Pelé: O Nascimento de uma Lenda tem elementos que o tornam um filme que beira o desastroso. Talvez a única boa sacada tenha sido o escopo da vida de Pelé recortado para o filme, o qual faz com que ela se encaixe com a jornada do herói: o filme narra desde a infância de Pelé em Bauru, na qual o jovem Pelé é modalizado a perseguir seu objeto de valor – que é ser um grande jogador de futebol e vencer uma Copa do Mundo para o Brasil após vê-lo perder a de 1950 -, e se estende até a 1958, o clímax da narrativa e, enfim, quando esse objeto de desejo será alcançado. De lá para cá, é interessante notar que os diretores e roteiristas Jeff Zimbalist e Michael Zimbalist se inspiraram muito em arquétipos da narratologia, sobretudo no mitólogo Joseph Campbell, para fazer com que Pelé seja aqui um herói mítico, romântico, idealizado. Pelé: O Nascimento de uma Lenda transforma a história do primeiro título mundial do santista em uma estrutura de Odisseia, ou os Três Mosqueteiros ou Rei Arthur, na qual a conquista da Copa de 1958 simboliza o retorno à Ítaca ou a retirada da espada da pedra. Há até mesmo a figura do mentor que o treina, que no caso pode ser vista em três pessoas distintas: seu pai, o ex-jogador do Atlético Mineiro Dondinho, depois o ex-são paulino Waldemar de Britto, que fora o olheiro responsável pela descoberta do rei do futebol, e por fim Vicente Feola, o técnico da seleção em 1958.

Muito que bem, que ideia (nem tão original assim mas) interessante de transformar a vida de um jogador de futebol – no caso o maior de todos eles – em um épico. Porém, o que há de bom se finda aí. De resto, Pelé: O Nascimento de uma Lenda é bem decepcionante. Os erros são inúmeros. Vamos começar pelo visual, que já incomoda pelos cenários toscos que mais parecem um bairro cenográfico mal disfarçado. A fotografia contribui para isso, uma vez que é chapada e artificial a ponto de parecer teatral, pouco verossímel. Além disso, é bem pouco expressiva, e é cansativo a forma como os enquadramentos pouco se reiventam e sempre fazem o mais óbvio. Além dos super melodramáticos enquadramentos no contraluz do sol, para dar o toque idealizado no filme. Chega a ser caricato.

Além do mais, tudo é bem estereotipado. Tudo! A representação da Baurú de Pelé, nos anos 50, reproduz um estereótipo do Brasil daqueles em que as cidades brasileiras são como o cenário de Blanka no Street Fighter: pessoas vivendo em casas de pequenas em meio à vegetação da florestas tropicais, com palmeiras e cipós por de volta dos telhados e bichinhos a toda parte. Os meninos, para se mostrar que são pobres, são sujos até o rosto e descalços. O narrador, em meio a um jogo, após vibrar com um gol do garoto Pelé diz “Agora teremos um grande jogo. Vamos Sambar!”. E, se não bastasse o “vamos sambar” aleatório – posto só para fortalecer os estereótipos humilhantes que o filme coloca – ainda botam uma batida que está bem mais para a salsa, mambo ou chá-chá-chá – que são ritmos típicos da América Hispânica – do que para o samba (ou chorinho, ou pagode, ou chachado…).

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O ponto alto da estereotipação, contudo, não se dá nem aí. O filme inventa ainda o “ginga style”, o estilo ginga, que seria algo como um kamehameha do futebol brasileiro. Ele cria a ideia de que a ginga veio com os guerreiros africanos, e usada na capoeira para se proteger do Estado brasileiro e dos senhores de engenho durante a escravidão. Após a proibição da capoeira, segundo o filme, os afro-descendentes precisavam praticar o estilo da ginga em algum outro lugar – e escolheram o futebol. Se no começo os brancos refutavam o estilo da ginga por causa da sua origem africana, em pouco tempo o abraçaram como parte da cultura desse povo mestiço que é o brasileiro. Sim, a famosa falácia da democracia racial é um pouco presente no filme, e é vexatório. Não só a falácia da democracia racial, mas também a representação ultra estereotipada da negritude. O filme talvez ainda tente um paralelo à visão na qual após a derrota de 50 tenha-se culpado a “ginga”, por causa de sua “origem africana”, como a responsável pela derrota. “Não podemos perder tempo com esse estilo primitivo e selvagem de jogo, é preciso imitar o racionalismo europeu”, diz o filme meio que se referindo a uma visão determinista de mundo. Contudo, para contrapor essa visão determinista ele opta mesmo pela visão da coexistência pacífica e democrática entre “as raças” no Brasil – na qual somos um povo mestiço que não descrimina a negritude ou as origens indígenas ou o não-europeu – aparentemente unido pela nosso “estulo de ginga”. Uma sentença problemática e falha, e não se precisa ir muito longe para ver isso.

Os problemas acabam aqui? Não, na verdade. O pior, tendo como ponto de vista o resultado final não-satisfatório do filme, está mesmo em um roteiro bem, mas bem problemático. Não é que as falas são clichês. Elas são clichês, super didáticas e parecem mais como se os personagens estivessem lendo um livro de história sobre futebol do que proferindo diálogos. Elas são superficiais e artificiais, não tem a menor veridicidade. Um exemplo é quando Garrincha vai apresentar a Pelé aquele com quem o santista disputava a posição titular: o palmeirense Mazzola. Garrincha diz algo como “aquela é sua concorrência, Mazzola. Seu nome é José Altafini, mas o chamam assim porque dizem que joga tão bem como o lendário atacante italiano”. Uma fala que não só é muito artificial e inverossímel dado o didatismo desnecessário e aleatório de explicar aquilo que já está subentendido pela própria narrativa como também é artificial pela carga de sentimentalismo que carrega.

O sentimentalismo de Pelé: O Nascimento de uma Lenda é um grande ponto fraco: ele faz de tudo o mais forçoso para colocar falas de efeitos aleatórias, e transforma tudo em contemplativo quando não há nada de especial naquilo. São apelos sensacionalistas o sentimentalismo e o romantismo desse filme.

E, por fim, acaba que temos atuações que já fraquejam por si só, mas pelas falas jocosas, brutas, cômicas e bizarras as quais o filme apresenta são desgastadas ainda mais. É verdadeiramente desapontante. E com diálogos tão artificiais e superficiais, Pelé: O Nascimento de uma Lenda perde força empática. Não há como se convalescer para figuras sem o menor carisma e apáticas… Os sentimentos em tela tentam ser idealizados, mas são dramatizados de forma tão estapafúrdia que o filme parece uma auto-paródia a textos românticos idealizados – uma caricatura. Assim, os Zimbalists não fazem o seu Quem Quer Ser um Milionário brasileiro. É verdade que muitas pessoas também acham o filme dirigido por Danny Boyle de um sentimentalismo apelativo e sensacionalista, cheio dos estereótipos. Mas de longe não ganha deste daqui.

Todavia, ainda é divertido ver jogadores – para quem gosta de futebol, é claro – sendo dramatizados: Zito, Mazzola e Garrincha são os que mais aparecem depois dos já citados Pelé, Dondinho, Waldemar de Britto e Feola. Ah! Inclusive isso me faz lembrar de duas decisões do filme que devem ser ditas. Mazzola, já que era o titular original da seleção em’58 na posição a qual disputou com Pelé (e que depois o rei, apenas com 17 anos, tomou para si a titularidade), ganha status de vilão no longa. Isso até soa interessante, né? Okay, mas vejam só: eis que escalam um ator branco (no caso Felipe Simas) para viver Garrincha, um jogador negro. Já é bem sabida a polêmica em torno de casos de personagens que se “embraquecem” e também é bem sabido sobre a minoria de papéis vividos por atores negros em relação aos vividos por brancos Este é um caso para se levar em consideração…

Pelé: O Nascimento de uma Lenda
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