Crítica | Negação

É curioso saber que dos campos de extermínios nazistas há apenas três fotos dos atos praticados ali. Houve uma preocupação por parte do Reich de não criar imagens dos horrores praticados ali, não se pode provar ou lembrar algo que não é visto. A partir do fim da Segunda Guerra Mundial, há um processo histórico e cultural que visa explicar e criar imagens que solidifique na cabeça de todos o que foi o holocausto, o que de fato ocorreu ali.

Todavia, o mundo pós-moderno e seu sentimento de liquefação é capaz de colocar em dúvida todas as bases do mundo, até mesmo desse dolorido evento histórico – mesmo que isso soe tão absurdo. Negação é justamente sobre a defesa da memória, da conservação e da imagem do Holocausto.

Baseado em fatos reais, o longa dirigido por Mick Jackson e produzido pela BBC narra a trajetória da historiadora Deborah Lipstadt (Rachel Weisz), que após publicar um livro que desconstruia o discurso dos chamados negadores do holocausto, foi acusada de difamação pelo mais controverso historiador e assumidamente negador daquele fato histórico. No tribunal, o que está em julgamento não é uma defesa pessoal, mas sim a veracidade, a memória e a preservação de um ato fundamental para a consciência histórica. A luta de Deborah é que a vida de milhares de judeus mortos no campos de concentração seja honrada pelas imagens históricas.

Assim, o filme coloca frente a frente dois personagens completamente antagônicos. De um lado Deborah e sua convicção histórica e memorial, do outro a figura de David Irving, (Timothy Spall) que mantém de toda forma seu discurso de que o holocausto é puramente uma invenção judaica. Como o próprio filme define, Irving deseja ao mesmo tempo provocar de forma sensacionalista o mundo todo, como também requer o respeito por parte do mundo acadêmico, fatos que fazem desse julgamento muito importante para a figura daquele homem.

Ambíguo e sem escrúpulos o personagem é a materialização da repulsa, um homem que joga baixo o tempo todo – até mesmo durante o tribunal, tentando desestabilizar concorrentes e jogando frases de efeito para a mídia. O longa faz questão de deixar claro quão desumano é aquele ser, quão baixo é seu jogo, e quanto as informações trazidas por Irving servem como autopromoção, sem nenhum compromisso com a história. Não é a toa que Spall, conhecido por ser o Rabicho de Harry Potter, carrega e muito suas caras e bocas, fazendo com que imageticamente ele se torne repulsivo também.

É muito significativo que Irving traga esse sentimento da manipulação da história por simples e mera conveniência. Seus contatos com grupos neonazistas, com grupos anti-semitas e clubes racistas da high society britânica fazem de sua dúvida histórica apenas um jogo para manter posições sociais – ainda que essas sejam igualmente repulsivas, mas também validar seu próprios preconceitos. Com isso, num mundo em que a palavra do ano foi pós-verdades e o presidente da maior nação do mundo baseia suas ações em “fatos alternativos” – sem nenhum embasamento ou estatísticas que os comprovem -, o filme compreende muito bem seu lugar, a importância de marchar contra a crise da verdade, de colocar o discurso histórico acima de qualquer suposição deliberada ou enraizada por preconceitos, mesmo que para isso tenha que se encarar de igual para igual um oponente tão sujo.

É curioso como é o comportamento de Deborah do outro lado. A personagem que até então se recusava a entrar em debates vazios com vozes que queriam apenas aparecer, agora luta pelo seus ideais, não só pelas teses defendidas em seu livro, mas pela inquestionabilidade de um fato histórico promovido única e exclusivamente pelo racismo. Todavia, essa forte mulher tem que compreender como se dão às regras naquele burocrático ringue, respeitar às táticas de seus advogados que nem sempre parece ser o caminho do idealismo, da luta pela convicção da verdade, mas sim o percurso possível para comprovar que existe uma mentira do outro lado. Deborah, assim, torna-se uma mulher num constante embate, atacada pelas armas mais sujas e defendida pelos argumentos que não desejava possuir.

Nesse sentido, o longa toma uma postura um tanto quanto perigosa. Deborah é por si só a protagonista única do filme, porém por esses caminhos judiciários se vê atada, não possuindo reação. Com isso, principalmente do meio para o final, quem começa a tomar às grandes ações são seus advogados, Richard Rampton (Tom Wilkinson) e Anthony Julius (Andrew Scott), quem realmente age para que o lado da verdade vença não é a protagonista, algo totalmente verossímil no mundo jurídico mas pouco cinematográfico.

Dessa forma, mesmo Weisz sendo capaz de traduzir o impasse dessa personagem com suas fortes impressões, Deborah perde força por não ser uma personagem de ação, mas sim da reação. Algo que deve ser levado em consideração, principalmente se o clímax se dá pelos atos dos advogados de defesa, é atuação do veterano Wilkinson que, através de sua argumentação no tribunal, demonstra o quão próximo filme está de seu clímax, alterando sua voz para que fique cada vez mais potente com o passar de seu diálogo, levando com experiência o terceiro ato do longa.

Negação por muitas vezes lembra bastante um telefilme, muito os que são produzidos pela própria BBC. O diretor Mick Jackson faz um trabalho coeso, sempre subordinado a seu texto, passando de forma simples e didáticas as informações do roteiro. A direção segue por um viés de deixar claro a importância dos fatos que retrata.

Mesmo que com algum melodrama aqui e ali, Negação tem um forte quê de suspense de tribunal, em que a sucessão de argumentos, de questionários e intervenções do juíz prende o espectador. Nesse sentido, Negação apresenta um interessante ritmo, vide o veredito dado pelo juiz, em que o diretor estende ao máximo o tempo daquela fala, deixando qualquer espectador tenso em seu assento.

Negação torna-se, assim, um filme no mínimo interessante, com uma abordagem simples, conduzida com segurança e bastante relevante. Negação, embora possa passar despercebido, é um daqueles filmes que, com simplicidade e clareza, traz um recado aos nossos tempos, e por isso é importante de ser assistido.

Negação
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