de ritmo, ou até mesmo de um plano resulta em filmes completamente diferentes. A questão é que a animação e o live action são obras diferentes cada uma com sua particularidade.

O primeiro fato é que A Bela e a Fera de 2017 se assume como um musical, se a animação parecia seguir aquela lógica da Disney em que canções invadiam a narrativa, como ocorre em Rei Leão, Aladdin e a Pequena Sereia, por exemplo; por outro lado, este longa-metragem assume a estrutura mais clássica dos musicais, em que o filme torna-se uma junção de diversos números de dança e música e são através deles que a narrativa é compreendida. A Bela e a Fera não contém músicas, ele é a própria música, o arco se dá através de suas estrofes e o ritmo através das mais diversas melodias. Até mesmo o estilo fílmico segue essa estrutura do gênero musical, onde os cenários são como palcos para grandes coreografias envolvendo uma série de bailarinos e uma câmera que não almeja em ponto algum ser o auge das atenções, apenas captar a maior quantidade de movimentos. Na mais desenvolta devoção aos grandes musicais do cinema.

Tal decisão contém até mesmo certa ousadia – talvez a única – por parte da produção. Se essa característica é um bom meio para trazer ao live action às diversas canções presentes na animação, também há certo distanciamento entre o público contemporâneo e os musicais. As vezes é mais fácil que o público entre nas canções de uma animação do que de um filme desse gênero.

Assim, Bill Condon dirige com segurança essas sequências dançantes, trabalhando de acordo com o que era visto nos grandes musical. O diretor emprega um pouco mais de inventividade estética nas sequências dentro do suntuoso castelo da Fera. Quando se filma os objetos animados daquele ambiente, a câmera possui uma grande fluidez, empregando movimentos mirabolantes que ressaltam a fantasia presente no local.

As opções estéticas de Condon ajudam o longa a criar essa atmosfera fantástica através de seu visual, a leveza dos números musicais e a criatividade da vida dentro do castelo aliados ao look, que busca mimetizar a animação, fazem parte dessa composição. Se aqueles dois primeiros pontos parecem arejar A Bela e a Fera, o terceiro – e o mais presente do longa – vai fazendo com que o filme se esvai em certo sentido. Esse visual funciona muito mais por sua conexão ao passado do que pela qualidade de sua realização. Pelo uso excessivo da computação gráfica, A Bela e a Fera acaba tornando seus ambientes e até mesmo personagens, principalmente o caso da Fera, em imagens pouco críveis. Não repetindo o mesmo sucesso visual de Mogli: O Menino Lobo.

É curioso como sempre que se nota a obsessão em se aproximar da obra de 1991, o filme acaba se mostrando imaturo em suas concepções. Algo extremamente notável é uma falta de timing cômico, muito disso se deve ao falto de A Bela e a Fera desejar repetir as mesmas gags e piadas da animação, como se fosse mais útil utilizar uma referência ou um fã service do que entender o ritmo e a narrativa do próprio longa, fazendo com que algumas falas pareçam apenas jogadas nesse novo projeto. Para não ser injusto, em termos cômico A Bela e a Fera desenvolve muito bem a figura de LeFou (Josh Gad), que nesse filme é muito mais do que um simples capanga de Gaston, mas que por sua complexidade – ele nutre até um interesse amoroso pelo amigo e alguma dúvida pelos seus atos ilícitos – torna-se um inteligente alívio cômico resultante de uma atualização do material original.

A Bela e a Fera parece não entender o lugar de suas renovações e nem de sua fidelidade. Se a cópia de muitos momentos compromete o ritmo do longa, como levantado anteriormente, algumas atualizações soam estranhas por terem que se enquadrar no esquema da antiga animação. Nesse sentido, o que chama atenção é antropomorfização dos objetos do castelo, aqui há uma tentativa de busca por certo realismo, móveis e utensílios que realmente poderiam ser encontrado por antiquários. Contudo, é difícil criar empatia com objetos que se distancie tanto de uma aparência humana. O carisma transmitido por uma luminária, um guarda roupa ou um relógio totalmente realista chega a beirar o zero, ainda que vozes experientes como as de Ewan McGregor, Emma Thompson e Ian McKellen estejam por trás desses personagens.

Mesmo a figura da Bela sofre com esse problema. Emma Watson tenta, ao mesmo tempo, se diferenciar e imitar aquela figura já conhecida, tenta-se criar uma personagem ainda mais libertária e independente, que reproduza as mesmas ações vistas há 26 anos, como se isso não gerasse um certo tipo de inconsistência. E se A Bela e a Fera tem momentos divertidos, grandes cenas musicais e uma grande rememoração afetiva, o longa nunca se permite a dar um passo em frente sem sentir o peso de seu passado. Nesse sentido o live action acaba sendo um filme que se prende, quase que exclusivamente, à animação de 1991, sem respeitar sua própria originalidade.

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