Crítica | Glory

Glory

A mídia sempre foi – e ao que tudo indica sempre será – um objeto bastante prolífico para ser estudado e abordado na sétima arte em uma ou mais de suas infindas facetas. E é também da mídia que se trata Glory, novo filme dos realizadores Kristina Grozeva e Petar Valchanov, dupla de diretores da Bulgária que lançou em 2014 o ótimo A Lição e que chega em 2017 nos cinemas brasileiros com o melhor filme de sua carreira.

Nesse presente búlgaro que chega aos cinemas na próxima quinta-feira (14/09/2017), acompanhamos a história de um silencioso e recluso homem que ao encontrar uma enorme quantia de dinheiro na ferrovia onde trabalha, logo informa a polícia para devolvê-lo. Em seguida, esse homem é importunado pela mídia e pela egocêntrica chefe do departamento de relações públicas do Ministério do Transporte que, ao levá-lo para receber um prêmio do Estado por sua honestidade, perde o relógio que ele havia ganhado de seu pai. Desse momento em diante, o homem passa a lutar não só para recuperar seu mais precioso pertence, mas para reconquistar sua honra.

É realmente prodigioso quando uma história consegue focar em um protagonista que pode aos olhos de alguns parecer tão ordinário para traçar um arco sobre uma gigantesca parcela da população enquanto entrega uma sombria sátira político-social. E talvez seja esse realmente o maior mérito dessa vigorosa história escrita por Grozeva e Valchanov.

Desde a cena de abertura onde seguimos o protagonista Tzanko Petrov, interpretado magnificamente por Stefan Denolyubov, acompanhamos seus passos quase como um voyeur, completamente distantes até que seu rosto é revelado em reação a uma quantia de dinheiro que poderia resolver sua vida caso ele não fosse um homem honesto.

Nessa figura messiânica de Petrov, com seus longos cabelos e um olhar oprimido – mas quase ironicamente sereno em algumas das opressões mais absurdas – vemos pouco a pouco que essa história não se trata apenas de um indivíduo isolado, como no momento em que, durante sua premiação, ele finalmente confronta o ministro sobre os atrasados salários dos trabalhadores da ferrovia mesmo depois de o terem transformado em um fenômeno midiático e tirado seu relógio, suas calças e sua placidez.

Com essa câmera sempre viva que transforma a audiência em testemunha, exploramos a complexa relação da antagonista – a chefe de relações públicas do Ministério dos Transportes – que se mostra a cada cena mais vingativa e autocentrada em situações que tangenciam um humor na maioria das vezes lúgubre, que mais aflige a plateia do que provoca risos, mas que cumpre com eficácia seu papel crítico.

Em alguns pontos é realmente impossível não comparar o filme com Eu, Daniel Blake, vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes de 2016 onde um oprimido protagonista parece lutar sozinho contra a burocracia e as injustiças do establishment. Porém, Glory em nenhum momento romantiza sua história e se esconde de seus temas em saídas cômicas como o filme de Ken Loach, encarando tudo de uma maneira visceral e nos levando com crueza a um final bastante violento. O único – e breve – excesso do filme é não ter terminado alguns poucos segundos antes, onde esse relógio que serve como fio condutor da narrativa é finalmente descoberto, algo que mesmo assim acaba não prejudicando em demasia o resultado final.

No final da sessão, Glory é um belo olhar sobre a mídia, a ambição, a corrupção e sobre as precárias condições de trabalhadores estatais que encontramos em vários países ao redor do mundo com um bom roteiro de Kristina Grozeva e Petar Valchanova e um ótimo desenvolvimento da relação entre protagonista e antagonista nesse que é um dos mais intrigantes filmes a entrar em cartaz no Brasil em 2017.

Glory
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