Altas Expectativas tem cara de um gênero cinematográfico extremamente ambicioso, ainda que não possa parecer. Talvez a comédia dramática seja um dos estilos que mais necessite de um esmero narrativo e de uma complexa precisão de tom, algo que assuma a relevância psicológica do drama e a leveza da comédia. Às vezes esse gênero é tratado apenas como uma sofisticação da comédia, algo que deprecia essas duas vertentes cinematográficas, resultando em filmes que não compreendem nem uma, nem outra.

Pode-se dizer que Altas Expectativas caminha pelos mesmos caminhos e a impressão resultante é que os envolvidos no projeto pareciam subestimar o próprio gênero, como se fosse fácil dosar esse elemento trágico, que envolva seu público de forma sensível, com momentos engraçados. Muito disso tem a ver com uma tentativa de reconquistar o público que se esvai das comédias escrachadas, que até outro dia enchiam as salas de cinema, e a alternativa foi tentar sofisticar um pouquinho mais essa fórmula, como se o caminho fosse apenas jogar um drama em algo que poderia ser engraçado.

Não é por acaso que um dos diretores do longa, Pedro Antonio, já foi responsável por títulos que se encaixam com aquele antigo modelo, como Tô Ryca e o divertido Um Tio Quase Perfeito. Aqui demonstra que essa passagem para uma narrativa mais séria, baseado nos sentimentos de seus personagens, não parece algo tão natural, mas baseado em alguma busca por um padrão que ainda não existe. Aqui uma história que parece interessante se enfraquece por esse comodismo em busca de uma padronização.


O longa narra a história de Décio (Gigante Léo), um anão treinador de cavalos no Jockey Club brasileiro, que se apaixona pela nova dona do café Felicidade, uma mulher com uma série de traumas, sem tato para os novos negócios, que vive para conseguir pagar o tratamento de seu irmão mais novo com problemas de locomoção. Logo a moça se vê galanteada por um figurão do Jockey, enquanto Décio se afunda em depressão por acreditar que sua condição física impede a aproximação com sua paixão.

Pode ser notado em Altas Expectativas uma série de figuras que representariam interessantes pontos no longa, algo extremamente presente nesse tipo de gênero. Seja amiga de Léo que faz com que ele acredite no seu potencial conquistador; o amigo comediante que encaixa o lado cômico da situação e faz com que Léo aceite seu senso de humor; a aproximação de Léo com o irmão de seu affair unindo-se em suas próprias adversidades; ou a garota que comanda o café Felicidade sem ao menos conseguir rir. Figuras fáceis, mas que ajudam o público a seguir o percurso narrativo, todavia o que parece no longa é que nem mesmo esse facilitador consegue ser bem construído, sem fazer essa mínima ponte com seu espectador.

Esses fatores são sempre sublinhados excessivamente pelo texto do filme, deixando tudo da forma mais palatável possível. Por exemplo essa questão entre a infelicidade da garota e o nome de seu café, algo que a todo momento precisa ser dito por algum personagem, como se o espectador não fosse capaz entender essa sacada dentro do roteiro fílmico. É como se o filme pensasse que é necessário mastigar aquilo que ele acredita ser o refinado dentro da comédia.

Algo que também existe nas tentativas do filme em fazer com que seu público dê risada nas salas de cinema, sendo capaz até mesmo de colocar trechos do stand up do ator principal dentro da narrativa, algo que parece não fazer o menor sentido dentro das pretensões daquela obra. Ainda que as palavras ditas por Gigante Léo se relacionem com o personagem – muito pela ficção tratar dele mesmo – não há uma conexão natural entre a realidade e a ficção, mas apenas momentos forçados por algum gancho que se encontra na fala de algum personagem. Assim, há de verdade uma apelação para que o público ria do show que o protagonista faz costumeiramente na vida real, enquanto em termos fílmicos isso nunca causa comicidade a seu público. Felipe Abib, por exemplo, não consegue criar um personagem que realmente seja o contraponto leve, parecendo mais uma voz da consciência daquele protagonista do que qualquer outra coisa, um problema na construção de seu personagem com o baixo timing cômico apresentado pelo ator no longa.

No aspecto dramático os diretores Pedro Antonio e Álvaro Campos não conseguem se sair muito bem também, e muito disso passa por um mal trabalho de elenco, onde todos parecem forçados, sem expressar verdadeiras emoções, mas que tentam transparecer essa relação entre drama e comédia. Algo marcado pelo papel de Camila Márdila, a dona do café felicidade, que parece apenas uma caricatura da melancolia, contrariando tudo o que se viu em seu trabalho em Que Horas Ela Volta?; ou Milhem Cortaz que é apenas um estereótipo do rico que pode comprar até seu relacionamento, extremamente frio.

Outro fato é o roteiro que sempre parece ter as resposta para tudo, deixando muito óbvio como as situações se amarrariam, como em uma cena extremamente mal desenhada em que a personagem defende o protagonista dos olhares preconceituosos de uma mesa vizinha durante um jantar, algo que acaba não sendo nada surpreendente para o espectador, porque desde o início esse fato era óbvio. O longa inteiro é formado desse jeito e quando nada disso funciona os diretores apoiam-se na trilha sonora um pouco melancólica, que entra em cena a todo momento como se desejasse guiar o espectador incapaz de entrar na trama.

Altas Expectativas até pode ser cheio das boas intenções ao fazer uma obra séria sobre as condições sentimentais de seu personagem com nanismo e até mesmo na tentativa de compor uma comédia dramática, mas o que se vê é um filme que não funciona em nenhuma esfera. Isso porque parece que há um julgamento que a união dessas duas vertentes é uma tarefa fácil, uma cartilha da agradabilidade que na verdade carece de uma atenção muito maior da que existe em Altas Expectativas.




Altas Expectativas
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