Semana passada havia escrito, na crítica de Churchill (de Jonathan Teblitzky), que não são raros filmes biográficos que acabam por se tornar uma ingênua e desmedida idealização do seu homenageado. Na indústria da ilusão enlatada que é Hollywood os exemplos não faltam: o sentimentalismo idealista está em Até o Último Homem, Lincoln, Um Sonho Possível… e isso só para se limitar aos últimos 10 anos. Por vezes tais filmes vendem figuras idolatráveis, por outras vendem auto-ajuda genéricas de valores burgueses… Mas o ponto que queria chegar era apenas sobre o fato de que, nesses mal-sucedidos filmes biográficos de desmedida idealização, caso se tentava ter um estilo realista, o idealismo quebra com toda essa pretensão; se queria-se ter um estilo romântico mesmo, o idealismo é tão sensacionalista e piegas que acaba por ser jocoso e grotesco (como afirmei no texto sobre o filme de Churchill). Custos do ultra-sentimentalismo barato.

Veja que Borg vs McEnroe não é necessariamente um filme hollywoodiano, mas já que estamos sujeitos ao domínio dela é natural que se copie seu estilo cinematográfico, até mesmo pelo viés comercial que esse abre as portas. Faz-se isso no Brasil, e se faz isso em todo o mundo. O diretor Janus Metz, dinamarquês, é ainda novo (43 anos e 3 longa metragens). Fez muito sucesso com seu primeiro longa, o documentário Armadillo (2010), que acompanhou um grupo de soldados dinamarqueses na guerra do Afeganistão. Armadillo recebeu prêmios na Semana da Crítica do Festival de Cannes, levou o prêmio de melhor documentário nos Prêmios Bodil (o prêmio do cinema dinamarquês) e foi indicado na mesma categoria no Prêmio do Cinema Europeu. Metz, contudo, havia dirigido um episódio da série “Clash of the Titans” (em tradução literal, Duelo de Titãs), para a TV inglesa. Esta série documentário remonta históricas rivalidades do esporte e, no caso do episódio dirigido por Metz, se remontou justamente a rivalidade entre os tenistas Björn Borg e John McEnroe. Isso foi no final dos anos 90, e agora, 20 anos depois, ele decide fazer um longa inspirado na rivalidade entre McEnroe e Borg: para tanto, parece ter consultado as fontes de biografias sentimentalistas, sensacionalistas e idealizadas…

O sueco Björn Borg (Sverrir Gudnason) vai ao torneio de Wimbledon em busca do 5° título consecutivo. Seria uma marca pessoal histórica naquele Grand Slam. Borg reinava absoluto desde 1976, mas naquele Wimbledon de ’80 um jovem estadunidense promissor chegava para disputar o troféu e interromper o penta sueco: era John McEnroe (Shia LeBeouf), futuro vencedor de 7 Grand Slams mas que à época tinha somente 21 e buscava ainda se consolidar como grande tenista em sua geração. A imprensa cava os dois como os grandes favoritos, e logo surge o duelo entre o “bom moço” (Borg) e o “vilão” (McEnroe). O primeiro era polido, elegante, frio e calculista em suas raquetadas. O segundo era desenfreado, sem modos, reclamava à torto e à direita com o juiz, esbravejado. Em meio à trajetória dos dois em Wimbledon, Metz vai nos mostrar os bastidores da disputa e ainda o passado de ambos – ou seja, irá decupar não só a lenda da rivalidade entre Borg e McEnroe, mas os próprios Borg e McEnroe.


Como já adiantado, aquilo que o filme peca é justamente em seu sentimentalismo desmedido, no uso descabido de romantizações. O filme tem bons momentos, a plasticidade das cenas é bem realizada. A fotografia é responsável, e consegue idealizar sem cair no grotesco e no sensacionalista. Contudo, o roteiro não.

Usa-se de situações cujo endeusamento, ou enaltecimento romântico de determinada cena da vida dos dois tenistas, soa demasiado exagerado. De tão artificial soa inverossível, e, por assim ser, jocoso e grotesco. Ele força a barra para criar situações de grandiosidade a partir de cenas cotidianas – e o resultado é que estas ficam exageradas, desproporcionais. Perde-se, com isso, toda a sensibilidade de empatia para a jocosidade e a canastrice das idealizações forçadas. Os diálogos são baseados em clichês baratos, que perdem completamente qualquer significado ou sensibilidade quando usam do mais grotesco lugar-comum.

Tirando esses deslizes do roteiro, com a ressalva da boa comunicabilidade visual do longa, há certo acerto por trás do enredo, já que a história, de uma forma geral, consegue ser envolvente. O suspense em torno da decisão do título de Wimbledon, e das decisões que cada um dos tenistas se vê tendo de tomar, é interessante. Contudo, os lugares-comuns de textos idealizados – a mensagem de auto-superação, as frases motivacionais gratuitas -, sobretudo nos bizarros diálogos, levam Borg vs McEnroe a um roteiro precário. A consequência disso é que aquele bom enrendo de outrora é reduzido a nada além do destacável, que não supera a camada do “satisfatório”.

Os dois atores protagonistas até que vão bem, embora quase se caia na caricatura com aquelas caracterizações cheias de estereótipos e perucas pitorescas. Eles são o lado bom da dramatização da história dos dois tenistas: se as atuações de Sverrir Gudnason e Shia LeBeouf ainda não são algo da dimensão do sublime, ao menos elas evitam com que os diálogos sensacionalistas e grotescos caiam mais ainda no idealismo canastrão. Se há um resto de empatia na trajetória de conflitos pessoais e disputas emocionais tanto na história do sueco como na do estadunidense elas se devem mais às satisfatórias performances da dupla principal – e também a aprovável mise-en-scene de Metz – do que ao escorregadio roteiro.

Mas ressaltemos, ainda, para elogias a mise-en-scene de Metz, as ótimas montagens das cenas dos confrontos de tênis. Elas são épicas e envolventes – e não forçosamente grandes. A montagem do filme é útil para embalar o suspense, e assim o faz. Esse ressalto é parte das ressalvas de um longa que já parte de um texto precário.




Borg vs McEnroe
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