Há pouco tempo, George Clooney anunciou que pretende deixar um pouco seu trabalho como ator em detrimento de seus trabalhos nos bastidores cinematográficos, seja como produtor e principalmente como diretor. O astro parece, nessa afirmação, contestar certo ar de não estar mais atrelado a uma obrigação, como se agora, nesse momento da sua carreira pudesse dedicar-se aquilo que gosta, sem uma responsabilidade. E talvez seja isto que marque a carreira de Clooney como diretor, uma falta de responsabilidade, não que ele realize filmes irresponsáveis, feitos de qualquer jeito, mas que demonstram surgir de uma vontade de seu cineasta, sem uma pretensão comercial, crítica ou até mesmo autoral, incursões que parecem motivadas apenas pelo desejo de seguir alguns caminhos, alguns gostos pessoais.

Isso fica notável em Suburbicon – Bem-vindos ao Paraíso, sua nova comédia de humor negro, algo que pouco se conecta com seus outros longas, alguns de época como o filme em questão (Boa Noite, Boa Sorte; O Amor Não Tem Regras), algumas comédias (Caçadores de Obras-Primas), mas nenhum deles se ligam como Suburbicon em tom, ou até mesmo num trabalho formal e estético do diretor. Algo inegável é que Clooney em anos trabalhando em Hollywood colheu muito repertório, influências e experiência nessa função, algo que também pode ser sentido em seu novo longa-metragem.

Aqui o que se vê é uma profunda conexão com o trabalho dos irmãos Coen, que já trabalharam com Clooney algumas vezes, e ver o roteiro do filme assinado em conjunto com os dois cineastas não é nenhuma surpresa. A referência desses dois autores já consagrados é extremamente presente, e apesar deles já terem escrito roteiros para outros diretores, caso de Ponte dos Espiões, de Spielberg, aqui há muito uma sensação de um filme dos Coen realizado por outra pessoa. Nesse trabalho de Clooney sente-se o peso de uma referência próxima, de um estilo que o agrada e que faz com que o diretor incorpore-o em seu filme, algo que vai muito além da narrativa, mas que está em todo o tom da obra.

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O filme se passa num subúrbio americano dos anos 1950, um espaço sinônimo de conforto, tranquilidade, estilo de vida e segurança. As coisas aparentemente começam a mudar quando uma família negra passa a ocupar uma das casas de Suburbicon, gerando revolta dos moradores locais que não admitem a presença de seus novos vizinhos, com argumentos puramente racistas. Enquanto as tensões raciais aumentam nas pacíficas ruas de Suburbicon, a câmera de Clooney foca na trajetória de uma família no meio de um bizarro caso policial, onde dois homens invadem uma das casas de Suburbicon e torturam pai, mãe e a tia de um garoto, acabando na morte de sua progenitora.

Como na maioria dos filmes dos Coen, principalmente em suas comédias, o que vai sendo mostrado é como aquele caso demonstra ser muito mais absurdo que parece, desenrolando-se numa típica estrutura da comédia de erro, onde um fator desencadeia algo ainda mais absurdo e assim por diante. Suburbicon: Bem-vindos ao Paraíso possui essa dinâmica sempre crescente, sempre mais violenta, que vai inserindo personagens para que a narrativa pareça estar sempre despencando, um desespero, que válida o quanto é cruel e absurdo um mundo aparentemente real e perfeito, denunciando uma sociedade publicitária que realmente esconde seus piores defeitos, e essa condição ganha ainda mais força pelo tom jocoso e irônico existente nos textos do Coen, que ainda tem a colaboração do próprio Clooney e de outro colaborador recorrente, Grant Heslov.

A presença dos Coen não está apenas nesses percursos narrativos, mas também nessa constituição visual pesada, marcada por assumir o bizarro, como se tudo estivesse num exagero, figuras que demonstram estar num modo farsesco constante. Algo visto na atuação, principalmente de Matt Damon, um ser que parece estar numa bipolaridade constante, muitas vezes demonstrando uma raiva sempre emergente, ou na figura de Glenn Flescher, que aqui parece ter saído realmente de um quadrinho dos anos 1950. Esse absurdo está também impresso no visual do filme, como esse bairro marcado principalmente pela artificialidade, por estar próximo a um aspecto publicitário da época, e totalmente distante do realismo, algo que está nos trabalhos de Coen quando investigam algum extrato social, como em Um Homem Sério, Queime Depois de Ler e Ave, César!; mas que encontra eco em muitas outras obras do cinema americano.

Assim, é nesses ecos e espelhos que George Clooney compõe sua direção em Suburbicon: Bem-vindos ao Paraíso. Há uma aproximação de um cinemão americano, aquele que tenta tornar tudo bastante palatável e próximo ao público, concedendo algumas facilidades e conveniências para assimilação de uma grande gama espectatorial. É assim que se explica, por exemplo, a história ser contada pelo ponto de vista de uma criança, o filho da família, interpretado por Noah Jupe (já conhecido por seu excelente papel em O Extraordinário). Nessa estratégia um tanto quanto spielbergiana, a narrativa sarcástica e violenta ganha contornos mais afetivos, provocando um envolvimento psicológico e principalmente sentimental, para que o público se sinta atraído por aquela história, mostrando importância em relação àquele personagem.

O mesmo ocorre com a crítica embutida nessa narrativa, o tenso relacionamento entre aquela comunidade e seus novos integrantes, que não por acaso são negros. O longa denuncia a hipocrisia no discurso racista, dizendo que aquela presença poderia gerar violência, quando na verdade, assim como na história principal do filme, esses atos repugnantes já estão inseridas naquelas casas, nessa sociedade. Ainda que esse seja um paralelo interessante, que demole a pompa daquele lugar, mas o que fica evidente é como essa ligação é óbvia, e está ali só para dar uma importância ainda maior para a narrativa que realmente deseja contar. Dessa forma, essa temática racial parece um tanto quanto oportuna, no mal sentido, existindo não como uma real importância do filme, mas como se existisse para validar o discurso daquele filme, como se quisesse deixa-lo mais consciente e engajado.

Assim, há uma clara distinção de objetivos, propósitos e cinema no longa, deixando mais evidente o filme como fruto dessa vontade de Clooney em realizar um longa que gostaria, unindo a crítica social bastante em voga nas últimas produções, a cooptação emocional do público – praxe no sistema hollywoodiana, e um estilo que lhe agrada, no caso dos irmãos Coen. Subirbicon, então, nasce dessa interessante condição de seu cineasta não precisar prestar contas com estúdios ou crítica, realizando uma comédia de humor negro para o grande público, mas também fruto de um nome que ainda não definiu seus reais e particulares interesses, resultando numa obra que sofre com as diversas referências presentes em Suburbicon. Um filme interessante que parece um bom exercício para George Clooney.

Suburbicon: Bem-vindos ao Paraíso
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