Não necessariamente um filme deve conter uma pretensão. Muitas vezes – talvez, na maioria dos casos –, longas são realizados na simples função do divertimento, do comércio e da simples cooptação do espectador sem que isso o desafie de alguma forma. Evidentemente que filmes mais interessantes são os que parecem estar alinhado a esse pensamento, mas questões estéticas e temáticas são colocadas de maneira sutil, passando abaixo do radar da obviedade. Fato é que, em ambos os casos, é necessário, pelo menos, uma excelência técnica e narrativa que convença minimamente o espectador, fazendo-o entrar na experiência fílmica que é convidado a assistir.

Paixão Obsessiva segue a linha dos primeiros exemplos, um filme que passa toda sua projeção buscando ser um suspense que envolva seu público, sem em momento algum ostentar maiores pretensões. O objetivo do longa é que a obsessão presente no título transcenda a tela e cause no espectador o horror, ou o medo que é sentido pela protagonista. Por fim, o pensamento do filme é o da diversão, como se chegar a esse sentimento fosse uma passagem por uma montanha russa, uma zona de conforto constante em que o espectador sabe que sairá ileso depois de alguns minutos de emoção.

Paixão Obsessiva, dessa maneira, simplifica sentimentos, sensações e o próprio fazer cinematográfico. O longa conta a história de Julia (Rosario Dawson) que se muda para uma pequena cidade na costa oeste para viver com seu noivo. Lá ela deve tentar esquecer o passado de seu antigo e agressivo relacionamento, além de conviver com Tessa (Katherine Heigl), ex-esposa de seu companheiro atual, que não consegue superar a nova vida do homem, tramando uma série de maneiras para acabar com Júlia.


A sinopse de Paixão Obsessiva já sugere uma grande dose de obviedade, parecendo algo saído de um filme de suspense dos anos 1990 que reprisa pela trigésima vez num Super Cine da vida. Feito no tempo errado e na hora errada, Paixão Obsessiva não tenta nem ao menos “sociologizar” sua premissa narrativa, não há a menor tentativa de investigar esses tipos de assédio sofrido pela protagonista, muito menos tentar entender o papel das duas figuras femininas naquele espiral de violência, como faz o thriller irregular mas eficiente A Garota no Trem (2016).

O longa parte para a tentativa de manipulação de sensações e sentimentos, algo essencial para o suspense. Todavia, Paixão Obsessiva sofre com sua falta de pretensão, com sua visão simplista perante a própria obra que realiza. Parece que a todo momento o longa está pisando em ovos para realizar algo que não fuja de padrões, ou uma ideia de suspense já pré-concebida. Como se houvesse uma fórmula clara para alcançar as sensações de seu espectador.

Na sua falta de rigor temático e na sua precariedade inventiva resta apenas a técnica, a reprodução fidedigna de padrões enraizados por um cinema comercial. Justamente aí que Paixão Obsessiva demonstra seu vazio e a incapacidade total de concretizar seus objetivos. Dirigido pela estreante Denise Di Novi – ainda que esta seja experiente no mundo do cinema como produtora – o filme é uma reprodução grosseiras de técnicas que já não funcionam há muito tempo. Tudo está em excesso em Paixão Obsessiva, não num excesso de talento, mas sim na impossibilidade de discernir o que funciona ou não para o público. Cada vez que toca o telefone de Julia uma trilha sonora pretensamente tensa e cheia de ruídos começa a tocar, sinalizando o sentimento que o espectador deve sentir, sem sutileza alguma, jogando um som que se associa facilmente ao suspense. Ou como a câmera subjetiva, ou seja,
aquela que ocupa a visão de um personagem, sendo utilizada como se alguém estivesse vigiando a protagonista, com movimentos que parecem longe de ser real, num momento que parece ter saído de uma paródia de um filme do gênero.

Paixão Obsessiva constitui-se como um acúmulo de erros, há sintomas que notam a presença de um realizador estreante, como a falta de ritmo, longos momentos em que a personagem apenas caminha no seu novo bairro, para depois sobrar poucos minutos para resolver seu clímax. Se tal falha pode ser colocada na conta da inexperiência, há detalhes em Paixão Obsessiva que são indesculpáveis. Por exemplo, o trabalho de atuação de todo elenco, marcado pela irrealidade, trazendo atores completamente engessados com uma dificuldade enorme em representar. Katherine Heigl encarna a loira frígida e psicótica como se realmente fosse uma Barbie, não só pelo cabelo loiro, mas por sua falta de vida e principalmente falta de verdade.

Aliado a isso ainda existe o roteiro de Christina Hodson e David Johnson, com um texto que além de oferecer problemas estruturais cria cenas e diálogos que parecem ter saído de uma novela terrível. Frases como “Todo mundo tem uma ex bizarra e eu talvez seja a ex bizarra de alguém” permeiam todo o filme. Além disso, momentos como o clímax do longa, cheio de absurdos, exageros e resoluções forçadas, fazem com que ninguém realmente compre os sentimentos e sensações daquelas personagens.

É curioso como o sentimento despretensioso do filme não atinge sua forma, sua estética ou sua narrativa. A falta de substância, de inventividade e pretensão refletem apenas a busca por caminhos mais fáceis de cooptação do público, de diverti-lo da maneira mais simples. Esse pensamento culmina numa incapacidade de perceber quais são os processos do próprio cinema e de suas capacidade de manipular sentimentos de centenas de pessoas de uma só vez, por fim, culmina em Paixão Obsessiva.




Paixão Obsessiva
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