Crítica | Joaquim

Mitos, heróis e monumentos são fatores fundamentais para a cultura de um país. Mais do que se conectar com a realidade dos fatos, eles servem para criar uma identidade nacional, instituir mártires que gerem orgulho de sua luta, sem realmente pensar nas suas causas ou consequências. O longa brasileiro Joaquim, que teve sua estreia no Festival de Berlim, tem como objetivo essa desconstrução de uma narrativa baseada no discurso oficial que reside nos livros de histórias e no senso comum.

O longa, então, aborda a história de Tiradentes opondo-se a uma perspectiva épica que visa reforçar os status daquele homem como herói. Pelo contrário, o que o realizador pretende é fazer uma jornada interna, de emoções e sentimentos, que fazem o personagem histórico ter uma consciência humana acerca das estruturas políticas e sociais vividas no Brasil colonial. Acima de tudo, o filme de Marcelo Gomes é uma jornada humanizante da figura de Tiradentes, uma trajetória que visa destituir o monumento, reinterpretar o discurso oficial e humanizar o herói para dialogar com o presente.

Identifica-se em Joaquim a construção de três esferas para que o longa concretize seus objetivos. A primeira delas é essa jornada/trajetória realizada fisicamente pelo personagem título que resulta numa transformação interna. Como em outras obras de Marcelo Gomes – Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo (2009); Cinema, Aspirinas e Urubus – Joaquim é um filme do percurso, do caminhar, fato que coloca um longa num tempo muito específico, resultando na fruição das pequenas ações, ou das sensações daquela viagem que é muito mais simbólica do que prática. Quando o protagonista parte para buscar ouro nos rios mineiros, o importante não é o que será encontrado, ou como isso será refletido narrativamente.

Essa viagem é um percurso da consciência, de mostrar a degradação daquele homem junto à busca pela riqueza, por se adequar aos padrões do sistema daquela época. O que o filme propõe é uma compreensão mental da consciência política tomada por Joaquim, tentando transmitir sensações e sentimentos, a fim de que se entenda a volta de um homem a sua terra sedento por mudança.

Nesse sentido, Joaquim é um filme completamente poético, essa alteração da visão do protagonista não se dá de maneira didática ou algo do tipo, são situações que surgem na tela para modificar a visão do público e personagem perante àquela realidade. Na viagem de Joaquim há momento muito significativos, por exemplo, o ponto em que um índio, que serve como guia para os homens, e João, escravo particular de Joaquim, começam a cantar, o ritmo proposto pelo índio combina com a letra declamada pelo negro. Um momento de poucos minutos em que não se importa o que está sendo cantado, mas sim a representação de um povo que vai muito além de uma hegemonia branca e européia, representada em quase todo plano, onde estes dois personagens encontram-se sempre no fundo do quadro. A poesia simbólica de Joaquim tira aquele homem da sistematização social, sua jornada rumo ao enriquecimento faz com que ele perceba suas próprias correntes, situação que deve ser mudada.

O segundo ponto, o mais evidente e já citado aqui, é esse desejo por destituir o discurso oficial, por humanizar Joaquim. No entanto, mais do que isso, o filme tenta que seja compreendido as lutas daquele homem, as falhas do projeto defendido por ele e a razão pela qual anos depois torna-se um mártir. Há dois momentos chaves para entender essa situação, a primeira logo na cena de abertura, em que uma narração comenta, sob a imagem da cabeça decapitada de Tiradentes, a própria figura criada em torno de seu mito, logo ali questiona-se por que aquele homem foi o único a ser morto entre tantos conspiradores, ou por que considerá-lo herói diante de uma revolta tão falha de libertação, e ainda por que o herói de raízes populares foi o único a cair e, depois, de forma quase hipócrita, ter sua estátua levantada, enquanto seus restos mortais ficaram apodrecendo nas minas gerais diante dos olhos de seus companheiros de luta, mais rico e até mesmo beneficiados pela inconfidência.

Em outro momento, Joaquim está com piolho, por este motivo ele deve cortar seus cabelos longos para a peste não se proliferar, o personagem tira por um motivo torpe, asqueroso e comum o visual que comumente é retratado nos livros de história. Ambas as situações são políticas, uma desconstrói o herói através de uma causalidade recorrente na época e a outra, através de uma consciência histórica, questiona o discurso oficial diante de um monumento vazio.

Joaquim, com isso, tem um forte caráter político em sua ficção, como se aquela narrativa estivesse sendo contada daquela maneira para abrir um diálogo com o presente. Essa sem dúvida é a terceira esfera do longa, onde seus objetivos finais ganham forma. Diante disso, Marcelo Gomes usa uma série de elementos muito particulares do cinema político, as figuras metafóricas funcionam como a representação de um tipo social, o padre torna-se o clero, o poeta é o porta-voz dos intelectual e Zuma – que começa a narrativa como escrava- é a encarnação de uma luta popular. Nessa lógica, o cinema fluído da jornada de sensações, sentimentos e transformações internas entra em colisão com uma narrativa de alerta e de debate de questões puramente externas.

Quando Joaquim volta de sua viagem interna há o encontro com essas estruturas externas, a transformação pessoal gera um pedido de mudança social. As figuras que ele encontra organizam, partilham ou são contra os pensamentos de Joaquim, o filme que era da trajetória, da fluidez torna-se uma obra do embate. A última parte de Joaquim tenta evidenciar cicatrizes de um processo histórico que são presentes até hoje. Assim, se essa mudança aparece de forma orgânica no filme, há no longa um claro desequilíbrio, os noventa minutos de projeção são incapazes de dar conta dessas três esferas, principalmente desta última, mais política e principalmente mais potente.

Se Joaquim aponta marcas, feridas e embates, o longa nunca faz questão de escancará-los, como se tocar no tema fosse o suficiente. A fluidez da transformação lenta de Joaquim ocupa as telas na maior parte do tempo, resta pouco para que o filme assuma sua face mais política. Ainda que seja importante fazer essa passagem do existencial para o social, é evidente que nos últimos minutos Joaquim ganha contornos de urgência, da mudança total pedida pelo protagonista contra as reformas de uma classe alta e a manutenção de seus privilégios.

É óbvio que não é necessário mostrar o que ocorreu com Tiradentes, evidente que o recado já está dado e compreendido pelo público, mas Joaquim clama pela radicalização, o homem que mais tem a perder, o homem que consegue identificar seu protagonismo frente ao processo histórico, e tal pedido ou clamor fica vago no fim da obra.

Diante dos anseios do protagonista o filme termina. Sem tornar o embate do homem que retrata visível, afastando-se daquilo que é pedido por seu personagem. A cicatriz existe, a luta de Tiradentes é sabida e seu fim também, mas nada disso cabe no cinema de Joaquim. Aqui o embate é cessado sem motivos, sem conseguir transformar os impulsos e transformações internas de seu personagem em atos potentes no âmbito externo.

Joaquim
COMPARTILHE: