Maria Augusta Ramos possui em seu histórico documentários que discutem o sistema judiciário brasileiro, como Justiça (2004) e Juízo (2007). Em O Processo, a diretora segue pelo mesmo caminho, por tratar o impeachment como algo que parte de um procedimento político-jurídico, permeado por um jogo repleto de brechas, onde reina a insuficiência de discursos imparciais, dado o recorte proposto, que investiga esse momento histórico do Brasil com certo comedimento, mas sem a omissão de sua visão política.

Em seus primeiros minutos, o filme nos mostra a votação na Câmara dos Deputados sobre o desligamento da então presidente Dilma Rousseff, cujo processo de impeachment foi uma chantagem explícita de Eduardo Cunha, que mais tarde teria o seu mandato cassado pelo plenário da Câmara. A falta de apoio da oposição levou o político a ameaçar o Partido dos Trabalhadores a esse ponto, colocando a Chefe de Estado na linha dos bombardeios mais estrondosos, tendo como principal munição uma carga elevada do ódio mais inflamável.

Alguns elementos tornam O Processo uma obra refém de seu didatismo, que parte do excesso de cartelas, presentes ali para delimitar o longa em módulos. Ainda fixado na fórmula, a presença da câmera na mão seguindo a senadora do Paraná e atual presidente nacional do PT, Gleisi Hoffmann, traz esses momentos de instabilidade vistos habitualmente em registros não ficcionais, bem como a adição de imagens de arquivo da TV Câmara e da TV Senado, que corroboram o depauperamento do filme. Em contrapartida, o documentário não é nada palatável para o público desconhecedor de assuntos e termos políticos, deixando-o a ver navios a partir do ingresso das pedaladas fiscais nos discursos.

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No decorrer de sua narrativa, o longa expõe a protelação no afastamento de Eduardo Cunha, acusado de lavagem de dinheiro, bem como destaca José Eduardo Cardozo, advogado-geral da União e responsável por defender Dilma no processo de impeachment, optando por exibir os instantes mais portentosos de sua oralidade, que evidencia a parcela emocional do documentário. A cena em que refuta as palavras de Janaína Paschoal, advogada e uma das envolvidas no processo contra a presidente, soa como a síntese da obra em si. Quando Cardozo fala que a crise de consciência dos acusadores não elimina a maquinação de seu golpe, ele representa a parcela inconsolável da população diante do resultado da suja manobra.

Por fim, o longa cede espaço à Dilma Rousseff, provida de uma fala que propicia questionamentos a respeito do sexismo existente no meio político, além de explicitar as distintas dores já sofridas por ela, dores estas referentes ao período da Ditadura Militar, quando foi torturada, ao câncer no sistema linfático que a acometeu, chegando ao pesar da injustiça do impeachment, considerado um faz de conta e um jogo de cartas marcadas.

O Processo não mascara o seu posicionamento político, contando a história pela ótica do PT. Ainda que se atenha ao propósito de visibilizar a evidente desonestidade presente na grosseira arapuca capitaneada por adversários políticos, o real antagonismo do filme se concentra em seu formato, cujo esforço em atingir a crueza serve apenas para levá-lo a um caminho rudimentar. Notório mesmo só o golpe parlamentar abordado, uma vez que a diretora Maria Augusta Ramos não valoriza a influência do assunto como deveria, assim como não vislumbra a potência da linguagem de seu documentário.

O Processo
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