Roman Polanski é um diretor que possui um histórico de obras relevantes, enveredando por tramas que dialogam com a psique de seus personagens centrais. A sua Trilogia do Apartamento, constituída por Repulsa ao Sexo (1965), O Bebê de Rosemary (1968) e O Inquilino (1976), evidencia o protagonismo de uma apropriada disfunção que circunda toda a história, imersa num desvario imagético, acrescido de uma ambiência que alterna entre perturbação e repugnância. Todavia, em Baseado em Fatos Reais, o diretor não consegue sequer introduzir minimamente nenhum desses aspectos.

A figura da mãe serve de estímulo para a publicação lançada por Delphine Dayrieux (Emmanuelle Seigner), escritora que passa muito tempo reclusa após ser abandonada pelos filhos. Porém, a chegada de Elle (Eva Green), uma admiradora, não só mudará o curso de sua vida, mas também provocará alterações em seus limites criativos – ou ausência deles – em meio a essa conexão desarticulada, proposta a partir da adaptação do livro de Delphine de Vigan, cujo título é preservado pela obra cinematográfica.

Polanski é o responsável pelo roteiro ao lado de Olivier Assayas (Personal Shopper, 2016), porém a dupla bem quista parece um tanto errática ao nos apresentar a figura de Elle inserida prematuramente no mundo da protagonista, contribuindo para o estabelecimento da artificialidade das ações sequenciais do papel encarnado por Green, principal fator transformador do filme, que tenta a todo custo sedimentar características de um thriller, mas que não passa de um jogo de aparências desbaratinado, diante da frivolidade de suas personagens.

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O longa não escapa nem mesmo dos clichês considerados pré-requisitos na vida de um escritor, incluindo a crise criativa sintetizada através de uma tela de computador em branco, além de declarações dadas numa entrevista sobre a agonia relacionada ao trabalho. A partir daí, tudo passa a estar tão deglutido que não há instauração de clima algum no filme, sufocado por uma impessoalidade que o mantém inerte a esse universo inanimado diante de seu formato carregado de previsibilidade.

Artifícios visuais mais que manjados são adicionados a alguns fragmentos, como a recorrente aparição do vermelho nas unhas de Elle, no batom que delineia os seus lábios e também no lenço que compõe sua indumentária, entregue de presente por Delphine. Assim como a cor que remete ao sangue, componente encontrado em várias narrativas de suspense ou tramas psicológicas, a palidez destacada no rosto de Elle pode ser facilmente considerada uma metáfora para o seu ofício de ghost writer, onde a execução de uma literatura invisível cria um embate com a ausência de transparência de sua reservada personagem, exceto nos momentos de intrusão que geram um paradoxo incompreensível.

É no mínimo inesperado que realizadores gabaritados como Polanski e Assayas criem um roteiro tão pouco atraente como o desse longa, fruto de uma narrativa mal desenvolvida, cuja progressão inexiste diante do perfil retilíneo de seus personagens e da escassez de recursos responsáveis por habilitar uma ambiência de suspense, refém de seu porte inexpressivo. Entretanto, Baseado em Fatos Reais soa crível se levarmos em consideração o fato de que a vida tem lá seus momentos de marasmo, assim como a obra de Polanski; o problema é que aqui esses instantes são constatados em sua totalidade.

Baseado em Fatos Reais
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