Crítica | Kong: A Ilha da Caveira

A imagem de King Kong é uma daquelas figuras enraizadas no imaginário cinéfilo. O gorila escalando o Empire State é algo que, mesmo realizado na década de 1930, torna-se um ícone do cinema afeito a inúmeras reinvenções. Kong: A Ilha da Caveira é mais uma delas, se nesses 84 anos, King Kong passou por diferentes roupagens e até por projetos que desejavam apenas surfar em seu sucesso, o primeiro desafio de Kong: A Ilha da Caveira é justamente saber como trabalhar em cima de uma imagem cristalizada há muito tempo.

Nesse sentido, apenas recontar o clássico na ingenuidade que isso pareça uma narrativa nova, ou reapresentar a história de King Kong com uma devoção cinéfila – como fizera Peter Jackson em 2005, parecem não ser o caminho de Kong: A Ilha da Caveira. Inteligentemente, o filme dirigido por Jordan Vogt-Robert tem a consciência de trabalhar com uma imagem já cristalizada, utilizando o personagem de King Kong quase como um simulacro, uma figura já construída e reconstruída, utilizando- como joguete despretencioso que não precisa ter sua verdade, suas essências e sua profundidade reveladas.

Assim, esse longa de 2017 não busca entender seus personagens, explicar suas origens ou suas missões. A Ilha da Caveira presente no título do longa-metragem é como se fosse uma atração de algum parque temático, os personagens e espectadores são colocados em uma série estímulos audiovisuais em que o único objetivo é o espetáculo e a diversão. Nesse festival de cores, luzes, macacos e monstros gigantes, as imagens surgem como se estivessem num trem fantasma, o que surge na tela é visivelmente construído, não verdadeiro, puramente imagético, visando o divertimento. Kong é um passeio por um parque de diversão.

O longa, então, baseia-se na construção desses estímulos audiovisuais, como se sua narrativa estivesse totalmente ligada a essas atrações, um circo de forma geral, e o objetivo de Kong nunca deixa de ser esse. Como explicar, por exemplo, a sequência em Saigon durante o término da Guerra do Vietnã. Naquele momento o personagem de John Goodman vai ao país do sudeste asiático recrutar soldados e oficiais para sua missão em Skull Island, a cidade de Saigon é repleta de luzes, os bares contém neons que pintam os planos com um azul enérgico e um vermelho intenso, a guerra não está presente ali, as luzes chamam a atenção e o soldado é apenas mais uma figura, como se fosse um boneco de ação pronto para iniciar uma aventura a partir dos anseios de seu dono. Kong não tem compromisso nenhum com a realidade, com alguma essência humana que motiva aqueles seres, Kong: A Ilha da Caveira é um mundo de imagens atrativas, sejam elas na Guerra do Vietnã ou em qualquer outro lugar.

Dessa forma, Kong: A Ilha da Caveira amarra seu longa através dessas imagens visualmente atraentes – ainda que na maioria das vezes carregada de um exagero – embaladas por uma trilha dos mais populares rocks dos anos 1970. Para que essa mistura funcione, para que esse jogo cumpra com seus objetivos, o longa aposta em três linhas muito claras. Uma vertente totalmente irônica e fortemente auto-satírica, um tom aventuresco que remete aos clássico de matinê e um diálogo com o cinema trash que fazia sucesso nos drive-ins dos anos 1970.

Essas três linhas estão presentes em cada núcleo que o longa concebe. Essa questão irônica fica evidente nos momentos protagonizados por Samuel L. Jackson, que aqui, infelizmente, se auto referencia mais uma vez, como nos seus últimos longas. O ator faz um oficial de guerra que busca por vingança após a Guerra do Vietnã e vê em Kong uma boa figura para descontar sua raiva. Esse personagem fala os maiores absurdos, proclama um discurso bélico, ofensivo e racista. Todavia, todo visual do longa concebido pelo fotógrafo Larry Fong e pelo diretor Vogt-Robert escancaram essa construção cênica do filme, as cores extremamente saturadas, o uso extremo do CGI e tudo mais evidenciam que nada daquilo é verdade. Então, por que o discurso de Jackson seria? Ou seja, a composição visual propositalmente exagerada leva a figura e as opiniões desse oficial ao ridículo.

O longa, nesse processo, satiriza a si próprio o tempo todo, brincando com aquilo que se espera de um blockbuster de ação. Kong tem momentos tão absurdos que levam o espectador a gargalhada, a diversão, e o filme nunca deixa claro que não se leva a sério, a melhor ironia com certeza é aquela que até o final não se sabe se é uma brincadeira ou uma verdade. Nesse sentido Kong: A Ilha da Caveira tem muito em comum com Tropas Estrelares, de Paul Verhoeven, ainda que o blockbuster do holandês contenha um forte crítica social velada, fato que eleva o valor daquele filme. Esses são longas que momentos propositalmente patéticos convivem lado a lado com sequências de ação que se levam a sério, confundindo a cabeça do mais preparado cinéfilo. O momento em que um soldado tenta fazer um suicídio heroico – com direito a trilha grandiosa e tudo – mas plano é ridiculamente execrado pela patada de um verme gigante prova em gênero, número e grau essa tese.

Por outro lado, o núcleo protagonizado por Tom Hiddleston e Brie Larsson remete a um espírito aventuresco à lá Indiana Jones. São esses dois personagens que conduzem a ação, que se colocam em aventuras e até mesmo ditam quando o espectador deve começar a torcer por Kong. Apesar da ação, da aventura e das explicações narrativas estarem nesse núcleo esses são os momentos mais precários de Kong, nem Larsson muito menos Hiddleston possuem o carisma de um Harrison Ford, eles reforçam apenas o pensamento de que esses personagens são como bonecos colocado a bel-prazer em situações absurdas, sendo difícil criar empatia com a dupla. A não ser pelo papel de John C. Reilly, único ator realmente bem no filme, esses momentos mais aventurescos não funcionam, comprometendo o andamento do longa.

Por fim, algo que não se pode isolar em Kong: A Ilha da Caveira é esse estilo trash, que fica muito evidente quando o próprio Kong está em cena. As lutas entre os monstros da ilha são sempre regados por uma violência absurda, regadas a escatologias e exageros. Algo que nunca se torna pesado, uma vez que nada parece real. Muitas vezes esse longa parece ter saído da cabeça de Roger Corman, rei das produções trash americanas, só que realizado com milhões de dólares. Kong arrancando com a boca tentáculos de um polvo gigante é algo que não se vê nos blockbusters.

O parque de diversão da ilha da caveira faz de tudo para que suas imagens e seu sons sejam um atrativo divertido para seu público. Nesse objetivo nunca escondido atrás de uma possível pretensão, o filme tem seus percalços, problemas e momento mais inspirados. O que se pode dizer de Kong: A Ilha da Caveira é que a fila de entrada para esse parque pode valer a pena.

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