Às vezes prazeres simples também necessitam ser exaltados, é difícil também encontrar filmes que assumam suas próprias pretensões, que levem a sério aquilo que fazem, mesmo quando não há grandiosos objetivos. Assim como também não abdicam dessa seriedade por acreditarem estarem realizando um trabalho menor ou algo menos digno. É isso que Assim É a Vida gera ao ser exibido, um filme nas suas perfeitas condições, não uma obra prima do cinema, muito menos um título que vem para redefinir a comédia, mas sim um longa que sabe realizar com perfeição aquilo que deseja e por isso merece a atenção do público.

Talvez isso tenha explicação pelo projeto estar na mão de Olivier Nakache e Eric Toledano, os responsáveis por Intocáveis, um filme de inegável sucesso popular, que sabia exatamente atender as necessidades de um público que desejava a seriedade de um drama e a diversão de uma comédia. Aquele filme poderia até ter traços de uma relativa facilidade das opções escolhidas pelos diretores, ou uma aproximação sentimental nada sutil, mas entregava justamente aquilo que propunha e o que o público queria. Em Assim É a Vida o que se pode ver é um abandono daquela esfera emotiva, focando na comédia e em todas suas possibilidades, buscando um diálogo com o público, mas principalmente tentando entender o campo em que joga.

É nessa condição que o filme se sai tão bem, porque uma das coisas que entende é o quão funcional é o humor quando ele está próximo da realidade do espectador, gerando aquele sentimento de que poderia estar acontecendo com qualquer um. No caso, em Assim É a Vida o recorte escolhido pelos realizadores é de um dia dentro de uma equipe de organizadores de casamento, liderada pelo experiente, sério, mas já cansado e sem paciência com seu ofício, Max Angély. Na ocasião da vez, os serviços são prestados para um casal que planeja tudo com perfeição, seguindo o ar pretensioso do noivo, um castelo do século XVII será locado, um Dj renomado tocará, os garçons estarão vestidos de lacaio e assim por diante, mas nem mesmo essa atração musical pode comparecer e o lema de Max já passa a valer, sempre se adaptar.

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Assim É a Vida é uma comédia de situação, com o roteiro escrito para contemplar apenas e concisamente esse dia de casamento, esse evento, as mais de 12 horas que cercam aquele dia de trabalho comum, mas extremamente louco de Max e sua companhia. Isso faz com que nada mais importe, e se há subtramas e desenvolvimentos individuais de cada figura, tudo gira em torno desse evento principal, com esses arcos acontecendo e sendo solucionados através da festa, realizadas por eles mesmos. Assim, o que ocorre é um acúmulo de acontecimentos em progressão dramática, ou seja, fatos que vão deixando aquela festa cada vez mais confusa, mais atribulada e deixando a prova o lema do personagem principal.

O mais interessante é que Assim É a Vida tem esse aspecto parecido com as comédias de Blake Edwards, onde algum evento é minado por uma série de trapalhadas, deixando tudo extremamente caótico e a beira de ruir. E tudo isso aqui vem munido de um realismo muito interessante, fazendo com que essa comédia esteja sempre num plano crível, onde os personagens são sempre coesos e fiéis a suas atitudes, livrando-se de qualquer tipo de exagero. Assim É a Vida, então, consegue ser uma comédia que funciona sem ser apelativa, sem apelar para o pastelão, para o humor sujo, ou para o lúdico, opções que às vezes funcionam, mas na maioria dos casos surgem apenas como opções fáceis para realizadores que subestimam o poder e a dificuldade da comédia.

O que se vê aqui é um filme que se mantém durante suas quase duas horas extremamente coerente com o tom que assume desde o início, em Assim É a Vida os personagens não estão fazendo graças, mas suas ações baseadas em suas características peculiares acabam realizando eventos extremamente cômicos, e isso não os altera de forma alguma, propondo ainda outras situações engraçadas. Talvez esse seja justamente um dos pontos altos do longa, o belo desenho de seus personagens, cada um com uma característica extremamente marcante, que sempre acaba causando uma ação muito maior. Há o cantor substituto que age como se fosse uma grande estrela, o garçom que é um professor frustrado que sempre tem que corrigir a fala dos outros, o lavador de pratos do Sri Lanka que conversa em francês com o resto da companhia, mas faz um comentário sincero sobre a situação em sua própria língua e assim por diante.

São essas figuras que compõem um quadro muito rico dentro dessa narrativa, onde cada um contribui para que esse humor seja crescente. No filme há uma dinâmica que parece uma ciranda, em que cada uma dessas figuras participa para criar esse acúmulo de situações cada vez mais absurdas, ainda que extremamente próximas do público pelo seu realismo. Nessa trajetória, nessa aproximação com a realidade do espectador e com a preocupação na criação de suas personagens fica impossível não entrar na narrativa proposta pela dupla de realizadores franceses, convencendo o público com um humor muito bem feito.

No final da sessão a sensação é de uma obra realizada com muito esmero, uma peça do gênero feita com muita seriedade, e na comédia a seriedade é sinônimo de risos e diversões. Assim É a Vida é um filme que entende perfeitamente suas pretensões e assim faz uma grande comédia.

Assim É a Vida
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