Crítica | A Morte Te Dá Parabéns!

A Morte te dá parabéns!

O terror tem passado por um momento bastante prolífico, impulsionado por inventivos e autorais longas independentes, algo que acarretou numa mudança também em produções que visam o amplo público. Esse estilo, que nunca sai da moda, certas vezes passa por momentos de incrível fertilidade, e parece que o gênero está num desses períodos, chegando a um limite em que todo filme parece almejar quebrar algum paradigma, ou ao menos reciclá-lo.

No centro dessa quase renovação do gênero está uma produtora, a Blumhouse, que há algum tempo entende perfeitamente os caminhos do gênero, fazendo interessantes pontes entre obras e públicos, apostando em filmes mais ousado e outros que atendem perfeitamente aquilo que os espectadores desejam. A produtora utiliza um antigo e recorrente método do cinema de horror, algo que provém da herança do grande mestre do filme B, Roger Corman. O metódo baseia-se na realização de filmes rápidos, baratos e que podem gerar lucro, mesclando aquilo que é consumido, com aquilo que cineastas querem falar. Nessa lógica, a produtora entendeu perfeitamente o fenômeno do found footage com Atividade Paranormal (franquia que mantém até hoje), e abriu portas para nomes como Mike Flanagan (O Espelho), Jordan Peele (Corra!) e do já consagrado, mas malfado pelos estúdios M. Night Shyamalan (A Visita e Fragmentado).

A Blumhouse então passa a lidar muito bem com seu esquema de produção entre o baixo investimento, o risco programado e até o lucro certo, como em suas franquias já mais estabelecidas. Todavia, num momento em que o gênero ganha um corpo muito interessante, revivendo as grandes fases do terror, cada lançamento parece necessitar ter um peso e uma necessidade de escrever mais um capítulo instigante nesse terreno fértil. O próprio It: A Coisa (2017), uma das maiores bilheterias do gênero, possui um pensamento claro entre subverter expectativas do grande público. É nesse sentimento que a estreia de A Morte Te Dá Parabéns! é extremamente significativa, encontrando-se num estado de grande exigência do terror.

O longa dirigido por Christopher Landon (Atividade Paranormal: Marcados Pelo Mal) claramente possui esse lado que visa buscar uma alternativa para o público, em detrimento do uso de sustos apenas para consumo imediato; ou talvez o filme só esteja tateando um novo lugar comum para o gênero, buscando encontrar aquilo que agrada um público já cansado de uma fórmula mais antiga, agora já antiquada.

A Morte Te Dá Parabéns! parece estar extremamente desconfortável com esse lugar de exigência, parecendo, ainda que o filme seja leve, possuir um anseio em soar incomum, em não ser taxado, ou enquadrado dentro de uma série outros longas, sejam eles blockbusters ou não. A projeção é quase uma constatação que não se pode mais fazer terror desprovido de responsabilidade, não havendo mais a possibilidade de ser um vendedor de sustos. Se hoje, taxam alguns filmes com o nome de pós-terror, deve-se alegar que o gênero em algum momento morreu, ou está no limiar entre a vida e a morte, e A Morte Te Dá Parabéns! acredita que o gênero pelo gênero já não se sustenta mais.

O filme conta a história de uma garota que no dia de seu aniversário é morta, mas depois de seu próprio assassinato ela volta para o mesmo dia, revivendo sua morte de aniversário infinitamente. Dia após dia, ou dia após o mesmo dia, a protagonista Tree Gelbman é perseguida e morta por um mesmo serial killer, que veste uma enorme cabeça de bebê, faceta do mascote de sua universidade. A garota vai ser obrigada a desvendar e antecipar sua morte para assim ser possível viver um dia diferente.

Nessa situação problema, nasce um filme que parece ser um auto comentário constante de uma obra que não sabe ao certo seu propósito. Claramente, A Morte Te Dá Parabéns! tem características de uma sátira de todo um gênero, de todo um modo de se fazer terror. Por outro lado, o longa parece acreditar que seu material de fato é peça para uma importância maior, algo como um filme que em momento nenhum define o que deseja ser.

Em seu primeiro ponto, A Morte Te Dá Parabéns! é uma perfeita conclusão desse momento em que o terror não pode ser apenas mais um filme de gênero, a conclusão existente no longa é que o mundo criado por um pensamento cinéfilo desde o final da década de 1970 não pode mais funcionar em tela sem que haja uma consciência desse repertório. Assim, o filme é propositalmente recheado de clichês, de falsos jumpscares, com uma fotografia extremamente saturada, ressaltando esse ambiente falso em que se passa o filme. As garotas da república onde Tree vive são estereotipadas, falam como o pior seriado adolescentes, e algumas cenas são realizadas como se fossem verdadeiramente uma novela. O que realmente gera a graça do filme, talvez o pós-terror seja isso, um filme que não acredite mais nas raízes desse gênero, e mesmo assim pode funcionar em intenções totalmente opostas.

Fato é, que se isso soa divertido e consciente de um passado muito rico dos slashers e filmes envolvendo garotas universitárias fugindo de sanguinolentos assassinos, o longa realizado por A Morte Te Dá Parabéns! já foi realizado há exatos 20 anos, e ele se chama Pânico, de Wes Craven. Ali já está colocada toda uma cartografia do gênero e todas suas consequências, um longa que sabe manipular os clichês, fazendo uma autoanálise dos códigos do horror e de sua finitude, enquanto envolve o espectador com sua trama. Um longa que investiga as imagens fundamentais de um gênero. E isso ocorre, pois aquela obra está sob a direção de um dos fundadores do horror moderno, que assume por completo, mas com habilidade o tom satírico em relação a algo que ele mesmo ajudou a construir.

A Morte Te Dá Parabéns! não consegue fazer essa autoanálise, ou simplesmente se assumir como uma sátira por completo, e aqui evidentemente não pedindo que o longa se torne um Todo Mundo em Pânico, ou algo do gênero, mas que continuasse no pensamento que parece ser o propulsor do filme. Há no longa um ponto que o faz acreditar na sua importância, e ele é justamente esse lopping temporal que a garota está envolvida. Se essa premissa vez ou outra surge em forma de piada, isso pode funcionar apenas em alguns minutos de trama, do restante, esse eterno retorno se torna um verdadeiro drama. Fato é que um ponto de real importância dentro de um filme extremamente satírico parece apenas uma curva mal planejada, algo que não dialoga com tudo aquilo que fora construído.

Sendo assim, não é difícil que o filme tente colocar uma curva dramática no íntimo da personagem, tentando acertar sua vida pessoal para poder seguir em frente. Uma lição moral extremamente senso comum quando se trata dessa premissa. O problema é que nem essa virada pode funcionar, uma vez que o longa se esforçou para construir um cenários baseado em figuras pré-estabelecidas e uma sensação constante de não realidade daquela história. Logo, quando A Morte Te Dá Parabéns! deseja um contato mais profundo entre suas figuras e o público essa ponte só não existe, porque até então o longa focava numa relação superficial de emoções, focando na exaltação do artifício e dos códigos do filme de gênero.

A Morte Te Dá Parabéns! parece não ter tido coragem suficiente para abraçar o não convencional, o que faz pensar realmente que preocupava-se mais em arranjar um público determinado para essa obra. Nessa intersecção entre um filme que se leva a sério, e uma autoanálise do filme de terror e seus clichês, o que sobre é uma obra que parece não entender os caminhos do gênero atualmente, um ponto fora da curva dentro das produções da Blumhouse.

A Morte Te Dá Parabéns!
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