Crítica | Una

Polêmicas, controvérsias e até mesmo aversão muitas vezes são palavras que rondam certos filmes. As vezes as melhores obras são aquelas que sabem cutucar, de maneira consciente, as feridas sociais, morais e humanas da sociedade. Algumas obras tocam em temas intocáveis e isso faz delas totalmente relevantes. Fato que essa busca pelo insólito, pelo inquestionável pode muito bem estar lado a lado da violência gratuita e do simples prazer pelo choque. O limiar entre o controverso inteligente e o choque abjeto é extremamente tênue.

O filme Una encontra-se no limite dessas duas características, equilibrando-se como pode nos 94 minutos de projeção. O longa narra a história da protagonista título, interpretada por Rooney Mara, uma mulher de 28 anos que sofrera abusos sexuais quando tinha apenas treze. Ela descobre que seu agressor, Ray (Ben Mendelsohn), agora vive nas imediações, trabalhando em uma fábrica com outro nome e outra vida. A narrativa se dá a partir do encontro, proposital, entre Una e Ray, entre agressor e agredido, revelando feridas abertas, traumas não resolvidos e instintos incuráveis.

Baseado em uma peça escrita pelo roteirista do filme, David Harrower, o longa passa a maior parte do tempo nesse cenário da fábrica, principalmente no escritório de Ray, um cubo de vidro no meio da linha de produção. Esse encontro torna-se um jogo de gato e rato, por ora físico, por ora psicológico e por ora verbal. Nesse jogo o tempo presente (as novas vidas de Ray e Una) encontram-se com um tempo totalmente interno (o embate sobre o trauma) e enfrenta as memórias de uma ação que retorna com força, que teima a continuar presente (os flashbacks pouco explicativos sobre os abusos ocorridos anos atrás).

Essa busca de Una pelo confronto, por colocar as coisas sob à luz e entender o que realmente houve,não é o desejo por vingança, mas sim pela compreensão, por juntar o cacos de algo que foi estilhaçado há muito tempo. Essa é claramente a relação entre os dois, a fuga de Ray em todas as instâncias de sua vida e a prisão labiríntica que se torna o psicológico da protagonista. Ray é um homem sem nome, que apagou sua vida passada para começar uma nova, sem que o passado o ameaçasse. Um homem que seguiu todos os passos jurídicos para que sua fuga fosse mais rápida, resultado apenas quatro anos de reclusão. Agora, ele volta a fugir, desconversa quando encontra-se com Una, esconde suas intenções e evita pronunciar-se naquele embate. Em seu trabalho, ele escancara um programa de demissão e passa a ser alvos de seus chefes e de seus funcionários, ele corre e se esconde em todos os âmbitos. A busca de Una e a volta do passado são refletidos no seu presente. O diretor estreante Benedict Andrews concebe quadros e planos que Ray sempre está na penumbra ou buscando se esconder, sumir daquela imagem, quase sempre no limite do enquadramento.

Una é quem se encontra presa durante o longa, essa representação da inversão do lugar do agredido e do agressor é muito inteligente no filme. Há, através da construção de um sistema de imagens, a comprovação desse trauma opressor que a protagonista vive, gerando ações que ninguém cometeria caso estivesse em sã consciência. A concepção dos espaços dentro do filme são sempre concebidos como se fossem labirintos ou prisões. A sala de vidro enclausura a personagem dentro de um espaço gigantesco, como se não fosse possível acessar outro locais naquele cárcere mental. Há também o uso extremo de linhas verticais em frente a personagem, as persianas que parecem barras e assim por diante. Em um momento, Una vai andando de costas frente a seu agressor e acaba entrando num mínimo espaço cercado por armários, a personagem se debate, e se rebela, mas ainda está presa em seus traumas do passado.

Nesse embate de alguém que conseguiu fugir da sua culpa contra alguém que vive na impossibilidade de se reconstruir após um ato inescrupuloso contra sua pessoa, o filme instala uma tensão permanente, que se dá pelos diálogos e principalmente pelos silêncios. As perguntas de Una revelam sua dor e sua confusão mental, ela questionando se seu agressor a fez chegar a um orgasmo poderia causar náuseas a qualquer um, e as respostas de Ray vão revelando a violência daquele ato passado, sempre cercado por mentiras, por uma eterna fuga. O mais forte de tudo isso é que as revelações vêm à tona justamente através do impulso, muitas vezes através de uma tensão sexual que surge e desmonta todo um personagem criado por Ray, que não consegue fugir do sexo e demonstra sua crueldade num crime de quinze anos atrás. Para Una e para o espectador que assiste ao comportamento de Ray, os argumentos utilizados em julgamento não servem mais.

Esse constante embate, essa eterna perseguição num labirinto físico e emocional faz com que ambos personagens estejam vulneráveis. Esse fato faz com que a Una demonstre toda sua fragilidade e que Ray chegue próximo a assumir sua culpa. Essa relação pode parecer expor a protagonista e conceder certo tipo de humanização daquele agressor, fato é que ali existe uma relação tão complexa que nem o filme parece saber lidar. Cada segundo mais próximo do fim da projeção é como se houvesse uma bomba relógio na mão dos realizadores que não sabem como proceder diante do tema que aborda. O caminho mais fácil são as pontas soltas, deixar que o espectador decida o que toda aquela jornada significou.

O problema não é com a não conclusão narrativa, mas sim com a falta de convicção dos realizadores quanto a ferida que desejaram expor. Se em Elle (2016), o experiente Verhoeven é controverso o bastante para criar uma narrativa baseada num estupro e subverter todas as relações sociais e humanas perante a isso, sem ser abjeto ou misógino, aqui o que há é uma falta de coragem em seguir aquele embate, de escancarar aquilo que deseja realmente mostrar, de tomar algum partido – e no filme o único lado possível é realmente o de Una.

Se o inexperiente Andrews tem coragem por buscar o controverso, se há uma inteligente concepção visual e climática dos embates retratado ali e se também não se perde no caminho do choque pelo choque, há em Una uma clara falta de convicção naquilo que se fala, de levar ao extremo a os assuntos que aborda. Polêmicas abertas são como manchetes sensacionalistas que acabam num texto vazio. Se Una chama atenção por diversa questões acaba, por fim, sendo um filme que não define o que realmente quer falar.

Una
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