Críticas

Crítica | T2 Trainspotting

Por que se volta ao passado? Essa talvez seja uma pergunta intrínseca a T2 Trainspotting desde o início de sua produção. Será que haveria necessidade de uma continuação 20 anos depois daquele clássico noventista? Fato é que essa sequência parece não ser um retorno apenas por fins comerciais, como a maioria de reboots, remakes e spin-offs hollywoodianos. T2 visa a todo o momento se perguntar por que está de volta: por nostalgia (um aconchego emocional), por vingança ou reparação? Esses são motes que motivam a viagem de T2.

O longa começa com o protagonista, Renton (Ewan McGregor), 20 anos depois, correndo em uma academia em Amsterdam. Enquanto ele se exercita, é visto um fluxo de imagens da Holanda: os moinhos de vento, as flores, as bicicletas, o gol antológico de Van Persie na copa de 2014. Aquele lugar é realmente muito melhor do que a cidade escocesa do primeiro filme. Mas Renton vem ao chão, uma parada cardíaca coloca-o na lona novamente. Paralisado no solo, o personagem cai com a cara num espelho, como se mais uma vez fosse confrontado sobre quem ele realmente é. Bom, é hora de voltar ao passado.

Assim, T2 é um filme sobre essa jornada a um lugar não físico, mas memorial, que não permite que siga em frente, pois há pendências com um outro tempo. A volta de Renton a sua cidade natal é quase como a volta de um filho pródigo, o retorno de um ser que não merecia um novo rumo e deve pagar suas dívidas com o passado. Com isso, o que se vê na tela é essa confrontação contra o tempo, contra as memórias, por vezes punitivas, por vezes gloriosas. No longa é como se essa dimensão da lembrança banhasse a realidade presente, só se vê aqueles personagens porque houve aquele primeiro contato, não há uma nova narrativa, ou uma nova trajetória, mas sim a recuperação de perguntas deixadas por Trainspotting resolvidas com o peso de vinte anos depois.

T2 é um filme totalmente consciente de sua dependência em relação ao passado. Pode se dizer que a droga dessa continuação é o próprio Trainspotting e esse longa é um processo de reabilitação. Renton loga reencontra Simon, o Sicky Boy (Jonny Lee Miller), o protagonista logo cessa sua dívida com ele, apesar do rancor de ambos, os amigos prontamente entram numa viagem nostálgica, relembrando histórias do passado como se fossem glórias. As imagens do filme passado convivem, através de projeções, no mesmo ambiente dos personagens, revivem sua juventude por um olhar da perda, da saudade.

O problema da nostalgia é que ela confere uma visão apaziguadora em relação às memórias, relevando as dores de outro tempo. T2 parece andar pelo mesmo caminho, de retomar a trajetória desses personagens apenas por uma motivação saudosista. No entanto, é justamente o contrário, o longa nutre o saudosismo para cair numa melancolia frente ao vazio do presente, frente à inconcretude do que é realizado no agora. Se o olhar de Boyle era autocrítico para com à juventude egoísta de 1996, agora é quase punitivo no seu retrato do envelhecimento desses mesmos adolescentes.

Nota-se essa melancolia na fase atual do diretor Danny Boyle, se as críticas contidas, no próprio Trainspotting, Cova Rasa ou até mesmo em A Praia continham uma espécie de conselho, algo que apontava para uma perspectiva de futuro – basta ver o final do primeiro filme em que Amsterdam é a grande segunda chance de Renton. Agora o diretor inglês centra suas câmeras em homens que são impedidos de seguir adiante pelo seus atos passados. Há a impossibilidade da criação de novos laços, de novos projetos ou novas perspectivas – algo extremamente presente em Steve Jobs (2015).

É curioso como esse saudosismo paralisante afeta o estilo do diretor, que, de certa forma, repete padrões da extrema estilização presente em Trainspotting. Se naquele filme a edição acelerada, os planos totalmente inclinados e os grafismos eram uma forma de representar um olhar viciado, aqui é como se realizador e personagens tentassem enxergar o mundo à maneira que viam no passado. E nessa conjuntura, o filme até parece um videoclipe numa época em que a MTV não existe mais, como se realmente fosse filmado na década de 1990, como se fosse necessário escancarar essa lacuna temporal que tanto T2 quanto Renton e Sick Boy vivem. Algo que fica mais acentuado quando o longa aposta em filmagens feita por celulares ou quando seus personagens utilizam aplicativos como Snapchat, algo que os torna como senhores frente à tecnologia, homens do passado tentando – sem sucesso – conviver com o presente.

O aconchego do passado não é a única resposta ao hoje, a vingança também é uma reação válida de quem vive com a cabeça numa outra época. Esse sentimento está totalmente atrelado à figura de Frank também conhecido como Begbie (Robert Carlyle). Esse personagem convive com a memória através da violência. Compreensível, foi apenas ele que pagou a pena pelo golpe dado pelo grupo no primeiro filme. Assim, apenas a vingança contra Renton basta para Begbie, o acerto de conta vem através da dor, da morte, nada mais do que isso. Nesse sentido é ele quem conduz em boa parte a narrativa, colocando o protagonista num jogo de gato e rato, e fazendo com que todos perguntem-se sobre os atos cometidos no passado. Através da raiva de Begbie surge a consciência das figuras cênicas e do espectador.

Assim, essa viagem ao passado só é realmente válida se houver uma mínima busca por reparação. E isso não significa apontar para uma melhoria no futuro, realizar um filme otimista por si só (algo que não combinaria com Trainspotting), mas sim retomar os atos passados com uma consciência presente, reavaliar erros e acertos. E isso se concretiza com Spud (Ewen Bremner), o personagem mais corroído fisicamente e psicologicamente por seus abusos tóxicos, uma figura que gera mais dó do que qualquer outro sentimento, o único que ficou com sua parte do golpe do primeiro filme mas torrou toda grana em heroína.

Em T2, Spud é o homem que, apesar de suas dificuldades, tenta seguir em frente, tenta sair do vício. tenta ter novas perspectivas, nem que isso signifique o suicídio, há ali o desejo pela libertação do passado. O personagem é quem vai reescrever os atos de seus amigos, para, assim, poder reavaliá-los. Essa ação é feita literalmente, o personagem passa a escrever um livro de memória do que ele já viveu, se isso pode ser encarado por alguns como uma simples muleta narrativa – uma vez que Begbie se utiliza desses escritos para continuar sua perseguição-, este é um ato totalmente significativo, pois mostra Spud, o sujeito mais arrebatado, sem nenhuma perspectiva, conseguindo fazer uma reavaliação crítica daquilo que é (re)visto. Spud através da sua reescrita afasta a nostalgia, afasta a violência e encara o passado com honestidade, no anseio de seguir adiante, reparando, através da consciência, seus atos passados.

Se a grande frase de Trainspotting é o lema “choose life”, algo que no contexto fílmico significa escolha a vida que deseja ter, T2 Trainspotting retrabalha essa questão. O filme é sobre rever as escolhas que foram feitas, não no sentido de viver numa outra possibilidade de futuro, mas sim de compreender o que os levou àquela situação, entender às suas memórias para criar uma perspectiva de futuro.

T2 não é uma segunda chance a Renton e sua turma, não haverá mais corrida ao pôr-do-sol com euros na mochila, mas sim um peso de uma consciência que agora reavalia seus atos, assim como público revê toda uma trajetória.

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