Crítica | Valerian e a Cidade dos Mil Planetas

Cena do trailer de Valerian

Valerian foi o filme mais caro de toda a indústria francesa, longa filmado num gigantesco complexos de estúdios, com um arrojado plano de investimento e que foca no inabalável mercado de exibição chinês para pagar suas contas. O título de Luc Besson talvez seja o grande monumento de um nome que tentou, durante toda sua carreira, inserir-se numa lógica do cinema industrial sem estar dentro de Hollywood. Valerian seria um filme para demonstrar que esse cinema pode ser feito com qualidade sem estar aliado aos grandes estúdios americanos.

Valerian faz questão de mostrar toda essa sua grandeza, essa sua proximidade com os grandes blockbusters do ano. Desde seu idioma em inglês, a participação de grandes astros infanto-juvenis, o grande trabalho em efeitos especiais, a fantasia e principalmente a grandiosidade. Esse desejo pauta todo o longa e faz com que coisas bastante importantes fiquem em segundo plano.

O filme conta a história de uma dupla de oficiais intergalácticos que devem recuperar um artefato de um planeta perdido, todavia os dois acabam percebendo estarem numa conspiração muito maior do que eles poderiam imaginar. O longa então acompanha as aventuras tanto do Major Valerian (Dane DeHaan) quanto da Sargento Laureline (Cara Delavingne), personagens que dividem o protagonismo do longa, ora um tendo participações mais efetivas, ora o outro roubando mais a cena.

Valerian é uma adaptação de uma famosa e importante HQ, uma obra que redefiniu os parâmetros da ficção científica. Assim, o pensamento presente no filme é justamente fazer jus a esse material através de seu valor de produção e e de sua grandiosidade. Mais do que isso, há uma tentativa em Valerian de unir uma forma antiga de pensar o sci-fi com os parâmetros atuais de um blockbuster. O longa remete aos clássicos filmes do gênero nas décadas de 1950/1960, quando a ficção científica não possuía os grandes orçamentos. Viagens intergalácticas, uma série de povos e personagens com biotipos muito diferentes, armas e acessórios cheios de inventividade. Um tipo de sci-fi que até certo ponto tenta fazer do futuro uma verdadeira fantasia.

Isso faz com que Valerian pareça um pouco mais incomum do que os tantos outros filmes que chegam visando às bilheterias. O longa começa com duas sequências que parecem sustentar essa hipótese. A primeira, utilizando David Bowie e sua Sapce Oddity para mostrar como o espaço tornou-se um novo espaço de conquista humana, mostrando a hipotética evolução da conquista espacial desde 1970. Embora essa seja interessante e bem embalada, faz uma espécie de prólogo para chamar atenção. Talvez a segunda seja de fato a melhor construída narrativamente, uma longa sequência quase sem diálogos que demonstra como um planeta em perfeita harmonia teve um fim catastrófico e quase dizimou uma espécie inteira. Logo aí, Luc Besson deixa claro todo seu look para o longa, espalhafatoso, colorido, meio camp, meio carnavalesco, buscando com muita verba diferenciar-se das mais recentes ficções científicas.

Essa segunda sequência é vista também pelo protagonista do filme, através de uma comunicação mental, a partir daí, o Major entende que sua missão será maior do que uma simples operação espacial. O longa então finalmente inicia sua narrativa, e se no início, o cineasta tentou conquistar a audiência com duas curtas ideias, como um conjunto da obra, Valerian é um filme que se perde, que não consegue encontrar unidade e coesão em sua narrativa.

Isso ocorre por alguns motivos, o principal deles o roteiro escrito pelo próprio Luc Besson, uma narrativa com muita dificuldade de concisão. Uma obra que dificilmente consegue se concentrar no que realmente quer dizer. É como se o longa tivesse deslumbrado com o universo que adquira os direitos, desejando colocar tudo nessa única projeção. Luc Besson obriga seus protagonistas a percorrerem inúmeros mundos, encontrarem diversas personagens, criarem mini plots – como o romance entre os protagonistas – entre tantas outras coisas que só afastam Valerian de qualquer narrativa fluída.

Nessa obrigação de percorrer todo universo ficcional, por mais que ele possa ser interessante, a jornada daqueles dois torna-se uma confusão, algo que não se define nem como um road movie espacial, muito menos como uma missão intrigante naquele universo diferente. Além disso, algo que torna essa ambição de compor a narrativa ainda mais fugaz é o trabalho de Luc Besson na direção. Cineasta que faz questão de evidenciar cada avanço técnico de seu filme, como se filmasse mais seus efeitos do que sua história propriamente dita. Besson se ludibria com seus aparatos técnicos, com o título de filme mais caro de seu país, com seus efeitos, algo que narradores como Spielberg nunca fariam. Nessas duas horas e 17 minutos de Valerian não é difícil ver o longa gastar seu tempo com grandes efeitos, uma corrida em que o personagem passa por parede e ambientes diferentes numa câmera que parece em primeira pessoa; e uma infinidade de personagens feitos em CGI, fatores que não necessariamente ajudam a narrativa do longa.

Se o visual é interessante, deve ser lembrado que a graphic novel Valerian moldou a ficção científica, influenciando até mesmo o clássico absoluto Star Wars. Assim como tudo que é muito arrojado e surpreendente logo é incorporado, pautando o senso comum acerca desse gênero. Hoje o filme de Valerian parece uma série de imagens já reproduzidas por muitos e muitos produtos audiovisuais. Luc Besson não consegue devolver o frescor que seu material de origem possuía anos atrás. O cineasta faz um filme de efeitos que nunca consegue criar um mundo sem que isso pareça uma série de imagens jogadas.

Se a narrativa é confusa partindo para uma série de situação que parecem extensos parênteses, se o visual nunca consegue ser surpreendente e interessante; as atuações também deixam a desejar. Sem carisma, a dupla Delavingne e DeHaan parecem apenas perdidos num vídeo game, em que ele não convence como major quase inescrupuloso encontrando o amor, e ela menos ainda como sargento subestimada que mostra sua bravura e coragem. Valerian é um filme que não consegue unificar tantos fatores para realização de um filme, como se todos os aspectos ficassem separados, sem fazer parte de um mesmo longa.

Valerian é um exemplo de que alguns rótulos não dizem nada a respeito de uma obra. Com muito dinheiro, com um bom material, cheio de efeitos, cheio de nomes conhecido, o longa é apenas mais um blockbuster que nem mesmo consegue entregar o básico desse tipo de filme, uma boa história de aventura, empolgante que revelasse um novo mundo.

Valerian e a Cidade dos Mil Planetas
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