Columbus

Um elemento que algumas vezes acaba sendo menos explorado do que poderia em algumas composições cinematográficas é justamente a arquitetura, algo que deveria ser intrínseco a qualquer estruturação audiovisual, mas que pode acabar sendo posta um pouco de lado para privilegiar os diálogos ou outros elementos imagéticos em certas produções.

Em Columbus, longa de estreia do diretor Kogonada aclamado no Festival de Sundance desse ano, encontramos um filme que explora com perícia a arquitetura dessa pequena cidade homônima do estado de Indiana, nos EUA, enquanto aborda o surgimento da amizade entre um homem coreano que está preso nessa cidade onde seu pai, um consagrado arquiteto, se encontra em coma, e uma jovem que deseja continuar vivendo por lá com sua mãe, uma ex-viciada em drogas.

Logo na primeira cena, os quadros abertos e os movimentos de câmera – ou mesmo a ausência deles, aliados a uma direção de arte sem grandes excessos – todavia suntuosa em seus detalhes, se dedicam a refletir esse ambiente sereno, mas que em contraponto contém uma arquitetura bastante opulenta.


Essa, também, é a maior relação do ambiente com o arco das personagens: Jin, interpretado por John Cho (Star Trek) na melhor performance da sua carreira, parece cada vez menos inquieto com aquele ambiente e passa a aceitá-lo e interiorizá-lo, enquanto Casey, interpretada por Haley Lu Richardson (Fragmentado), parece cada vez mais angustiada enquanto reflete e debate com Jin sua decisão de continuar ali.

Existe uma espécie de regra no cinema que diz não ser uma boa decisão um diretor montar o seu próprio filme, pois certos apegos com planos e ocasionalmente até alguns lapsos de ritmo nos cortes podem passar despercebidos, podendo a visão fresca de um montador ajudar a retirar alguns de seus excessos. Sendo editado pelo próprio Kogonada, mesmo que não seja algo prejudique o resultado final do filme, é possível observar alguns planos que se alongam mais do que o necessário em Columbus.

A ausência de música durante a maior parte do filme é outro elemento que confere uma aura ainda mais contemplativa para o longa. O mais instigante é como a cada nova construção visitada por Casey e Jin, enquanto ela mostra seus lugares preferidos dessa cidade pávida com uma eterna promessa de modernismo, suas conversas em alguns momentos mansas e em outros lotadas de exasperação se aproximam e se afastam do meio que os cerca como se estivessem em um jogo dialético.

No final, é precisamente nessa associação entre a avançada arquitetura do local que acaba destoando de certas relações existentes em Columbus que mora o dilema de Casey. A personagem, pouco a pouco, acaba percebendo que seus planos não eram exatamente do jeito que imaginava à princípio e considerando seguir um caminho diferente do de sua cidade.

Com belas performances de Haley Lu Richardson e John Cho, além de um visual fascinante, Columbus é um dos principais filmes feitos por um diretor estreante a chegar nos cinemas nesse ano.

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