Mark Wahlberg em O Dia do Atentado

Alguns eventos simplesmente não passam em branco. Alguns deles são capazes de mudar toda uma configuração histórica, outros marcam profundamente as comunidades ocidentais, deixando estes países suscetíveis ao medo e a um sentimento de vulnerabilidade. Evidente, que essas ocorrências podem ser abordadas das formas mais distintas, da política à psicologia, passando pelo sentimentalismo e até o nacionalismo. O atentado que ocorreu em meio a maratona de Boston é com certeza um desses eventos.

Extremamente apoiado nesse fato, Peter Berg tenta remontar e dramatizar os dias ao entorno do atentado de Boston. É perceptível também que a abordagem do diretor americano é a do sentimentalismo, envolver o acontecimento verídico em torno do melodrama, dos sentimentos dramáticos e do apelo emocional. As consequências do ocorrido naquele Patriots Day se dão, única e exclusivamente, através das emoções.

É curioso como esse novo longa de Peter Berg assemelha-se e muito com seu anterior, Horizonte Profundo: Desastre no Golfo (2016), também estrelado por Mark Wahlberg. Parece haver uma pretensão do cineasta em ser um autor, ou um cineasta minimamente consciente de um projeto de cinema. Berg deseja possuir a marca de uma espécie de cronista emocional da América pós-onze de setembro, algo marcante desde O Grande Herói. Todavia, a consciência do que se filma pode destacar Berg de tantos outros realizadores de Hollywood, mas não necessariamente valida as obras feitas pelo diretor. O que se vê é uma repetição de formas para a cooptação emocional e sentimental sem nenhum questionamento crítico em ralação àquilo que é visto.


O longa começa traçando um panorama da vida de Boston, mostrando o dia a dia de algumas figuras comuns antes daquele fatídico dia. Um imigrante, um policial, uma estudante, um guarda universitário, um jovem casal, pessoas que poderiam ser encontradas em qualquer cidade. A representação daquele cotidiano é como se tudo estivesse no estado perfeito das coisas, como se os pequenos dramas não atrapalhassem a paz e a plenitude daquele lugar. Assim, aquele atentado é como se fosse a única coisa que pudesse desengrenar aquela realidade, algo muito forte para desestabilizar as bases sólidas daquela sociedade.

É aí que surge o segundo ponto em comum entre O Dia do Atentado e a obra anterior de Berg. Esse evento que arruinará toda uma vida deve ser mostrado da forma mais violenta, para que o espectador sinta, de fato, aquele abalo. Assim, o atentado é filmado a fim de aumentar suas possibilidades dramáticas, deixar o que já é aterrorizante e violento ainda mais marcante. Berg mostra a explosão por diversos ângulos, o som é ainda mais intensificado, a explosão ganha contornos sonoros ainda maiores. O espectador é convidado a ver o atentado pela perspectiva de cada um daqueles seres que se viu em perfeita harmonia. A intensificação da violência unida a uma relação emocional construída com os personagens anteriormente vistos edifica uma adesão emocional de forma forçada, truncada. Baseada numa espécie de sensacionalismo, de uma exploração dos violentos acontecimentos.

Com isso, constrói-se a terceira e mais longa parte do filme, as consequências daquele ato de ruptura da ordem. O Dia do Atentado parte para as explicações da busca dos terroristas, mostrando como FBI e polícia local uniram forças para conseguirem restaurar aquela paz. O filme de Berg vira um misto de thriller com uma boa parcela de melodrama, a primeira a caçada e a segunda as consequências emocionais daqueles retratados.

A obra de Peter Berg sustenta-se através de dois pilares bem claros, para que essa trajetória rumo a paz vista no início do filme seja crível. A primeira delas e totalmente importante para esse projeto é deixar evidente a conexão da obra ficcional com a realidade. Há uma clara obsessão nesse retrato quase cru dos acontecimentos, como se isso validasse cada linha do roteiro do longa. Assim, o diretor utiliza alguns elementos dos documentários tradicionais, como colocar um título ao lado de cada figura politicamente importante, escrevendo seu nome e seu cargo. Além disso, essa força da dramatização é tão presente que muitas vezes ele se assemelha à reconstituição. Há em O Dia do Atentado uma série de cortes invisíveis, ou seja, quando a edição fica imperceptível aos olhos do espectador, em que a imagem ficcional é editada em justaposição com as de câmeras de vídeos que registraram os momentos precisos daqueles acontecimentos, conseguindo até mesmo uma continuidade de movimentos entre a imagem construída e as imagens reais. A imagem do real une-se a imagem ficcional.

A busca pelo hiper-realismo presente no longa faz com que tudo presente ali não seja passível de questionamento, pois a realidade está em cena. Todavia, as emoções vinculadas a essas imagens são da construção fílmica, da narrativa, da trilha sonora que leva os mais sensíveis ao choro. Na lógica da constante criação de sentimentos com o discurso da veracidade, Peter Berg constitui um filme da inquestionabilidade, como se houvesse apenas um tipo de dimensão referente ao acontecimento histórico, e ela é puramente emocional e melodramática. O fatídico evento é resumido apenas a isso.

O outro pilar é a figura do herói, e ele se materializa na figura de Mark Whalberg. O ator aqui utiliza-se toda sua persona, não como se tivesse que construir uma personagem, mas sim o contrário, é ele quem dita a sua própria figura. Nessa personagem quase simbólica, Whalberg traduz em ações e palavras tudo o que os envolvidos naquele evento gostariam de fazer ou dizer. Esse personagem é uma espécie de ícone, aqui não há um estudo de personagem e como heroísmo está envolvido nele – como faz muito bem Clint Eastwood – mas sim uma figura inquestionável que representa todos os valores e desejos de uma população, no caso, de Boston.

Assim, Peter Berg faz do atentado de Boston um retrato sentimental, muitas vezes utilizando-se das mais puras negociações sentimentais, que afastam o público de uma veracidade dos fatos, mesmo que haja um hiper-realismo sempre presente. À beira do sensacionalismo, ainda há em Peter Berg a tentativa de contar a história da América e de suas reconstruções, através de suas piores catástrofes. Entre sensacionalismo, sentimentalismo e hiper-realismo há um pensamento no cinema de Peter Berg.

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O Dia do Atentado
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