Crítica | A Promessa

O cinema muitas vezes segue certos tipos de tendências, às vezes visuais, temáticas, de gênero entre tantas outras coisas. No cinema comercial, essas modas são totalmente definidas pelo olhar do público e aquilo que ele gostaria de ver. Todavia, além de um comportamento de consumo essas tendências estão relacionadas a um modo como opera o mundo na atualidade, um sentimento presente em cada olhar frente uma obra de arte.

É por isso que alguns filmes, mesmo representando outro tempo ou período, dizem tanto sobre o momento que foram realizados, captando em todas as esferas os olhares de uma outra década ou de uma outra geração. Evidente, que isso está muito ligado a figura do autor e sua capacidade quanto artista de captar e canalizar os sentimentos do tempo e do espaço que vive. Obras como E O Vento Levou (1939), Lawrence da Arábia (1962), O Poderoso Chefão (1972), e tantas outras, partem de uma representação do passado, através da narrativa grandiosa e épica, para conversarem com o público de seu presente, um jogo interessante entre o reflexo do passado no presente.

Logo de cara, ao se deparar com A Promessa, esse objetivo fica bem claro. O longa se passa às vésperas da Primeira Grande Guerra, situando-se no Império Turco-Otomano, onde ocorreu, naquele período, o terrível genocídio armênio, negado até hoje pelos turcos. O filme centra sua câmera numa espécie de triângulo amoroso histórico, entre um estudante de medicina armênio, uma francesa com descendência dessa mesma etnia e um importante jornalista americano, interpretados respectivamente por Oscar Isaac, Charlotte Le Bon e Christian Bale.

Evidentemente, a obra tenta emular a grandiosidade de um cinema épico romântico, como os do excelente cineasta inglês David Lean, do já citado Lawrence da Arábia e de outros clássicos como Doutor Jivago (1965) e a Ponte do Rio Kwai (1957). Fato é que essa referência bastante clara vem unida a uma modernização no conceito de direção, os magníficos planos abertos no por do sol das áridas planícies da região mais oriental da Europa são acompanhados de uma câmera na mão muitos vezes tremida e desfocada, de planos acoplados a cavalos ou carroça, assim como as cenas externas realizadas com uma grande ajuda do chroma key e da pós produção, enquanto no passado os cenários recebiam acabamento de paisagens desenhadas a mão, algo que deixa o visual daquelas obras com uma beleza bem particular.

A questão não é exigir que A Promessa utilize os meios e processos de realização referentes aos anos sessenta, mas perceber como, no caso deste filme, a mescla entre padrões atuais e formas mais antigas não conversam tão bem assim. Dessa forma, visualmente falando, o longa é bastante descaracterizado, como se quisesse enquadrar suas referências nas imagens comumente vistas no mais comercial audiovisual da atualidade. Sem personalidade, a obra custa a perceber sua falta de comunicação diante do público atual e isso não está apenas nas imagens que cria.

A Promessa segue rigidamente esses padrões presentes nos épicos românticos, o grande acontecimento histórico, por mais terrível que seja, é um pano de fundo para o desenvolvimento de histórias pessoais. Assim, é presente na obra uma impossibilidade tanto de falar de seus conflitos internos quanto da sua temática política, como se tivesse que se dividir entre essas duas esferas, sem se aprofundar em nenhuma das duas. Os 131 minutos de A Promessa são incapazes de aprofundar algo visto em cena, como se o longa estivesse sempre na superfície de seus conflitos.

O longa, ao tentar estabelecer a velha narrativa amorosa como a grande arma contra as adversidades, repete clichês e convenções que já não pertencem a este mundo. A narrativa açucarada, extremamente romantizada, totalmente grandiosa e redentora afasta a audiência do objeto temático que o filme narra. É como se a narrativa presente no longa desviasse o espectador do material real que os realizadores depositam tanta importância. Essas duas esferas narrativas não só ficam em dissintonia como também criam um abismo imenso entre essas duas partes.

A imagem do fato real sendo a causa do desamor já não funciona em 2017, pelo menos não da maneira que é colocado em A Promessa. Aqui é como se houvesse a necessidade de trabalhar essa narrativa interna para que se possa falar de um fato histórico, como se o espectador só tivesse interesse nesse material real com essa história de amor envolvida. Outra figura anacrônica presente em A Promessa é a do personagem interpretado por Bale, trazendo mais uma vez a figura do homem americano que possui a missão de levar a liberdade aos lugares mais remotos do mundo, algo que olhos um pouco mais conscientes sabem que é uma visão muito inocente, para não dizer hipócrita.

Ao acreditar nessas figuras já ultrapassadas, A Promessa dá mais um passo rumo à superficialidade e ao artificialismo. Numa cena referente ao personagem de Christian Bale, o embaixador americano discute com uma importante figura do governo turco, esbravejando este último personagem revela haver um genocídio ocorrendo em suas terras e o americano logo responde que não contribuirá em mais nada com os turcos. Questões extremamente complexas geopoliticamente falando são resolvidas numa discussão de gabinete, afastando mais ainda filme de seu objeto histórico.

Apesar do grande esforço por parte do experiente elenco, nem Christian Bale, nem Oscar Isaac conseguem efetivamente sustentar personas baseadas em tantos clichês anacrônicos, até mesmo os dois bons atores ficam caricaturais em A Promessa. Um filme que em nenhuma instância consegue comunicar-se com seu público atual. Se o genocídio armênio ainda é um assunto que deve ser colocado em pauta e se o filme percebe a importância disso, infelizmente não consegue entender como organizar dentro de uma obra audiovisual seu objeto baseado em um fato real. A Promessa é uma obra enraizada em figuras e processos que já não fazem parte do mundo atual.

A Promessa
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