Deserto

Uma das facetas mais importantes da arte é conseguir transformar uma análise feita em um microcosmo em um estudo que pode se referir a algo bem maior do que o pequeno grupo que é retratado em uma obra.

Em Deserto, primeiro longa-metragem dirigido por Guilherme Weber e adaptação livre do romance Santa Maria do Circo, escrito pelo mexicano David Toscana, vemos exatamente isso: Uma trupe de artistas que, viajando pelo sertão brasileiro, encontram um lugar com casas abandonadas e uma fonte de água. Desse momento em diante o grupo resolve fundar um novo vilarejo, dividindo as funções em papéis diferentes daqueles que realizaram ao longo da vida e, com essas novas atribuições, veremos algumas tenebrosas facetas de alguns integrantes dessa recém-formada comunidade.

Enquanto o filme triunfa visualmente com a prodigiosa fotografia de Rui Poças, alguns monólogos soam muitas vezes forçados e a utilização de comédia física, por mais que extremamente condizente com personagens circenses, acaba tirando o foco narrativo dessa metáfora social que Deserto se propõe a fazer.


Com referências a icônicos cineastas como o mexicano Alejandro Jodorowsky, o soviético Andrei Tarkovski e o sueco Ingmar Bergman, que tornam seus quadros ainda mais opulentos, o longa acaba esbarrando em um crítico problema ao analisarmos sua cadência narrativa.

Apesar disso, seu clima árido e cruel serve muito bem relacionando-se ao drama vivido pelas personagens que são submetidas a novos e cruéis papéis sociais com atuações bastante expressivas de atores como Lima Duarte, Magali Biff e Everaldo Pontes que integram o elenco.

Jogando com alguns temas conhecidos do público, como a decadência artística e se aproximando de certos temas da tão comentada estética da fome, Deserto, embora consiga criar uma interessante alegoria em que de nada adianta replicar antigos modelos e sugira que apenas a juventude pode apontar novos caminhos, apresenta mais erros do que acerto em suas escolhas ao contar esta fábula.

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