Crítica | Power Rangers

Power Rangers dispensa qualquer tipo de apresentação. Entre os anos 1990 e 2000, a série foi um estrondoso sucesso, estando nas telinhas de várias gerações de crianças e adolescentes. Muito inspirada na séries de heróis japoneses, Power Rangers mesclava ação, uma aventura ingênua, comédia, efeitos bem exagerados e até mesmo defeituosos, e um visual extremamente colorido e espalhafatoso. Anos depois os heróis que antes vestiam colãs e capacetes, agora recebem uma nova roupagem e tentam se inserir no gênero dos filmes de super-heróis.

A proposta desse filme é conferir ao grupo de heróis um extremo realismo, tanto pelos temas que aborda como o visual que carrega. Se isso pode parecer ousado, levando em conta o imaginário acerca dos Power Rangers, nota-se que o projeto é uma profusão de tendência nos atuais blockbusters do gênero. Suas cores frias, sua câmera em punhos, a trilha musical grandiosa à la a Hans Zimmer e até a batalha épica envolvendo um monstro gigante no final. Se essas são características que colocam Power Rangers num local pretensioso (pelo menos em sua atmosfera), o longa acaba ficando taxado pela sua falta de originalidade e previsibilidade.

Dirigido por Dean Israelite (Projeto Almanaque) e escrito por John Gatins (O Voo), o filme é uma narrativa de origem como sempre foi prometido, baseando-se na tentativa de criar um novo universo, uma nova mitologia para o que já é bastante conhecido. Dessa forma, uma das coisas mais interessantes é que a dupla realmente vai buscar a gênese daquela série, buscar quase a essência daquelas narrativas. A conclusão que Power Rangers chega é que aquele universo é totalmente juvenil, a realidade então deveria estar atrelado a problemas da própria adolescência.

Sendo assim, o longa ganha contornos de um coming of age, ou seja, aquele tipo de obra em que um grupo de jovens passa por uma dificuldade, às vezes muito simples, e é a partir dela que percebem a necessidade de tornar-se adulto, como em Clube dos Cincos (1985), Educação (2009) e A Última Sessão de Cinema (1971), para citar alguns. Em Power Rangers, a grande prova para o amadurecimento é justamente o fato de serem escolhidos como heróis. O filme gira em torno dessa escolha e de como aqueles cinco garotos não podem ser dignos de suas armaduras enquanto não resolverem seus próprios problemas pessoais e sociais, isso enquanto uma gigantesca ameaça externa – Rita Repulsa (Elizabeth Banks) – assola aquela pequena cidade. Em linhas gerais, aqueles adolescentes tem um prazo curtíssimo para resolverem suas questões íntimas e assim estarem aptos a solucionarem os problemas da terra.

Essa é uma opção extremamente ousada, pelo fato de concentrar um filme de super-heróis – que pressupõe grandes cenas de ação – na solução de dramas interiores e adolescentes. Power Rangers passa boa parte de sua projeção nessa intimidade juvenil, como se o arco daqueles personagens estivessem no seu interior e não na própria ameaça externa, algo que pode ser considerado um atentado aos fãs gênero. Se isso de fato é uma decisão arrojada, bem intencionada, deve ser ressaltada que ela não é tão bem realizada.

O roteiro de Gatins contém não só uma fórmula precária – utilizando diversas cenas como pura exposição, basicamente todas que contém Zordon; e um uso extremo de causalidades, os heróis simplesmente caem em lugares ou coisas que levam a narrativa em diante-, mas o texto fílmico é mal embasado, apoiando-se em clichês e estereótipos. Todos os personagens são uma repetição do que se vê em filmes adolescentes: o atleta perfeito mas arrependido de seus atos, a patricinha que deseja sair de seu grupo social, o estranho da turma mas totalmente bom caráter, a diferentona e o brigão.

Assim, Power Rangers é um filme que não apenas se utiliza dos clichês como parece realmente acreditar na sua efetividade. Esses símbolos recorrente dos filmes do coming of age não são retrabalhados ou resignificados, mas são construídos como se fossem reais e isso abre margem até para o longa almejar transmitir uma mensagem, uma moral da história, que surge de forma superficial nos diálogos entre aqueles cinco integrantes. Tudo isso faz com que Power Rangers tenha personagens pouco críveis, pelo fato de serem simplesmente estereótipos, não reais, como o filme desejava.

Totalmente apoiado nesses clichês, o longa vai virando apenas uma série de imagens repetidas, quase como no seriado, em que cada episódio seguia exatamente uma mesma estrutura narrativa. Aqui, Power Rangers é uma repetição do que se vê nos últimos blockbusters, perdendo todas as oportunidades de originalidade. É curioso como até as aparições de Rita Repulsa, na primeira parte da projeção, parecem sair de um filme de terror adolescente, operando não na chave referencial, mas no puro e simples clichê.

Nesse sentido, o projeto tenta copiar o ar de urgência e seriedade presente em alguns filmes de super-heróis, como se tudo necessitasse seguir uma cartilha e parecer épico de alguma forma – leia-se câmera lenta com grandes poses de ação. A questão é que há também uma tentativa de preservar o tom cômico contido na antiga série, todavia as duas coisas parecem operar em chaves completamente diferentes. As piadas não são alívios cômicos, mas parecem fazer parte de um outro filme. Algo que fica muito evidente quando toca a famosa “Go, go, Power Rangers” e imediatamente a música é substituída pela grandiosa e genérica trilha de Brian Tyler, escancarando esse desejo por buscar algum paralelo com a série, mas assombrado pela ambição de assemelhar-se com os grandes sucessos do presente.

A busca pela origem, essência e revitalização dos Rangers acaba resultando num filme sem identidade alguma. Um projeto que se constrói a partir de tendências que vem dando resultado, desperdiçando, assim, características intrínsecas àquele seriado juvenil. Entre pretensões e repetições, Power Rangers acaba sendo apenas mais um filme entre tantos outros.

Power Rangers
COMPARTILHE: