Mulheres Divinas é um filme apoiado numa consciência social, numa característica que coloca sua relevância discursiva acima de qualquer outra coisa. Mais do que isso um filme de certa forma político que visa uma assimilação popular acima de tudo, numa forma de passar mensagens importantes com facilidade para seu público, um entretenimento consciente. Algo que o filme desde o início demonstra cumprir muito bem.

Mulheres Divinas é claramente um filme de representatividades e por isso ganha importância no circuito, mesmo sendo suíço parece ser uma aposta certa de agradar a audiência. Não sendo à toa que seja a aposta de seu país para o Oscar. Há nessa narrativa algo que agrada e conscientiza, que representa sem pesar a mão num discurso social, que personifica processos históricos e envolve o público em sua história, Mulheres Divinas é um filme social nos moldes industriais, entretenimento que se utiliza das reivindicações, assim como matéria política que se utiliza da diversão para ser transmitida.

O longa se passa num pequeno vilarejo suíço, em 1971, onde se discute o direito de voto das mulheres, algo que será decidido pelos homens do país. O lugar parece nada afeito às mudanças, já sabendo que pelo menos naquela região o voto seria contrário. O começo do filme é marcado justamente por uma montagem que mostra a revolução feminina em outros lugares do mundo, afirmando que tudo está em transformação menos aquela cidade, logo depois o primeiro ato foca em mostrar o sofrimento feminino naquele lugar, mostrando a vida da protagonista Nora, dona de casa, mãe de três filhos, que deve cuidar do mal agradecido e mal humorado sogro. Numa vida de opressão constante, ainda que velada por costumes, tradições e hábitos que deixam aquela mulher em seu devido lugar. Assim como sua sobrinha, já aderida a revolução sexual que não se adéqua àquele parâmetro de vida antigo, indo até mesmo parar num reformatório para mulheres, para endireitar a menina.

O que se vê então é um filme onde o espectador é convidado a observar a transformação. Como naquele pequeno clipe no começo do filme, o que se vê é como essa alteração na ordem acontece de forma quase espontânea, irrefreável e totalmente definitiva. Isso, após um momento de consciência, de um acordar para seus próprios problemas. Nora uma vez vai ao centro urbano mais próximo e tem contato com panfletos feministas, didático dessa forma, ela passa a questionar-se sobre o modo que a tratam na sua casa, fazendo com que filhos também lavem a louça, não se omitindo ao sogro machista e peitando a decisão do marido. Ela vai além, tentando mobilizar as mulheres de sua cidade para aquela votação.

Assim, Mulheres Divinas vai mostrando como uma só mulher vai se transformando em um grupo de quatro, com ajuda da senhora viúva dada como louca no lugar, a estrangeira italiana separada e sua irmã que percebe o quão foi errado colocar sua filha numa prisão para moças. Elas então vão tentando reformar o pensamento de uma cidade inteira, fugindo de serem ridicularizadas, mas também se conhecendo nessa jornada. Essa narrativa faz com que o filme aproxime mulheres de todas as idades com aquilo que se vê, como se essa potência reformadora não se restringisse a jovens de outra geração, pelo contrário, dizendo respeito a qualquer mulher. Esse filme personaliza essa questão, acompanhando uma transformação individual para aproximar-se ainda mais do seu público.

Essa é a mesma estratégia de fazer o filme uma comédia, deixando tudo aquilo que se vê como algo leve, sem fazer pesar o fator político que existe numa temática dessas. Assim, o longa leva seu público através de risadas, momentos incomuns e principalmente pela diversão, fazendo com que a sala de cinema e o feminismo sejam, sobretudo, agradáveis. É evidente que às vezes essa tática enfraquece o próprio longa, optando por um caminho mais fácil tanto para cooptar a audiência como para fazer comédia com seu tema.

O que mais incomoda é uma espécie de maniqueísmo fácil, entre o grupo de opositores e as mulheres revolucionárias. E esse grupo contrário é representado por outra mulher, essa sendo estereótipo de um pensamento antigo. Rígida, brava, intransigente e que só pode atacar aquelas mulheres através de jogos baixos, como a humilhação e a chantagem com os maridos que trabalham na fábrica desta personagem. Algo que facilita uma assimilação do público, mas deixa esse embate entre prós e contras num debate muito superficial.

É fato que o grande objetivo e a grande vitória de Mulheres Divinas, escrito e dirigido por uma mulher, Petra Volpe, é conseguir fazer uma obra de conscientização e leveza, conectando aquele grupo de senhoras que aderem a uma causa por igualdade, com qualquer espectadora no cinema. Ainda que exista sim seu didatismo e até seu maniqueísmo, um bom entretenimento consciente não faz mal a ninguém, e aqui isso é muito bem feito.

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