A adolescência é um momento paradigmático para a vida de qualquer pessoa. Um momento que representa o limiar entre a vida adulta e suas responsabilidades, e a infância e sua constante diversão. Um período de descobertas, revelações e formações de caráter. Não é necessário ser nenhum estudioso para fazer tais afirmações, fato é que essa fase da vida é tão significativa que representa ou uma edificação gigantesca na vida de uns, ou trauma profundo na outros. Essas duas possibilidades são constantemente colocadas no processo catártico que é o cinema, e convivem o tempo todo em Antes Que Eu Vá.

Baseado em um romance juvenil escrito por Lauren Oliver, o longa conta a história de Samantha Kingston (Zoey Deutch), uma garota com a vida de adolescente perfeita: popular, espécie de líder entre as garotas mais queridas do colégio, desejada, namorada do atleta mais sensual do último ano do ensino médio e assim por diante. Certo vez, após um dia intenso de uma adolescente quase perfeita do subúrbio americano, Samantha e suas amigas voltam de uma festa e se envolvem num acidente de carro. Ao acordar, a protagonista se vê de volta ao mesmo dia que acabou de ser visto.

A premissa está longe de ser nova, essa volta a algo já vivido está presente até mesmo no popular livro de Charles Dickens, Três Espíritos de Natal, também conhecido como OS Fantasmas de Scrooge que ganhou algumas adaptações audiovisuais, ou até mesmo no clássico da Sessão da Tarde, O Feitiço do Tempo (1993). Mas isso não chega a ser um grande problema, e talvez encontre nessas obras anteriores realmente a chave para Antes Que Eu Vá. O filme propõe esse reviver para questionar a perfeição daquela vida, daquelas escolhas juvenis, um filme que tenta, acima de tudo, construir uma narrativa conscientizadora.


O longa dirigido por Ry Russo-Young e escrito Maria Maggenti é, dessa forma, recheado de boas intenções. Antes Que Eu Vá está tentando colocar indagações acerca do bullying e das relações afetivas dentro dos ambientes juvenis, algo de extrema importância hoje em dia. Todavia, o ponto mais falho presente no filme é justamente sua incompreensão em relação à geração abordada. Como se o olhar das realizadoras estivesse sempre distanciado, como se tivessem uma visão de cima dos fatos ocorridos ali, quando deveriam estar inseridas nesse meio juvenil. Uma obra que não consegue sentir aquilo que seus personagens sentem.

Isso ocorre muito em função do projeto de representação daquele mundo e de suas personagens. O título original do filme e do livro é “Before I Fall”, que traduzido ao pé da letra significa antes que eu caia, a queda é justamente perder esse senso de que aquela vida é maravilhosa, mas para que seja possível um declínio é necessário que o espectador também sinta como é estar num pedestal. Ou seja, para que essa quebra de paradigma na vida da protagonista seja realmente sentida pelo espectador, é vital que haja uma adesão em relação àquela vida perfeita, só assim é possível um questionamento honesto daqueles atos.

O que ocorre em Antes Que Eu Vá é justamente o oposto. Parece que o texto de Maggenti e a câmera de Russo-Young exageram aquilo que é vivido pela adolescente. Como se sempre estivessem questionando se tudo aquilo é realmente divertido, se aquela vida é realmente agradável. Desde os primeiros minutos o que se vê na tela é um filme que julga e condena toda uma geração, ao invés de tentar entendê-la. O questionamento, assim, passa a ser através de um visão pré-concebida, logo preconceituosa. A defesa aqui não é passar a mão na cabeça dos jovens representados, mas sim buscar que o público pense como eles, para, assim poder, finalmente, questioná-los.

Fato é que a partir daquele exagero, daquele prejulgamento, o espectador tem uma dificuldade em envolver-se com as figuras colocadas na tela. Não é possível uma empatia com personagens praticamente ridicularizadas desde o inicio, logo é difícil compreender a dor daquela jovem. O longa é incapaz de traduzir o quanto aquela redoma de cristal é benéfica a ela – embora nem tudo estivesse certo, assim, nas inúmeras voltas aquele mesmo dia, começa a haver um total desinteresse por aquela trajetória. Samantha parece estar errada em tudo que faz, parece ser mesquinha em todos os âmbitos, Antes Que Eu Vá faz de sua protagonista, um símbolo dessa geração, um ser totalmente superficial. Essa representação torna a dor da protagonista como algo passível de questionamentos.

Assim, o filme constrói um retrato um tanto quanto estereotipado de toda uma juventude. Um longa com muita dificuldade em compreender aquilo que aborda. Nesse percurso da superficialidade cabe a diretora do filme recorrer ao sentimentalismo para alcançar alguma emoção. Antes Que Eu Vá é recheado de trilhas emocionantes (mesmo que elas venham acompanhadas de alguma música pop), planos que focam nos rostos emocionados, ou indignados, ou nas frases de efeitos pontuadas pelo roteiro. Antes Que Eu Vá na sua busca por conscientizar a juventude, nunca consegue realmente entender essa geração.

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Antes que Eu Vá
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