A imaginação é componente essencial dentro o cinema, tanto para elaboração de narrativas, formas e estéticas, ou dentro de um cinema mais convencional na criação de mundos, situações e universos que fujam completamente do esperado. Assim, qualquer gênero cinematográfico depende extremamente deste último ponto, sendo ainda mais necessário para a ficção científica, onde existe a fabulação de um futuro que organize convenções, temáticas e estéticas muito particulares, criando um mundo novo a partir de concepções presentes.

É indissociável do gênero sci-fi sua mínima adesão a uma inventividade imaginativa. É por isso que hoje, filmes que outrora foram desconsiderados, são redescobertos, aclamados e tornam-se atemporais, caso de Eles Vivem (John Carpenter, 1988), Blade Runner (Ridley Scott, 1982) e Scanners (David Cronenberg, 1981). A ficção científica sem imaginação é uma mera forma vazia, limitando-se apenas a se inserir em convenções sem compreender as fórmulas que compra. O problema não é utilizar as regras impostas pelo gênero, como faz muito bem Alien, O Oitavo Passageiro (1979), mais um clássico sci-fi assinado por Scott, onde as convenções surgem para reforçar o sentimento de tensão e urgência da narrativa, e também para criar cenários impressionantes que ajudam a conferir uma originalidade ao filme. É necessário imaginação na compreensão do gênero que se realiza.

A citação de O Oitavo Passageiro não é gratuita (assim como a dos outros títulos também não são), Vida é uma espécie de reutilização de tudo que já foi visto na obra do final da década de 1970. Aqui não cabe o argumento da homenagem ou referência, não há uma reuso de imagens, símbolos ou até mesmo uma forma de repensar aquele clássico da ficção científica, Vida utiliza-se das estruturas daquele outro filme para alcançar os mesmos objetivos, como se a cada plano, ou a cada página do roteiro pedisse que o espectador esqueça ou não tenha visto o filme de Ridley Scott.


Vida narra a história de uma tripulação que pesquisa a existência de organismos em Marte, quando encontram uma forma primitiva de vida o grupo parte para uma pesquisa extensa, com objetivo de concluir se há existência de outras manifestações inteligentes no universo e levar essa nova espécie para a Terra, caso tudo fique em segurança. Dali em diante, a criatura tem uma espécie de evolução espontânea e cada membro do esquadrão torna-se uma vítima em potencial.

O objetivo de Vida é o simples e puro suspense, colocar sua audiência num espiral de tensão que se materializaria na claustrofóbica estação espacial diante de um perigo desconhecido. Para isso, Daniel Espinosa concebe um longa calcado no realismo, a tripulação está numa nave que realmente poderia ter sido construída hoje. Se isso pode trazer uma verossimilhança à trama, há também um forte caráter limitante nessa configuração, se o visual de Alien sugeria uma maior tensão, uma inóspita estadia daquele ambiente espacial, aqui só é parecido com algo que o espectador já viu em algum tipo de documentário informativo. Essa escolha apenas restringe o trabalho prático e estético de seu realizador.

É bem verdade que num primeiro olhar a escolha pode parecer interessante, os estreitos corredores da estação aliados à falta de gravidade fazem com que a câmera realize uma perfomance onde seus movimentos quase não seguem regras físicas. Todavia, esse momento diante do filme como um todo parece um mero exibicionismo técnico. Nem o trabalho de câmera, nem o realismo concebido fazem de Vida um intenso thriller espacial, a tensão por poucas vezes aparece, o clima de urgência ascendente vai se esvaindo ao longo da projeção e todo isso pois o longa, como um todo ,aposta na chave da obviedade.

A direção de Espinosa, realizador responsáveis por filmes tão genéricos quanto este caso de Protegendo o Inimigo (2012), faz seu suspense através da trilha teoricamente aterrorizante, do sangue que jorra na tela e os surpreendentes ataques da criatura do filme. Se isso pode funcionar em alguns momentos essa é única dinâmica presente no longa, não há nenhuma variação, nada que provoque realmente o seu espectador, propício a se cansar de sua estrutura baseada no susto e de uma tensão extremamente fácil.

A obviedade de Vida é algo que incomoda em todos os graus. Escrito por Rheet Reese e Paul Wernick (escritores por trás de Zumbilândia e Deadpool) o longa faz questão de datilografar para o espectador tudo aquilo que vai acontecer, antecipando percursos narrativos para que a audiência acompanhe todos os passos daquela criatura. Resultado: uma subestimação para com seu público. Se Alien transpirava tensão e medo, deixando as sensações à flor da pele, aqui há a tentativa de explicar aquilo que deve ser sentido. A compreensão da ficção científica pelos realizadores de Vida é a exclusivamente baseado na repetição daquilo que um dia funcionou, sem nem ao menos ter consciência de suas ferramentas.

Sem arriscar alguma inventividade durante seus 104 minutos, Vida tem um outro momento interessante. Sem dúvida o melhor deles nos últimos momentos de tela, num clímax (que não será revelado aqui) pretensamente surpreendente, mas que funciona não por essa questão, mas sim por escancarar o terror diante de uma criatura que finalmente demonstra-se inteligente, não apenas um corpo primitivo e assassino.

Com um orçamento considerável, com um elenco de renome (cuja performance nem pede menção, uma vez que é tão apagada) e a apropriação de uma fórmula de sucesso dentro do gênero que realiza, Vida comprova que o êxito da ficção científica provém de algo impagável, incomensurável e muito particular, a inventividade e a criatividade. Nesse longa com pouquíssima imaginação sobra uma fórmula bem produzida, mas totalmente vazia.




Vida
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