Crítica | O Reino da Beleza

Laureado em 2003 com o prêmio de Melhor Roteiro no Festival de Cannes e, no ano seguinte, com o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro por As Invasões Bárbaras, Denys Arcand se tornou conhecido mundialmente por essa continuação de O Declínio do Império Americano (1986), um dos melhores longas de sua filmografia.

Em O Reino da Beleza, seu mais recente longa-metragem, nos deparamos com Luc (Éric Bruneau), um bem-sucedido arquiteto de Quebec e seu caso extra-conjugal em uma viagem de negócios para Toronto. A história se complica ainda mais com a depressão de sua mulher e com a doença de um amigo próximo.

Os traços clássicos das obras de Arcand estão presentes, o humor envolvendo questões existenciais, as belas imagens de paisagens canadenses – que nesse caso acabam sendo mais belas do que impactantes, e principalmente a abordagem de questões da psique e do gênio de personagens que parecem ter todo o possível em relação aos bens materiais.

Entre clubes de golfe, jogos de hockey, caça de patos e até apresentando todas as personagens juntas cantando no coral da igreja enquanto Stéphanie (Mélanie Thierry, entregando a melhor performance desse longa), esposa de Luc, aparece extremamente melancólica, O Reino da Beleza vai costurando algumas questões mais humanas no meio de inúmeras situações corriqueiras dessa alta sociedade de Quebec.

Mesmo que muitas das motivações das personagens tenham sido deixadas de lado e que certas ações e reações chegam a parecer não ter sentido, algumas cenas envolvendo a personagem de Stéphanie são de tirar o fôlego, especialmente a da estação de esqui. Contudo, o maior êxito desse filme é criar uma relação entre a arquitetura, os relacionamentos e as pessoas. As ligações e os indivíduos se vão, mas os prédios sempre ficam, como pode ser visto na bela cena dos créditos.

A passagem das estações também conversa com a trama e, apesar de não ser tão forte ou expressiva quanto no clássico Primavera, Verão, Outono, Inverno… e Primavera, de Ki-duk Kim, funciona para pontuar alguns momentos dos relacionamentos entre as personagens.

Ao longo da trama, entre os affairs e a alienação que o trabalho de Luc parece lhe causar, ele soa como alguém tão egocêntrico que parece ignorar a situação de sua esposa como se não a ouvisse, ficando ao pé da cama falando de si e da abadia que está prestes a construir.

Nessa relações existenciais que parecem ter uma clara influência do dramaturgo Anton Tchekhov, onde muitas personagens soam tão egoístas que são incapazes de notar ou se compadecer com qualquer drama alheio ao seu próprio, notamos cena após cena a incomunicabilidade que reina nesses vínculos.

Por mais que se faça morno em alguns momentos, O Reino da Beleza pode não chegar perto em qualidade dos dois longas-metragem que consagraram Arcand, mas ainda entrega uma interessante história sobre a tristeza, a arquitetura, o medo e a infidelidade.

O Reino da Beleza
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