Um Perfil para dois conta a história de Pierre, um senhor de 75 anos que, após algumas aulas de informática, cria um perfil num site de relacionamento, mas utiliza a foto de seu professor, Alex, para a sua conta. Após um longo período conversando com uma garota belga, Pierre marca um encontro, e Alex deve se passar pelo seu septuagenário aluno. O que ele não sabe é que Alex é também namorado de sua neta e os dois homens estarão cercados de problemas.

Essa sinopse faz com que Um Perfil para Dois pareça uma comédia que foque justamente nessas possíveis confusões e trapalhadas, uma comédia do exagero que crie situações só para seus atores entrarem nessas enrascadas, numa espécie de pastelão um pouquinho mais refinado, que parece ser a marca do cinema francês comercial que invade as salas de cinema no Brasil. Aqui, pelo contrário, o longa parte dessa premissa cômica para tentar investigar os sentimentos daqueles homens perdidos numa espécie de solidão incontornável, independente se um está viúvo e outro no início de um relacionamento.

Fato é que Um Perfil para Dois acerta em seu tom, um humor que parte de uma melancolia contemporânea, transformada aqui em comédia dramática, um peso das coisas que surge de forma um tanto quanto cômica, sem ser um filme de gargalhadas, mas de um riso um tanto quanto desconfortável por ser tão próximo da realidade cotidiana. Dessa forma, o longa consegue sair do óbvio e do clichê sem tentar alguma presunção em seu discurso, assumindo que realmente aquela história poderia ocorrer em qualquer apartamento de Paris, ou até mesmo em São Paulo.


Escrito e dirigido por Stéphane Robelin, o longa constrói suas figuras exatamente nesse mundo invisivelmente solitários. É interessante como Alex (Yaniss Lespert) é apresentado numa primeira cena em que evita Julieta, neta de Pierre, de dirigir bêbada até seu apartamento. Ali ela desabafa sobre seu relacionamento recém-terminado, roubando o beijo de Alex no final da carona, a sequência é cortada e tempo depois os dois jovens já estão dormindo juntos, mostrando a aceitação daquele homem por uma situação completamente adversa, que desde o primeiro momento aceita circunstâncias apenas por um sentimento melancólico de não reação.

Yaniss Lespert evoca essa apatia em sua figura, essa imobilidade em relação a todas as suas ações. O ator exprime esse tédio, essa dramaticidade dentro dessas situações cômicas. Realmente o mais interessante do longa é essa relação entre o jovem Alex e o velho Pierre, que compartilham o mesmo sentimento, como se isso não fosse algo associado à velhice ou a um tédio relacionado a uma juventude sem vontade. Um Perfil para Dois descaracteriza essa condição, colocando essas figuras tão distantes dentro de um espectro geracional para dividirem o mesmo sentimento.

Assim, é interessante como esse romance em que os dois se envolvem faz com que a vida de ambos ganhe sentido. Seja assumindo a culpa de uma mentira por parte de Alex, sendo pela excitação de Pierre ao reviver sentimentos que há muito não sentia. O filme coloca aí questões interessantes como o preconceito em relação aos relacionamentos na internet, a relação entre um amor virtual e um amor físico (o primeiro representado por Pierre, o segundo por Alex). Nesses momentos, o longa ganha corpo e não faz com que esse encontro com a affair virtual seja apenas uma desculpa para criar situações engraçadas, uma série de encontros e desencontros que fariam o apenas apenas rir num consumo rápido e passageiro.

Um Perfil para Dois faz com que as situações realmente passem a provocar uma mudança em seus personagens e o modo como eles encaram a vida, o filme demonstra ser muito mais interessante do que sua sinopse pode prometer. A obra ainda possui seus equívocos que fazem essa sua força se perder, algo extremamente ligado a essa característica de inserção dentro de um cinema comercial ligado a agradabilidade popular. Um Perfil para Dois muitas vezes monta um roteiro extremamente esquemático em que as peças sempre devem se juntar, algo que se materializa no fato de nenhum personagem poder terminar o longa sozinho. Como numa novela, vão surgindo figuras que estão ali só para acompanhar um personagem que ficaria sozinho ao longo da narrativa, como se todo mundo merecesse um final feliz.

O longa então fica nesse meio termo entre levar seu ponto ao extremo e entregar um filme sério e sóbrio sobre os relacionamentos contemporâneos, mas tendo sempre que dosar essa sua relação com o público, o que faz o filme possuir uma experiência um tanto quanto truncada. Um Perfil para Dois mais de uma vez se rende a alguns clichês, como as forçadas imagens de Pierre em 16 milímetros, ou convenções de roteiros muito óbvias, como a utilização da foto de uma modelo para parecer a ex-esposa fictícia de Alex, algo que obviamente seria descoberto. Todavia, Um Perfil para Dois pode surpreender numa das coisa mais simples, tratar seu tema com seriedade e transmitir esse peso do mundo atual em seus personagens, fugindo de ser apenas um novo pastelão.

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Um Perfil para Dois
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