Se o começo de Os Defensores é colorido, rápido e bem continuado, a metade final da série muda o tom e dá uma aula onde não ensina somente como fazer uma série de super heróis mas também como não fazer. Como já esclarecido aqui, o grande crossover da Marvel Netflix tem um início empolgante, divertido e promissor, mas algumas coisas acabam ficando na promessa. O que não desqualifica grandes acertos.

A iluminação e cenografia passam por uma mudança sutil que vai lentamente saindo do colorido original até mesclar as cores características de cada personagem em tons escuros quando estes se assumem como grupo. Já mais perto do final, o espectador se descobre em universo muito mais sombrio do que o inicial, o que condiz com a decadência apresentada de uma história com um final agridoce. E esse é um ponto positivo, mostrando uma possibilidade pouco explorada até então no (se pode ser chamado assim) “gênero” de super heróis, que é discutido hoje com aspectos de dualidade tanto nas comparações entre DC e Marvel no cinema e televisão, quanto na abordagem das problemáticas de suas próprias histórias.

Mesmo assim o maniqueísmo é presente e traz as cargas tradicionais de senso de justiça. Mais do que definir os lados da história como certo e errado, a batalha a ser enfrentada pelos protagonistas é uma guerra entre a vida e a morte. Não tendo tons de cinza na discussão, a trama coloca ambas as alas em conflito interno, e aí começam os problemas. Essa decisão tira o foco das jornadas mostradas inicialmente, as substituindo pelo que deveria ser uma subtrama, transformando o rumo da história em uma grande intercadência. Assim, a admirável atuação de Sigourney Weaver (Alexandra), que em cena consegue nos mostrar toda a carga de sua personagem às vezes sem usar palavra alguma, acaba quase que sendo desperdiçada pelo desfecho.


Os fãs do Homem-Aranha de Sam Raimi e do Batman de Christopher Nolan, em oposição, talvez, devem gostar da abordagem dos super humanos. Como nas séries anteriores (Demolidor, Jessica Jones, Luke Cage e Punho de Ferro), os heróis continuam, até onde é possível, com os pés no chão. Isso faz com que o problema a resolver acabe se mostrando mais localizado do que deveria, já que a expectativa criada aparenta ser mais alarmante do que o problema em si. Também, pode-se observar deslizes às regras estabelecidas nesse universo. A presença de Stick (Scott Glenn) já havia incomodado os fãs mais exigentes, mas ela poderia significar um alívio do sombrio, que infelizmente não existe.

Os fãs dos quadrinhos mais clássicos, que esperavam ver vigilantes mais assumidos, podem se decepcionar. O clima sombrio impede uma caracterização melhor dos heróis, com exceção do Demolidor, que tem um real uniforme e título (Demônio de Hell’s Kitchen), mostrando-se mais consolidado nesse âmbito. Infelizmente, perde-se um tipo de essência usada em tantas histórias em quadrinhos, até (e muito bem) em Watchmen, quando não vemos Danny Randy (Finn Jones) em um uniforme mais flamboyant. A juntura de personagens mais próximos do real à magia de Punho de Ferro também não cria quase que efeito nenhum no universo compartilhado.

É necessário dar destaque à Madame Gao (Wai Ching Ho), que poderia ter se mostrado uma vilã interessante ao roteiro quando questiona o papel que os vigilantes exercem, porém de forma rasa e pouco aproveitada. Já do lado dos mocinhos, Mike Colter (Luke Cage) continua deixando a desejar em sua atuação. Mesmo com uma ótima personagem em mãos, seu alcance acaba sendo baixo quando este é acionado em momentos mais tocantes, e ao final da série o carisma do ator pode não ser o suficiente pra suportar a personagem. Krysten Ritter continua ótima como Jessica Jones e Charlie Cox continua sendo um bom Demolidor.

Os problemas da série parecem estar relacionados ao baixo protagonismo de quem ainda não se provou como herói e a uma nova jornada daqueles mais consagrados, desequilibrando a trama que vinha harmoniosa até então. Os personagens secundários teriam todos o tempo certo, com destaque para Colleen (Jessica Henwick) e Misty Knight (Simone Missick), não fossem os pertencentes à galeria de Demolidor, Karen Page (Deborah Ann Woll) e Foggy Nelson (Elden Henson), que se arrastam pela trama mais do que deveriam, atrasando o ritmo de maratona que o início da série propõe.

Ainda considerando isso, as cenas de ação continuam mantendo um alto nível de coreografia, que funciona muito bem quando simulam um plano sequência, mas deixa a desejar no enquadramento quando as cenas sofrem mais cortes secos. A trilha sonora falha não sendo condizente em apenas um momento, e até as ações e reações tão adequadas das personagens na primeira metade acabam se perdendo no clímax. Mesmo assim, o nível de produção e direção de Os Defensores é bastante superior à qualquer série de super heróis da televisão, e faria alguns filmes do tema morrerem de inveja.

Tecnicamente muito boa, o julgamento acaba caindo apenas sobre as próprias expectativas da série, e pode tanto agradar quanto cativar quanto desiludir, à depender do tipo de abordagem que o espectador procura.  Os Defensores começa harmoniosa, ritmada, divertida e instigante, mas perde um pouco essas características na reta final, o que deve desanimar alguns fãs, mas é um projeto tão audacioso quanto foi o primeiro filme dos Vingadores, e dadas às proporções, cumpriu melhor a sua tentativa.

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