O longa Eu, Tonya parte de um princípio muito nobre, alterar um discurso já petrificado há algum tempo pela mídia e por um discurso oficial, algo que caracterizou para sempre a figura de uma mulher. O longa reconta a história de Tonya Harding, patinadora prodígio que acabou envolvida num escândalo envolvendo seu marido e uma tentativa de sabotar sua concorrente, Nancy Kerrigan. Polêmica que estampou os telejornais diários americanos por algum tempo.

Ao começar com planos fixos em quatro figuras centrais, num aspecto de tela que faz o cinema remeter à televisão de tubo, o recado dado pelo diretor Craig Gillespie parte dessa figura forjada por um árduo trabalho midiático. Como se ali estivesse sendo desvendada aquelas figuras que todos só conhecem por um registro transmitido numa tela 16 por 9 ou algo ainda mais quadrado. O confronto é este, o discurso visto ali busca entender, ou deseja que o público compreenda que há outra Tonya Harding, desconhecida por praticamente todos.

Há esse objetivo de buscar até mesmo uma honestidade numa figura já condenada, dar outra dimensão a Tonya Harding é realmente o objetivo do longa triplamente indicado ao Oscar. Assim, o filme foca na infância atabalhoada da patinadora, seu complexo e quase indecifrável relacionamento com uma mãe opressora, sua paixão pelos treinos de patins (sua única atividade), seu casamento abusivo e o preconceito da associação e juízes de patinação no gelo em relação à mulher interiorana e nada elitizada. Algo que coloca essa personagem em destaque pela diferenciação em relação ao comportamento de vida de outras atletas.

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Essa missão que busca humanizar a protagonista vem unida de outra obsessão do longa, um desejo por ser a verdade. É até curioso como um longa que busca desconstruir um retrato feito pela mídia, acredite plenamente que sua representação será de fato a mais próxima da realidade. Esse desejo por se apresentar como verdade parece fazer com que o longa sempre esteja reafirmando seu lado, como se a narrativa não valesse a pena, como se os motivos apresentados ali não fossem o suficiente para romper com um retrato pré-fabricado.

Algo que fica extremamente marcado, por exemplo, nos créditos finais onde o longa mostra como alguma de suas sequências são idênticas com as que passaram nos jornais décadas atrás, como se a aproximação com a imagem real validasse aquilo que se viu, como se o filme ganhasse ponto ao reproduzir fielmente a realidade (ou aquilo que se viu da realidade). Há até mesmo um momento onde os personagens rompem a quarta parede, conversando com o público, para reforçar “isso realmente aconteceu”. Eu, Tonya só existe realmente se essa realidade for reconstruída e tomada como verdade por seu público.

Tanto essa reprodução, quanto a quebra da quarta parede são artifícios construídos pelo longa para cooptar sua audiência, para forçar uma empatia entre aquela personagem e público. Há realmente a sensação de que há essa necessidade de criar aparatos para que haja um maior interesse naquela história pelo ponto de vista que se conta, como se o drama dos personagens não fosse o suficiente, ainda que ali esteja uma pessoa que vem do fracasso rumo ao sucesso, uma criança e depois esposa que sofre abusos sempre relacionados a seu esporte e um sonho destruído por uma obsessão.

Mesmo com todos estes elementos, Eu, Tonya tem um desejo absurdo por querer conquistar seu espectador de qualquer forma, seja por sua conexão com real (a relevância da narrativa fora das telas), seja por buscar uma aura pop em torno naquele drama. O longa torna-se aquele típico filme que quase todas emoções são embaladas por uma música de sucesso, a fim de potencializar os sentimento do público utilizando-se das emoções de uma canção pop. A colagem musical muitas vezes é apenas uma embalagem para aquilo que se vê, conquistando por um fator outro que não está dentro do filme propriamente dito. Algumas vezes apenas o diretor faz da sua trilha musical um comentário inteligente, como a utilização de Romeo and Juliet, a balada romântica do Dire Straits mostrando o espancamento de Tonya por seu marido.

Essa aura pop enfraquece o sentimentos que podiam ser causados por aquela narrativa, como se o espectador tivesse ali apenas um bastião de carisma, como se ele precisasse gostar e não ser incomodado por aquilo que se vê. A montagem rápida, extremamente dinâmica, a já comentada trilha pop, as inúmeras tiradas sarcásticas e até os letreiros chamativos que pontuam a trama, afastam a narrativa de uma humanidade que parecia ser buscada. Eu, Tonya pega emprestado os clichês de outros gêneros, talvez o filme de gangster pós-Scorsese, ou uma tentativa de imitar aquele estilo que deu muito certo com o cineasta ítalo-americano. Todavia nessa outra versão, o que os realizadores não percebem é que só substituíram uma imagem pré-estabelecida por outra, apenas mais cinematográfica, carismática por esse senso de popularidade e não pelos motivos humanos.

Seria injusto dizer que a direção de Gillespie não tem seus momentos, por exemplo, quando Tonya sai de casa e um falso plano sequência vai mostrando seu marido desolado em todos os cantos da casa, enquanto a câmera quase na perspectiva da protagonista vai literalmente embora. Ou até mesmo os efeitos técnicos quando retratam as competições, e o público parece patinar com a heroína. Toda vez, nesse jogo de artifícios o que se vê é uma personagem mais uma vez distante de um material verdadeiro, fruto apenas de jogos narrativos para uma aceitação facilitada. No final, é difícil que se entenda uma certa moral da história, que veja ali uma mulher além da figura caracterizada por anos, pois Eu, Tonya segue esses mesmos procedimentos.

Felizmente o longa contém Margot Robie e a atriz realmente parece a única coisa conectada com o real, não com a reprodução da realidade, nem pautada no artifício, mas sim nas emoções, transportando-se para um corpo dolorido que nunca teve suas cicatrizes escutadas. Enquanto o filme reproduz esse discurso da popularidade, aquele que um plano criminoso parece interessante, ou um tapa na cara pode soar engraçado. Robie, também produtora do longa, vai no sentido contrário, tenta encontrar o sofrimento, até mesmo quando patina nada parece encaixado, quando atinge uma marca importante o choro toma conta do riso, num percurso onde nada parece estar no alcance de Tonya. A cena em que a atriz/personagem se encaram no espelho depois de toda a polêmica mostra como a atriz é a única capaz de desvendar essa figura que se torna lenda, que vira apenas uma imagem nas mãos da mídia.

Fato é que apenas esse ponto é incapaz dentro de um filme que clama por essa popularidade, algo que soa até mesmo injusto com aquela figura real, quando a sua possibilidade de redenção, de dar sua perspectiva para uma história extremamente divulgada vire justamente outro circo. Uma fonte apenas para um entretenimento, com uma trilha embalada, que faz o público cantar enquanto a heroína apanha, perde seu chão, cai e é totalmente arruinada. Mais uma vez o público ganha aquilo que quer, a falsa impressão de realidade.

Eu, Tonya
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