Em muitos períodos históricos, líderes políticos, ditadores e mandantes de moral deturpada, tidos como revolucionários, trabalharam somente em favor de seus interesses pessoais. Autocentrados, acreditavam que suas preleções equivocadas eram capazes de amaciar a desumanidade de seus atos, quando já não havia mais saída para a reparação das barbaridades cometidas. Colheita Amarga, de George Mendeluk, aborda a foracidade das ações provocadas por Josef Stalin, deixando a população ucraniana em estado de fome extrema.

O diretor se lança de forma ambiciosa nessa narrativa que tenta destacar as camadas dos fardos individuais de cada personagem, porém o único que recebe a devida atenção é Yuri Kachaniuk (Max Irons), artista que fará de tudo para livrar Natalka (Samantha Barks), o amor de sua vida, dessa tragédia colossal que assola a Ucrânia. A história gira em torno de sua luta e de sua superação, porém a direção inexpressiva de Mendeluk não ajuda na condução desse protagonista nada preeminente, fadado a um desempenho irregular e pouco convincente.

O filme é invadido por uma narração em tom explicativo logo em seu início, apressando o conteúdo essencial à sua trama, cujo intuito é tornar o contexto histórico o mais acessível possível ao espectador, porém isso restringe os dotes visuais da obra, alocando-a num estilo que naufraga devido à sua ancestralidade.

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A plasticidade de Colheita Amarga é diagnosticada já nas primeiras sequências, dotadas de uma luminescência que ornamenta as declarações apaixonadas de Yuri e Natalka, injetando a essa relação um aspecto puro, quase divino, todavia isso serve apenas para confirmar o ar piegas que cerca toda a obra. Um entardecer entre moinhos, localizados próximos aos campos de colheita, reitera o culto ao belo, num filme que faz questão de exibir a drástica transição entre o formoso e o cadavérico, além de se mostrar perito em desconfigurar a ação central de suas cenas quando evidencia a composição visual de seus quadros, colocando-a como elemento principal.

Apesar de possuir uma narrativa cujo tema traz consigo elementos densos como a instituição de um clima opressor, capaz de levar os indivíduos expostos a essa catástrofe à distorção da realidade, enxergando-a como o maior dos inimigos, o filme não deslancha. Preocupado com a constante solidificação de seus atributos visuais, Colheita Amarga, assim como sugere o seu título, carrega um amargor por achar justamente na ostentação da imagem o esvaziamento de sua emoção. Ao retratar o Holodomor, também conhecido como a fome genocida que devastou a Ucrânia, o longa não consegue transmitir de modo genuíno a repressão ao individualismo, tampouco a expressão do desespero latejante da época, aqui violados devido ao acúmulo de manipulações estéticas da obra.

Colheita Amarga
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