Alguns personagens são tão presentes no imaginário popular que nem é possível associá-los a uma geração específica. Reprisados ao infinito essas figuras seguem conquistando crianças e mais crianças, gerando uma espécie de afinidade afetiva com eles. Assim, qualquer tipo de renovação ou invenção em torno desse ícone já é visto com olhos de reprovação, Pica-Pau não é diferente, e sua presença na televisão brasileira é tão grande que quase não se imagina fora dali. Mas em todo lugar que existe desconfiança também existe curiosidade, principalmente pelos que se encantam agora por esse personagem.

Pica-Pau: O Filme tenta justamente conquistar esse novo público, mirando numa audiência bem mais infantil. Talvez encontrando uma forma de se esquivar de algumas obrigações qualitativas, assumindo equivocadamente que o cinema infanto-juvenil pode ser muito mais fácil de ser realizado. E a questão é que a desconfiança junto a uma adaptação com um personagem como Pica-Pau é totalmente normal, cabe ao filme mostrar um bom trabalho, que faça jus ao seu nome. Fato é que o longa parece aquela velha decepção de assistir Pica-Pau na televisão e se deparar com aquela versão biruta, com braços alongados que ninguém gostava muito.

Tal decepção só era aliviada, porque poucos minutos depois começava outro episódio com a versão desse personagem do jeito que todos gostavam. Aqui, pelo contrário, é obrigatório ficar com esse Pica-Pau por mais de 90 minutos. O longa começa com duas figuras bastante caricatas, são dois caçadores, que acabam sendo massacrados pelas artimanhas do Pica-Pau, mostrando qual será o tom do longa, um humor pautado no pastelão, ingênuo, que pode utilizar de qualquer meio para fazer rir.


A narrativa de Pica-Pau: O Filme parte da história de Lance Walters (Timothy Omundson), um advogado de uma grande empresa que acaba dando uma declaração contra qualquer defesa do meio ambiente, com isso ele acaba sendo demitido, e tem como ideia construir uma casa num ambiente natural próximo a fronteira com o Canadá. Assim, o homem parte com sua nova esposa, uma patricinha interpretada por Thaila Ayala, para o terreno paradisíaco. O que ele não esperava é que seu filho adolescente de outro casamento também estará presente nessa viagem, assim como a pior surpresa, a presença de Pica-Pau justamente na área em que aquele novo empreendimento seria construído.

A dinâmica do longa é simples e realmente remete ao desenho animado. Enquanto aquele homem tenta, de todas as maneiras, construir sua casa à beira do rio, Pica-Pau, por sua vez, demonstra todo seu arsenal para infernizar a vida daquela família. Essa dinâmica talvez seja o que mais agrade no filme como um todo, justamente por remeter a formula dos roteiros dos cartoons clássicos. Pica-Pau provoca um banho de cimento, derruba as tapadeiras de sustentação da casa, desencapa a fiação e assim por diante. Utilizando respostas simples, repletas de gags, para as ações daquele homem.

Fato é que nenhum longa-metragem é capaz de se sustentar através dessa simples dinâmica, com isso é necessário que haja um mínimo desenvolvimento das personagens, um desenho narrativo mais interessante e arcos que façam a história seguir adiante. Todavia, os rumos encontrados por Pica-Pau: O Filme parecem sempre os piores possíveis. Como os péssimos personagens do filme, todos caricatos, sem nenhuma profundidade. Se o filme desejava criar figuras de fácil assimilação (o homem ambicioso contra a natureza, a mulher fútil em busca apenas de riqueza material) acaba fazendo apenas um apanhado de estereótipos. Seres que nem no mais inocente dos filmes trariam algum interesse para o público.

Nesse amontoado de clichês, até mesmo a locação torna-se um estereótipo, aquele ambiente natural é o fator de mudança de um homem que vive na cidade e só pensa em dinheiro, para transformar-se com aquele ambiente. O longa vai sendo enxertado por essas mudanças forçadas, por exemplo, a relação de amizade entre Pica-Pau e o filho do protagonista. Algo que precisa ser escancarado a todo o momento, em todas as falas de Pica-Pau. Com isso o que o filme tenta jogar é mais uma mudança em relação aos personagens, fazer o Pica-Pau saber o que é ter um amigo, e o garoto finalmente sentir fazer parte de uma família.

O longa parece assim cumprir com o papel de ter alguma mensagem para o público infantil, mas o resultado passa a ser apenas algo forçado, jogado para criar algum envolvimento emocional, sem parecer coeso ou natural. Aliás, após aquele momento de piadas físicas e divertidas, Pica-Pau: O Filme parece um amontoado de momentos mal interligados, que parecem apenas jogados, nunca definidos por uma firme linha narrativa.

Assim, o garoto vai para cidade, briga com alguns meninos do nada – numa cena que parece jogada – só para ser salvo pelo Pica-Pau, depois entra numa banda, toca num festival, nada muito bem construído ou desenvolvido, apenas situações que estão lá naquele filme e de algum modo se ligam com o personagem título. O mesmo ocorre com os personagens secundários que somem e reaparecem em momentos de difícil crença, mostrando com são insignificantes para o roteiro, como a própria Thaila Ayala e a dupla de caçadores. A impressão que fica é que os realizadores de Pica-Pau: O Filme parecem não saber onde gostariam de chegar.

Aliás essa é impressão de fato, Pica-Pau: O Filme não sabe nem por ele mesmo porque foi realizado. Começando pelo seu formato, o aspecto de tela que parece mais televisivo do que cinematográfico, as cores sempre muito lavada, e os atores, que não chamam atenção pela sua falta de prestígio, mas principalmente por suas atuações caricatas e exageradas, onde até mesmo o desenho animado consegue ser mais crível. Pica-Pau: O Filme lembra e muito aqueles longas feitos diretamente para televisão nos anos 1990 e 2000, sem rebuscamento e principalmente sem nenhuma qualidade, mirando a total ingenuidade do público jovem.

Se Pica-Pau: O Filme acredita que focar na audiência mais nova é ausentar-se de qualquer responsabilidade, então realiza um filme digno de seu pensamento, um longa que realmente marca por sua falta de qualidades. Nesse caso a certeza é que Pica-Pau deveria continuar nos seus reprises automáticos em algum canal da TV aberta, é melhor para o próprio personagem.