Crítica | As Duas Irenes

As Duas Irenes

Desde o primeiro plano de As Duas Irenes, é possível observar o clima de parcimônia e tranquilidade do local onde essa história está prestes a acontecer. É nessa cidade interiorana que vive Irene, uma garota de 13 anos de uma família tradicional que mora com seu pai, sua mãe e suas duas irmãs.

Um dia, andando pela cidade, Irene descobre um obscuro segredo: Seu pai tem uma outra família e uma filha com a mesma idade dela que também se chama Irene. Desse momento em diante, a garota se aproxima da outra família de seu pai sem revelar seu segredo e acaba desenvolvendo uma bela amizade com sua meia-irmã.

Justamente nesse ambiente interiorano e sereno que mora o maior furo do roteiro de As Duas Irenes: Um homem que supostamente vive viajando a trabalho conseguiria ter duas famílias em um lugar tão pequeno sem que ninguém suspeitasse – ao que tudo indica – durante 13 anos?

Porém, mesmo com essa inconsistência em sua história, a relação que se cria entre as duas garotas a partir do momento que Irene vai atrás da outra família de seu pai é algo que sustenta esse filme que não possui grandes ápices dramáticos, mas que se apoia na tensão desse segredo prestes a ser descoberto.

O uso da câmera parada em inúmeras cenas com longos planos confere o clima simples – mas não simplista – dessa narrativa. Ao invés de se preocupar com arrojados movimentos de câmera que podem acabar distanciando o espectador da narrativa, Fabio Meira foca nas encenações nesse filme com boas interpretações das jovens atrizes Isabela Torres e Priscila Bittencourt e, por mais que isso deixe a história descompassada, confere um clima mais contemplativo para As Duas Irenes. Contudo, o descompasso não está nas escolhas de encenação, mas no encadeamento dos acontecimentos onde muitas vezes a trama ou a relação entre as personagens parece não avançar.

Mesmo que o texto ajude – e a premissa mais ainda, o clima ascético lotado de tenuidade onde nenhuma construção visual, seja das câmeras ou da direção de arte, é desmedidamente opulenta, acaba não se sustentando completamente e deixando a sensação de uma história incompleta que pareceu durante todo o filme estar prestes a acontecer.

Apesar dessa promessa, a afronta que acontece no final da história confere um bom desfecho para o arco dessas personagens que juntas acabam encontrando uma maneira de enfrentar esse cenário, porém sem deixar claro qual a resolução desse conflito.

Com boas atuações de suas protagonistas e uma boa construção de contexto, As Duas Irenes tem uma boa premissa, mas ainda deixa a sensação de algo faltando por não encadear devidamente o ritmo de seus acontecimentos.

As Duas Irenes
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