Crítica | Papa Francisco, Conquistando Corações

O Papa Francisco surgiu num momento de muita desconfiança da Igreja Católica, com simplicidade e muito carisma, Jorge Bergoglio tornou-se uma figura extremamente importante no mundo de hoje. Com ideias progressistas, diferentes e que desafiam a própria Igreja, o novo Papa não apenas reconquistou fiéis como também atraiu a simpatia de não católicos. Francisco já é um ícone contemporâneo e obras a seu respeito serão feitas, o cinema não se excluiria desse movimento.

Papa Francisco, Conquistando Corações narra a trajetória desse icônico personagem de sua infância em Buenos Aires até finalmente chegar a seu papado, passando pelo tempo de seminário, os anos de chumbo da ditadura militar e o engajamento social na periferia da capital argentina. Tudo isso é contado através da visão de uma jornalista espanhola que passa a acompanhar a trajetória de Jorge desde o primeiro conclave que ele participou.

Dessa forma, o longa adota uma estrutura narrativa em que as memórias de Bergoglio são apresentadas numa série de flashbacks que se intercalam ao momento presente daquela jornalista. Embora essa estratégia remeta a alguma desconstrução linear, Papa Francisco é um filme que se encaixa em padrões, no longa é como se houvesse duas linhas narrativas que respeitam perfeitamente uma progressão cronológica. O filme tem o objetivo claro de representar a vida e os valores do novo Papa, retratando paralelamente como as ideias do pontífice influenciam a vida das pessoas comuns.

Esses dois núcleos são bem claros no filme. É como se houvesse uma dimensão humana que necessitasse das palavras do Papa, e a do próprio Jorge mostrando a dignidade de suas ações em todos momentos. Isso gera uma contraposição extremamente frágil ao longa. Mesmo que Papa Francisco, Conquistando Corações tente trabalhar o símbolo de pontífice do povo, da humildade e distante da ostentação papal, o que o longa faz é construir um personagem nada humano. O Jorge Bergoglio é um ser sem erros na produção, algo que lhe confere uma dimensão divina, sem que esse seja o propósito do projeto.

Jorge Bergoglio é infalível em todas as decisões que toma, não há nenhuma dúvida naquele personagem, e nos melhores dos casos qualquer ser humano tem suas crises. Isso torna o protagonista um personagem extremamente raso, previsível por sua falta de profundidade. Em todas as instâncias Jorge mantém esse caráter santo. Se na sua adolescência uma garota é extremamente apaixonada por ele, o protagonista apenas a tratará com respeito e honestidade deixando claro que seu compromisso é com algo maior; se durante a ditadura seu país sofre com uma violência institucionalizada, Bergoglio é um herói inabalável, que luta com todas as forças e sem nenhum medo para fazer o que é possível; e se na sua posse como Papa o filme cita os problemas de corrupção, o protagonista é o homem que vem para resolver esses problemas. Nada é capaz de abalar a estrutura daquele homem e isso retira qualquer humanidade daquele personagem real.

Esse espírito que cerca a figura do Papa no longa-metragem afeta também a outra dimensão do longa. O núcleo composto pela jornalista, além de ter a função de expor esses fatos importantes acerca do personagem principal, também demonstra o poder do Papa Francisco em alterar aquilo que o cerca. A jornalista é a típica personagem que o filme constrói a sua mudança de pensamento, a jornalista quase descrente vai tendo sua visão de mundo alterada por conhecer a profissão de fé de Bergoglio. Isso também se dá de maneira completamente frágil, como se essa curva dramática não tivesse nenhum percalço, a transformação se dá mais uma vez apenas pela figura praticamente santa com que Jorge é retratado.

Sendo assim, essa mensagem que o filme deseja construir é colocada a força para seu espectador. Sem sutilezas o longa coloca seu discurso da maneira mais expositiva possível, suas ideias não são transmitidas através de processos audiovisuais, mas sim na própria fala, no próprio texto, escancarando toda sua ideologia. Muitas vezes, algumas das mais famosas frases de Papa Francisco surgem nos diálogos do personagem, ideias que foram elaboradas para habitarem discursos e textos bem planejados surgem, aqui, inseridas numa conversa totalmente banal. Algo que não é nem mesmo crível e parece apenas uma exposição de ideias.

Dessa forma, o filme é completamente contaminado por esse dever de transmitir os valores e ideais do Papa Francisco. A direção de Beda Docampo é uma simples ilustração daquelas palavras, não narrando sua história através de imagens, adotando um estilo extremamente televisivo com cores chapadas e iluminação que parece sempre estourada, tudo ressaltando apenas o texto do filme. Seria difícil acreditar que o elenco pudesse segurar um longa com tamanha defasagem.

Se o veterano Darío Grandinetti tenta conferir certo peso dramático ao chapado personagem do Papa Francisco, a atuação só parece não combinar com aquilo que está escrito, o ator segue por uma linha, buscando uma humanidade em seu personagem, enquanto o roteiro visa a santidade do pontífice. Por outro lado, Silvia Abascal concede ao longa uma performance completamente novelesca, em que todos seus sentimentos e pensamentos tem que ser colocados para fora verbalmente, como se o ator fosse apenas um corpo que pronuncia pela fala o que sente, sem transmitir emoção de outra forma.

Assim, Papa Francisco, Conquistando Corações é um longa que tenta ser uma espécie de homenagem, de colocar a figura desse novo Papa num altar. Um filme certamente sobre o ícone e não sobre o homem por trás da batina. Perto da importância de Jorge Bergoglio no atual cenário, Para Francisco, Conquistando Corações não é um filme à altura do novo Papa.

Papa Francisco, Conquistando Corações
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